O telefone tocou enquanto o almoço esfriava num restaurante lá na orla de Bari, e o contato de Ciudad del Este atendeu na segunda chamada com aquela voz de quem já sabe que o assunto é sério. Um avião bimotor da Aerotax, fretado pela Prosegur para transportar R$ 15 milhões e mais US$ 5 milhões em espécie, caiu no domingo no assentamento San Isidro, em Minga Guazú, a 750 metros da pista do Aeroporto Internacional Guaraní. O piloto morreu. Três passageiros ficaram feridos. Uma segunda aeronave da mesma operação completou o trajeto sem uma arranhão.
Quando os moradores chegaram ao local, as autoridades ainda não tinham aparecido. As cédulas estavam espalhadas pelo campo. O relato que veio pelo telefone foi direto: dezenas de pessoas recolheram o dinheiro antes de qualquer viatura chegar. O comissário Carlos Duré confirmou que pelo menos US$ 2 milhões desapareceram, as buscas foram feitas e o dinheiro não voltou. A Prosegur ficou no silêncio.


Aí veio a parte que o contato contou com uma voz mais baixa. Um grupo criminoso passou a abordar os moradores que tinham pego as cédulas, usando uniformes falsos para se passar por policiais e promotores. Pelo menos um caso de extorsão já foi registrado pelas autoridades paraguaias. Quem achou que tinha ganhado na loteria acabou com um ladrão fantasiado de delegado batendo na porta pedindo tudo de volta.
Na fronteira entre o Paraguai e o Brasil, esse tipo de roteiro tem nome: é dia normal numa terça-feira. Mas avião da Prosegur caindo, dinheiro voando e bandido fardado esperando do outro lado é muito, mesmo para Ciudad del Este. O contato encerrou a ligação com uma frase que resume tudo: “Aqui ninguém viu nada, ninguém sabe de nada e ninguém vai devolver nada.“