Juliano Cazarré foi à GloboNews falar sobre masculinidade e acabou espalhando uma fake news sobre feminicídio, e eu já estava no começo da tarde, saindo de uma reunião com a cabeça fervendo, quando esse vídeo me apareceu no celular como quem joga um balde de água quente na paciência alheia. Amores, tem hora que a televisão ao vivo parece teste de pressão arterial para colunista.
Durante o debate, o ator da Globo tentou rebater dados sobre violência contra mulheres afirmando que o Brasil seria violento “contra homens, contra negros, contra brancos, contra crianças, contra idosos”. Até aí, ok, o país é mesmo violento. O problema veio quando ele soltou o número errado com pose de estatística pronta: “Inclusive mais mulheres mataram homens do que homens mataram mulheres. Tem 2.500 homens assassinados por mulheres no período em que nós tivemos 1.500 mulheres assassinadas por homens”.



A frase circulou rápido porque junta três ingredientes perigosos: tema grave, número falso e palco grande. Os dados citados por Cazarré já vinham rodando nas redes desde o ano passado e foram desmontados por especialistas. A conta mistura estatísticas diferentes, usa um percentual antigo e fora de contexto e aplica esse índice ao total de mortes violentas de homens no Brasil, incluindo casos de violência urbana, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes por intervenção policial.
Ou seja, minha filha, é aquela matemática de grupo de WhatsApp que chega toda arrumadinha, mas desmancha quando alguém acende a luz. A comparação com feminicídio é incorreta porque feminicídio tem classificação específica: é o assassinato de mulheres por razão de gênero. Não dá para pegar mortes violentas de homens em contextos completamente diferentes, jogar uma porcentagem global de 2013 por cima e apresentar isso como prova em debate sério.
O mesmo levantamento internacional usado de forma torta ainda mostrava um dado que ficou convenientemente fora da fala: 40% dos homicídios de mulheres no mundo eram cometidos por parceiros íntimos naquele período. Dados mais recentes da ONU apontam que 60% dos feminicídios no mundo acontecem dentro da família ou em relações afetivas. Entre homens, a proporção de homicídios na esfera privada fica em cerca de 12%.
Cazarré também defendeu o evento que organiza para homens e negou relação com o movimento redpill. Disse que escuta mulheres, que cuida das filhas, que é delicado, que fala sobre sentimentos e que seu curso seria “só um pouco de bom senso”. A questão é que bom senso, quando encosta em feminicídio, precisa vir acompanhado de dado correto. Caso contrário, vira munição para relativizar uma violência que mata mulheres justamente dentro de casa, no namoro, no casamento, na separação e no silêncio.
No idioma oficial desta coluna, o problema não é homem de bigode falando que chora com coisa bonita. O problema é entrar num debate sobre masculinidade e feminicídio levando número torto como se fosse troféu. A GloboNews chamou para conversa séria, Cazarré levou dado de internet, e quem pagou a conta foi a informação. Forte mesmo, meu amor, é defender homem sem atropelar a verdade sobre mulheres mortas.