Fernando Castro, chefe de redação da Globo em São Paulo, teria deixado o trabalho após uma discussão com Ana Escalada, diretora regional de jornalismo, e avisado à cúpula que não pretende retornar enquanto continuar subordinado a ela. A informação foi publicada pelo Diário do Centro do Mundo, e a Globo não se manifestou.
Eu desliguei a cafeteira italiana quando ela começou aquele borbulho de quem já entregou tudo, coei o café na xícara azul e cortei uma fatia grossa de melancia gelada. O sol do Cosme Velho já brilhava sem pedir licença no azulejo da cozinha, e eu ali, equilibrando cafeína e fruta, quando apareceu a notícia da guerra fria com ar-condicionado na redação da Globo.

Segundo a publicação, o desentendimento começou por causa de uma reportagem do “Jornal Hoje”, na segunda quinzena de agosto. A conversa profissional teria subido de tom e chegado a ofensas pessoais diante de outros jornalistas, até Castro deixar a emissora no meio do expediente. Meu amor, se uma pauta do “Jornal Hoje” consegue virar isso, imagina uma reunião sobre orçamento de novela.
Castro trabalhou por quatro anos como editor-chefe do “Jornal Nacional” no Rio antes de chegar a São Paulo, em 2019, escolhido por William Bonner. Ana Escalada comanda o jornalismo paulista da emissora há seis anos e, ainda segundo colegas ouvidos pela reportagem, tem um estilo mais rígido de gestão, enquanto Castro é visto como um profissional mais acessível e bem-humorado.
Eu tomei um gole do suco de melancia e quase ri com a imagem mental: duas pessoas importantíssimas, cercadas de monitor, teleprompter e plantão, vivendo o maior “não falo mais com ela” corporativo do país. A diferença é que, nessa turma, até o silêncio deve ter vinheta, GC e alguém perguntando se pode entrar ao vivo.
O impasse ganhou outro tamanho depois que Castro voltou à redação na madrugada para retirar seus pertences. Ele teria comunicado a Ricardo Villela, diretor-geral de jornalismo, e a Miguel Athayde, diretor-executivo, que não aceita retornar se tiver de responder novamente a Ana Escalada.

A cúpula tenta agora encontrar uma saída para manter os dois profissionais na empresa. E eu vou dizer uma coisa: retirar os pertences de madrugada não é gesto de quem apenas “precisa de um tempinho”. Isso é a versão jornalística de fechar a porta, pegar a bolsa e deixar o grupo da família no silencioso.
A confusão acontece num momento em que a direção de jornalismo já lida com ruídos na GloboNews e críticas internas envolvendo César Tralli nas sabatinas com candidatos à Presidência, segundo a mesma reportagem. Na minha cozinha, o café já tinha acabado e a melancia estava no fim, mas a conclusão ficou inteira: quando a redação mais poderosa do país vira campo minado, não há ponto eletrônico que dê conta.