José Trajano voltou a bater pesado no mercado esportivo brasileiro. Em entrevista ao Estadão, o jornalista afirmou que não considera compatível um profissional da imprensa fazer publicidade para casas de apostas e resumiu o avanço das bets no futebol com uma frase daquelas que derrubam a mesa: “As bets compraram todo mundo”.
Eu já estava no quarto em Campos do Jordão, brigando com o Wi-Fi do hotel como quem negocia tratado internacional, quando esse trecho caiu no meu colo. Tirei o cachecol, sentei na beirada da cama e falei sozinha: pronto, Trajano acordou e escolheu dinamitar a placa de publicidade inteira do futebol brasileiro. Minha filha, quando ele começa com “eu e o Juca nunca fizemos”, pode preparar o capacete.
A pergunta era direta: jornalista esportivo pode fazer propaganda de casa de aposta? Trajano foi mais direto ainda. Disse que não, lembrou que ele e Juca Kfouri estariam entre os poucos que nunca aceitaram esse tipo de publicidade e puxou o fio de uma discussão antiga, que antes passava por bebida, cigarro e outros produtos sensíveis.
O alvo principal da fala foi o avanço das bets sobre tudo: clubes, campeonatos, emissoras e jornalistas. “A bet ganhou… comprou todo mundo”, disse Trajano, antes de citar Galvão Bueno como exemplo de figura onipresente em campanhas durante a Copa. Segundo ele, Galvão aparecia “em off ou o rosto” em anúncios variados, incluindo bet, e não precisaria disso pelo dinheiro que já acumulou na carreira.

A parte mais venenosa da declaração veio quando Trajano falou dos valores oferecidos a jornalistas. Segundo ele, enquanto muita gente ganha R$ 10 mil, R$ 20 mil no trabalho fixo, aparecem empresas oferecendo R$ 100 mil, R$ 200 mil ou R$ 300 mil para o profissional colocar boné, vestir camiseta e fazer propaganda. É aí que o discurso da independência editorial começa a suar frio no ar-condicionado do estúdio.
E aqui Kátia precisa abrir a gaveta da maldade com recibo: quando o mesmo ecossistema que cobre futebol também recebe dinheiro pesado de casa de aposta, a pergunta deixa de ser moralista e vira básica. Quem fiscaliza quem, se todo mundo está no mesmo camarote, com a mesma marca no telão e o mesmo cupom piscando na tela? A fronteira entre jornalismo, entretenimento e publi virou uma linha tão fina que só aparece com lupa e má vontade.
Trajano também citou a estrutura do futebol inteiro. Lembrou que a CBF, o Campeonato Brasileiro, a Globo e a maioria dos clubes têm relação comercial com bets. Ou seja, não é só o comentarista fazendo post no intervalo. É a indústria inteira sentada na mesa, com a ficha colorida na mão e dizendo que está tudo sob controle.

Para ele, a saída passa por legislação mais dura. Trajano defendeu que a propaganda de apostas seja restringida como aconteceu com cigarro e bebida, com limites claros de horário, formato e exposição. O Estadão ainda lembrou que o governo federal anunciou novas regras para publicidade de apostas, incluindo alertas obrigatórios como “Apostar faz você perder dinheiro”, “Apostar pode causar dependência” e “Aposta não é investimento”.
A fala pega porque vem de alguém que viu o jornalismo esportivo nascer, crescer, se vender, se reinventar e virar essa salada de transmissão, influenciador, mesa-redonda, streamer e patrocinador de odds. Trajano pode ser ácido, pode ser exagerado, pode ser de outra escola, mas nessa ele cutucou uma ferida real: o futebol virou vitrine de bet, e muita gente que deveria explicar o problema está ocupada demais fazendo publi dele.
A frase que fica é a mais simples e a mais incômoda: “As bets compraram todo mundo”. E quando um veterano desses solta uma dessas, não é só rabugice de quem “veio de longe”. É aviso de incêndio no estúdio.