Camila Pitanga apresenta o novo episódio da série documental Revelando, lançado nesta quarta-feira (30), sobre a morte de Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos, atingida por um tiro de fuzil em Niterói, em 2021. Intitulado O Julgamento que Nunca Aconteceu, o vídeo examina o processo contra o ex-cabo Bruno Dias Delaroli, acusado de efetuar o disparo, e a participação de Flávio Bolsonaro na equipe de defesa quando o caso se aproximava do júri.
Eu tinha acabado de abrir a mala no novo quarto no Chiado, em Lisboa, e separar meu livro da Livraria Bertrand quando dei de cara com Camila conduzindo uma história que dispensa qualquer efeito especial. É o tipo de caso em que a pergunta pesa mais do que o volume da televisão.

Ana Clara brincava em frente de casa, na comunidade Monan Pequeno, em Pendotiba, quando foi baleada, em fevereiro de 2021. Delaroli foi preso em flagrante e denunciado pelo Ministério Público; ele responde ao processo, mas ainda não foi julgado. A defesa sustentou, à época, uma versão diferente sobre a ação policial.
No documentário, Camila põe o foco no tempo que passou sem uma decisão definitiva e na entrada de Flávio Bolsonaro, advogado inscrito na OAB, na defesa do policial. “Qual era a intenção de um senador em defender o homem preso em flagrante pela morte de uma criança?”, questiona a atriz no episódio.
Eu sentei na ponta da cama e fiquei olhando a rua lá embaixo, porque uma criança morta e uma família sem resposta não são enredo para torcida organizada. O vídeo não apresenta condenação: apresenta documentos, cronologia e uma pergunta pública sobre o papel assumido pelo candidato à Presidência.
O processo chegou a ter a prisão preventiva substituída por medidas cautelares, e Delaroli passou a responder em liberdade. A Justiça havia determinado que o caso fosse levado ao Tribunal do Júri, enquanto recursos e etapas processuais mantiveram o desfecho em aberto.
A família de Ana Clara também aparece no centro da produção. O episódio traz o relato de uma parente e recupera a vida da menina para além da tragédia. Eu guardei o casaco no armário e pensei que, depois de cinco anos, a espera por Justiça é uma violência que não cabe em nota de rodapé.
A estreia vem depois do barulho provocado pelo episódio apresentado por Fábio Porchat sobre Banco Master e Igreja da Lagoinha. Agora, o Revelando, projeto ligado ao Calma Urgente, ICL Notícias, Mídia Ninja e 342 Artes, muda a lente: sai da teia financeira e entra num processo criminal ainda sem julgamento.

No fim, deixei o livro sobre a mesa e fui me preparar para descer à Bertrand. Mas a pergunta de Camila ficou pendurada no quarto: por que um senador entrou na defesa de um PM acusado pela morte de uma menina quando o júri se aproximava? É uma resposta que o documentário cobra e que a família de Ana Clara espera há anos.