Estava fechando a mala aqui no apartamento em Bari, com o voo para Roma marcado para hoje e a cabeça já meio no Brasil, quando duas amigas ligaram quase ao mesmo tempo com a mesma notícia. Parei tudo, sentei, peguei o suco de beterraba que estava na mesa e ouvi com atenção, porque esse assunto merece pausa e não cabe em meia frase entre uma roupa dobrada e outra.
A Anvisa atualizou nesta sexta-feira (24/4) a indicação da tirzepatida para o tratamento do diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes entre 10 e 17 anos. O medicamento, já utilizado em adultos, passa a ter respaldo regulatório para pacientes jovens com controle glicêmico inadequado. A decisão foi baseada no estudo clínico de fase 3 SURPASS-PEDS, que avaliou 99 crianças e adolescentes e registrou redução na hemoglobina glicada, no peso corporal e melhora significativa do controle metabólico global.
O contexto que antecede essa decisão é grave e precisa ser dito sem eufemismo: estima-se que 213 mil adolescentes vivam com diabetes tipo 2 no Brasil, enquanto quase 1,5 milhão apresentam pré-diabetes, numa curva de crescimento diretamente associada ao aumento da obesidade infantil e ao sedentarismo.
A tirzepatida atua como agonista duplo dos receptores GIP e GLP-1, imitando hormônios intestinais que controlam a glicose, reduzem o apetite e auxiliam na perda de peso. O Hospital Pequeno Príncipe, maior hospital pediátrico do país, foi a instituição convocada para esclarecer as principais dúvidas sobre a aprovação, e a endocrinologista pediátrica Gabriela Kramer deixou claro que o medicamento não é primeira linha de tratamento: ele entra quando as terapias tradicionais não funcionam, especialmente em casos com obesidade e IMC elevado.
Os alertas da especialista merecem o mesmo destaque que a aprovação. O uso da tirzepatida em crianças e adolescentes exige acompanhamento multiprofissional, com endocrinologista, nutricionista, educador físico e psicólogo, porque a redução do apetite sem alimentação adequada pode comprometer massa magra, saúde óssea e crescimento. Efeitos adversos gastrointestinais como náuseas, diarreia e vômitos estão entre os mais frequentes, e em casos mais graves o uso sem supervisão pode estar associado a pancreatite aguda e falência hepática. O medicamento também não está disponível na rede pública, o que restringe o acesso à rede privada.
Uma criança de dez anos com diabetes tipo 2 já enfrenta uma condição crônica que vai acompanhá-la a vida inteira. A tirzepatida abre uma porta terapêutica importante para os casos mais graves, mas porta aberta sem estrutura do outro lado não resolve nada. O Brasil aprova o remédio; agora precisa aprovar também o sistema de saúde que vai cuidar de quem toma.