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Kátia Flávia
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Bastidores: reality de casais vira caso de polícia e episódios são retirados do ar após denúncias de estupro

Relatos de participantes expuseram falhas de proteção nos bastidores de “Casamento à Primeira Vista Reino Unido”, suspenderam patrocínio e pressionaram autoridades britânicas

Brenno

22/05/2026 13h44

Governo britânico classificou as acusações como graves e cobrou apuração dos fatos

Governo britânico classificou as acusações como graves e cobrou apuração dos fatos

Denúncias de estupro envolvendo o reality britânico “Casamento à Primeira Vista” transformaram o programa em caso de polícia no Reino Unido e levaram o Channel 4 a retirar episódios do ar. Eu já tinha atravessado a manhã de sexta entre academia, cabeleireiro e uma ligação que parecia ter saído direto de uma sala de crise, quando decidi que a tarde precisava de uma virada decente. Sextou, minhas filhas, mas sextou para trabalhar. Mandei mensagem para uma produtora amiga perguntando onde eu deveria aparecer mais tarde — almoço tardio, café com fonte ou pré-esquenta cultural — e ela respondeu: “antes disso, lê essa bomba”. Abri. O café esfriou. Reality de casamento virou investigação criminal, e a sexta perdeu o direito de fingir leveza.

A investigação do programa “Panorama”, da BBC, revelou denúncias de duas mulheres que afirmam ter sido estupradas durante as gravações do “Married at First Sight UK”, exibido pelo Channel 4. Uma terceira participante relatou ter sido vítima de um ato sexual sem consentimento. O governo britânico classificou as acusações como “graves” e afirmou que deve haver consequências caso crimes ou irregularidades sejam confirmados.

O Channel 4 afirmou que encomendou uma revisão externa dos protocolos de bem-estar do programa após receber “graves denúncias de irregularidades”. O ministro da Segurança do Reino Unido, Dan Jarvis, afirmou estar “extremamente preocupado” com o caso e disse que, pela gravidade das acusações, é provável que os fatos sejam encaminhados à polícia.

O “Casamento à Primeira Vista Reino Unido” é apresentado como um “experimento social” em que pessoas solteiras aceitam formar casais com desconhecidos, encontrados pela primeira vez em cerimônias de casamento encenadas. Depois, os participantes passam por uma “lua de mel” e começam a morar juntos, com a rotina filmada quase diariamente. Os casamentos não têm validade legal.

Caroline Dinenage, presidente do Comitê de Cultura, Mídia e Esporte do Reino Unido, afirmou que o formato do programa já envolvia risco por colocar pessoas que acabaram de se conhecer em um ambiente de intimidade intensa. Para ela, as medidas de proteção deveriam existir antes, durante e depois das gravações.

As três mulheres ouvidas pela BBC acusam os homens com quem formaram casal no reality. Uma delas afirmou que o homem apresentado como seu marido a estuprou e a ameaçou. Outra relatou ao Channel 4 e à CPL, antes da exibição, que havia sido supostamente estuprada pelo parceiro do programa, mas os episódios foram ao ar. A terceira, Shona Manderson, identificada publicamente, acusou Bradley Skelly de ato sexual sem consentimento.

Os homens citados negam as acusações. Os advogados de um deles afirmaram que todas as relações foram consensuais. A defesa de outro disse que a relação começou de forma consensual e foi interrompida quando ele percebeu ausência de consentimento. Skelly negou “qualquer acusação de má conduta sexual” e rejeitou a alegação de comportamento controlador.

O caso expõe uma pergunta que a televisão adora empurrar para debaixo do tapete com iluminação bonita e trilha emocional: até onde vai o entretenimento quando a vida real de participantes entra em risco? Reality gosta de vender romance, tensão, beijo, lágrima e reencontro no altar. Mas, quando surgem denúncias desse tamanho, não existe edição que salve. O Channel 4 apagou episódios, patrocinador pulou fora, o governo cobrou consequência e a polícia pode entrar no roteiro. Sextou, sim. Mas tem sexta em que a pauta chega de salto pesado, chuta a porta e lembra: audiência nenhuma vale mais do que proteção.

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