Eu estava no Cosme Velho quando essa história do Kelvin Anesi chegou inteira para mim. E inteira mesmo, porque uma coisa é alguém aparecer na internet reclamando que não entrou numa festa. Outra, completamente diferente, é você começar a olhar as mensagens, entender a viagem, descobrir que houve mudança de agenda, dinheiro gasto, compromisso profissional envolvido e, no fim, receber como explicação que um e-mail foi enviado “por engano”.
Aí eu fiquei indignada.
Primeiro porque Kelvin Alexandre Anesi não estava tentando entrar de penetra em lugar nenhum.

O estilista e criador de conteúdo vive uma ótima fase profissional. No Instagram, já reúne mais de 200 mil seguidores , fala de moda, entretenimento e dos próprios bastidores da vida profissional e vem conseguindo números expressivos com seus vídeos. Em uma sequência recente mostrada no próprio perfil, há conteúdos com 80 mil, 157 mil e mais de 200 mil visualizações.
E Kelvin não é apenas influenciador. É fashion designer, fundador de seu próprio ateliê e alguém que construiu sua presença digital justamente em torno da moda. Portanto, quando uma marca internacional de perfumaria o procura para uma ação envolvendo moda, beleza, lifestyle e produção de conteúdo, existe uma lógica profissional ali. Não era um rapaz pedindo pulseirinha na porta.
Era trabalho.
E foi assim que a ARMAF, marca de perfumaria dos Emirados Árabes Unidos que vem ampliando sua presença no Brasil, entrou nessa história.
Kelvin recebeu um convite relacionado à ARMAF House, evento marcado para 5 de setembro, em São Paulo. O material que chegou a ele falava em uma colaboração por permuta destinada a criadores selecionados e trazia até aquilo que o convidado deveria entregar à marca.
Não era pouca coisa.
Um vídeo com sua experiência no evento. Cinco stories no Instagram. Confirmação obrigatória de presença. E permanência mínima de três horas.
Eu li essa parte duas vezes.
Porque existe uma diferença gigantesca entre “estamos montando uma lista e gostaríamos de saber se você tem interesse” e uma comunicação que apresenta evento, data, horário e uma relação de entregas esperadas daquele criador.
E tem um detalhe fundamental nessa história: Kelvin não mora em São Paulo.
Segundo o relato dele, o convite mexeu diretamente com sua programação. Kelvin já estava na cidade, mas prolongou sua permanência em São Paulo justamente para conseguir participar do compromisso. Isso significou reorganizar agenda e assumir despesas extras. Ele afirma que teve prejuízo financeiro por permanecer mais tempo na capital paulista esperando um evento para o qual acreditava estar sendo chamado profissionalmente.
É aqui que minha paciência começa a ir embora.
Porque influenciador não vive dentro do Instagram. Tem passagem, hospedagem, alimentação, transporte, compromissos, agenda. Quando uma empresa procura alguém para uma colaboração e coloca contrapartidas na mesa, precisa entender que do outro lado existe um profissional tomando decisões concretas a partir daquela comunicação.
Kelvin se organizou.
Só que, perto do evento, veio o problema.
Segundo ele, depois de toda a movimentação feita para estar disponível, acabou fora da lista. O influenciador passou então a cobrar uma explicação sobre o que havia acontecido.
E eu fui acompanhando tudo pensando: alguém vai perceber o tamanho da saia justa e resolver isso.
Não resolveu.
A situação ganhou ainda mais repercussão depois que Kelvin decidiu contar publicamente o que havia acontecido. E ele não contou apenas dizendo “me desconvidaram”. Mostrou comunicações, explicou a cronologia, falou sobre a permanência em São Paulo e expôs a resposta que recebeu posteriormente.
E é justamente essa resposta que me deixou perplexa.
Na mensagem divulgada por Kelvin, a organização apresenta uma versão diferente. Afirma que “em nenhum momento” a presença dele teria sido confirmada ou garantida e diz que Kelvin apenas manifestou interesse em participar. Segundo a explicação, a lista final de convidados ainda estaria sujeita à capacidade do evento e aos chamados “arranjos gerais”.
Tudo bem. Essa é a versão da organização e precisa estar aqui.
Só que a mensagem continua.
E então aparece a seguinte admissão:
“O e-mail subsequente foi enviado por engano.”
Eu larguei o telefone na mesa.
Porque então houve um engano.
Pode-se discutir se a primeira comunicação significava pré-seleção, manifestação de interesse, confirmação definitiva ou qualquer expressão que o departamento responsável queira utilizar. Mas existe um dado que não depende da interpretação de Kelvin: a própria pessoa que respondeu ao influenciador reconheceu que uma comunicação posterior foi enviada erroneamente.
E não para por aí.
Na mesma mensagem, a organização diz que conversaria pessoalmente com a gerência e com o chefe de eventos para garantir que, dali em diante, o número de convidados estivesse alinhado “com mais precisão”.
Também afirma que buscaria garantir que o processo de “pré-seleção e confirmação seja mais claro para eventos futuros”.
Ora.
Se o procedimento precisa ficar mais claro, alguma coisa não estava clara.
Se é necessário aumentar a precisão, faltou precisão.
E se um e-mail foi enviado por engano, houve um erro.
Não precisa transformar isso numa tese de doutorado em relações públicas.
O que me incomoda ainda mais é o tamanho da empresa envolvida. A ARMAF não nasceu ontem em uma sala comercial improvisada. A marca faz parte do universo da perfumaria dos Emirados Árabes Unidos, ganhou projeção internacional e tornou linhas como Club de Nuit conhecidas entre consumidores de fragrâncias em diferentes mercados.
É uma marca que vende desejo.
Vende apresentação.
Vende experiência.
Vende cuidado com detalhe.
Por isso é tão estranho assistir a uma chegada ao mercado brasileiro marcada justamente por uma história em que faltou cuidado com o detalhe mais básico: a pessoa que estava do outro lado do convite.
E faço questão de dizer uma coisa porque já conheço a internet: não reduzam isso à história de “influenciador revoltado porque não entrou numa festa”.
Não é isso.
Se Kelvin tivesse simplesmente colocado o nome numa lista, aparecido na porta e descoberto que não poderia entrar, seria outra história. O que ele apresenta é uma relação que envolvia uma proposta de colaboração, obrigações de conteúdo e uma agenda que, segundo seu relato, foi modificada para atender ao compromisso.
Cinco stories não aparecem por geração espontânea.
Vídeo não se grava sozinho.
Três horas de permanência não são três minutos.
E prolongar uma viagem custa dinheiro.
O mais curioso é que a própria resposta enviada a Kelvin tenta encerrar a questão dizendo que valoriza a relação profissional com ele e prefere deixar o episódio em uma “nota positiva profissional”.
Pois eu acho difícil encontrar a nota positiva.
Positiva teria sido uma comunicação clara desde o início. Positivo seria identificar o erro antes que Kelvin precisasse tornar a história pública. Positivo seria compreender que, quando alguém altera uma viagem em função de um convite profissional, “foi enviado por engano” pode explicar o que aconteceu, mas não apaga as consequências.
E Kelvin continua trabalhando.
Continua produzindo conteúdo, crescendo nas redes e tocando sua carreira de estilista. Talvez seja justamente por isso que a história tenha repercutido: ele resolveu mostrar uma situação que muitos criadores menores provavelmente engoliriam calados com medo de nunca mais serem chamados por marca nenhuma.
No fim, a ARMAF tem todo o direito de decidir quem estará em seus eventos. Isso nunca esteve em discussão.
O que uma marca não deveria fazer é permitir que sua própria comunicação coloque um profissional numa situação dessas e, só depois, explicar que uma mensagem foi enviada por engano e que o processo será mais claro da próxima vez.
A ARMAF atravessou continentes, construiu um nome forte na perfumaria e chegou ao Brasil cercada de expectativa.
Com Kelvin Anesi, infelizmente, chegou errando justamente onde nenhuma marca de luxo deveria errar: no tratamento de quem ela própria procura para ajudar a construir sua imagem.