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Kátia Flávia
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Baleias voltam a Cairu e Morro de São Paulo vira camarote do Atlântico

Kátia Flávia

28/07/2026 14h16

A temporada de observação de jubartes movimenta Cairu, Morro de São Paulo e Boipeba entre julho e novembro.

A temporada de observação de jubartes movimenta Cairu, Morro de São Paulo e Boipeba entre julho e novembro.

Eu atravessando a ponte de volta de Niterói, com a mala meio feita, voo pra Ibiza saindo de madrugada e uma lista de compras no Rio Sul que já estava atrasada quando o telefone tocou. Do outro lado, uma fonte da Bahia querendo saber se eu já tinha visto “a novidade das jubartes”. Já tinha. Encostei o carro na altura do Flamengo e ouvi tudo com a paciência que eu normalmente reservo para maître de restaurante lotado.

O assunto: a temporada de observação de jubartes no arquipélago de Cairu, que vai de julho a novembro deste ano. Os passeios saem diariamente da Terceira Praia, em Morro de São Paulo, e do píer de Boipeba, sempre que o mar deixa. Embarcação para até quinze pessoas, até quatro horas de duração, guia capacitado pelo Projeto Baleia Jubarte a bordo e roteiro que muda a cada saída, porque quem decide o trajeto é a baleia, não a agência. Valor médio de R$ 400 por pessoa, sem idade mínima, reserva só por agência credenciada no programa Viva Cairu.

Agora, o detalhe que interessa e que quase ninguém vai ler direito: o avistamento não acontecia por acaso. Ele já rolava há anos de forma espontânea, com barco de conhecido, palpite de marinheiro e sorte. O que a Prefeitura de Cairu fez foi regulamentar, credenciar e transformar aquilo em produto turístico com regra escrita. Os marinheiros passaram por treinamento oficial da Secretaria de Turismo da Bahia, em parceria com o Projeto Baleia Jubarte e a Marinha do Brasil, cobrindo legislação ambiental, normas de segurança, técnica de navegação e distância de aproximação. Isso muda tudo. É a diferença entre turismo de natureza e perseguição marítima com celular na mão.

E tem contexto biológico que dá o tamanho do espetáculo. Todo ano essas senhoras saem das águas geladas da Antártida e nadam milhares de quilômetros até o litoral baiano para acasalar e parir. Chegam com até 16 metros e cerca de 40 toneladas, e fazem de Morro de São Paulo, Boipeba, Garapuá e do Banco de Tinharé maternidade e palco ao mesmo tempo. Salto inteiro fora da água, batida de cauda, nadadeira no ar, filhote colado na mãe. A expectativa este ano está alta porque já registraram um número grande de animais na região.

A leitura de bastidor é econômica, e aqui mora a jogada. Segundo semestre no Nordeste sempre foi o período magro, aquele em que pousada faz promoção e restaurante reduz equipe. Colocar as jubartes no calendário oficial cria demanda justamente nos meses em que o destino costumava respirar por aparelhos. A Associação Comercial e Empresarial de Cairu, que está à frente do Workshop Visite Morro, entendeu isso rápido e virou entusiasta declarada da regulamentação. Turismo de experiência com selo de conservação ambiental vende para um público que paga mais, reclama menos e posta melhor.

O único item fora do controle de qualquer prefeitura: ninguém garante que a baleia vai aparecer. São animais livres, com agenda própria, e a saída só é cancelada quando a navegação oferece risco de verdade. Você paga pela chance, não pelo resultado. Escassez, meus amores, é a melhor assessoria de imprensa que existe.

Anotei tudo, prometi para a fonte que assim que eu voltar de Ibiza dou uma chegadinha em Morro de São Paulo para conferir com meus próprios olhos. Vou trocar o iate branco de Formentera por um barquinho de quinze lugares na Terceira Praia sem nenhum drama. A diferença é que na Espanha eu preciso fingir surpresa quando alguém salta na minha frente. Na Bahia, a criatura tem 40 toneladas e nenhum interesse em ser fotografada.

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