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Kátia Flávia
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App Grindr, apartamento no centro de Buenos Aires e um chileno chamado Ulysses: os detalhes que cercam a morte de Danilo

Professor, doutorando e drag queen referência em Goiânia, Danilo Neves Pereira, 35 anos, morreu em Buenos Aires após um encontro marcado por aplicativo com um chileno identificado apenas como “Ulysses” *que ainda não foi ouvido pela Justiça argentina enquanto a investigação segue aberta na Fiscalía N.17

Kátia Flávia

21/04/2026 12h06

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Danilo estava desaparecido há seis dias após sair para um encontro marcado pelo app Grindr. (Foto: Reprodução/g1)

Eu estava num café em Bari, lendo os jornais argentinos no telefone, quando os detalhes do caso Danilo começaram a aparecer com uma precisão que a versão brasileira da notícia ainda não tinha alcançado. Parei o café. Li tudo de novo.
Danilo Neves Pereira, 35 anos, professor de inglês há 17 anos, doutorando na UFRJ a um mês de defender a tese, drag queen referência em Goiânia como Zelda, The Queen, morreu em Buenos Aires em 15 de abril. Seu corpo ficou seis dias na morgue do Hospital Ramos Mejía registrado como NN, sem nome, sem identidade, enquanto família e amigos o procuravam pelas redes sociais e junto ao Consulado brasileiro. Só na segunda (20) o cruzamento com o boletim de ocorrência registrado por um amigo permitiu a identificação.

A última mensagem que Danilo enviou foi às 3h57 da madrugada do dia 14, com o endereço exato do encontro: Avenida de Mayo 748, apartamento 112, 5º andar, a dois quarteirões da Plaza de Mayo, uma das regiões mais monitoradas de Buenos Aires. Do outro lado estava um homem identificado apenas como “Ulysses”, de nacionalidade chilena, encontrado pelo aplicativo Grindr. Um amigo localizou o “Ulysses” e ele disse que Danilo havia saído após uma discussão. Como Danilo percorreu quatro quilômetros até o Hospital Ramos Mejía, sem documentos, em estado crítico, sem que ninguém soubesse como, ninguém respondeu ainda.
A causa da morte foi confirmada por fontes policiais ao TN e ao La Nacion: descompensação psicotrópica por uso de cocaína. O que permanece sem resposta é se o consumo foi voluntário.

A investigação corre na Fiscalía Nacional N.17. O “Ulysses” ainda não foi ouvido formalmente. As imagens das câmeras da Avenida de Mayo não foram analisadas publicamente. O rastreamento do celular de Danilo segue pendente. Quando a polícia foi ao apartamento com ordem judicial, o porteiro informou que ele não morava mais ali. Danilo nunca havia mencionado mudança a ninguém.

A comunidade LGBTQ+ de Goiânia e a UFG prestaram homenagens públicas. O coletivo drag de Goiás escreveu: “Sempre agudo em suas atuações, que trouxeram muita cultura brasileira e usaram a arte drag para fazer política.” A família aguarda a repatriação do corpo e aguarda as respostas que a Fiscalía N.17 ainda não deu. Danilo estava a um mês de defender o doutorado. Foi a Buenos Aires para crescer. As perguntas que ficaram não têm resposta ainda, e alguém precisa respondê-las.

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