Estou em casa, em Sintra, tentando trabalhar e colocar minha vida portuguesa minimamente em ordem, quando abro o X e dou de cara com Antonio Tabet praticamente puxando uma cadeira para Lula e dizendo: agora nós vamos conversar. Li uma vez. Voltei. Li de novo. Porque ele não escreveu uma crítica protocolar depois do primeiro turno. Foi direto justamente onde dói.
Depois da derrota de Lula para Flávio Bolsonaro no primeiro turno, o fundador do Porta dos Fundos publicou um longo diagnóstico sobre o que considera problemas antigos do presidente e do campo progressista. E começou pelo lugar mais visível de uma campanha: comunicação. Para Tabet, enquanto a direita entendeu TikTok e aprendeu a disputar as redes, a esquerda continuou recorrendo a artistas milionários e a uma linguagem política que ele compara a uma tendência de 1985.

Só que a paulada mais interessante vem depois. Tabet coloca a sucessão de Lula dentro da conta. Diz que houve tempo para construir outra liderança, mas que as possibilidades foram sendo sufocadas. Cita Flávio Dino levado ao STF, Fernando Haddad encarregado de “segurar as buchas” e Guilherme Boulos mantido em “banho maria”. E ainda provoca o campo progressista pela falta de mulheres projetadas nacionalmente.
Aí ele chega ao dinheiro, ao trabalho e ao eleitor que paga boleto sem carteira assinada. Tabet acusa a esquerda de desconexão com motoristas de aplicativo, pequenos empresários, autônomos, influenciadores e motoboys. Usa a condução da MP das bets como exemplo e afirma que faltaram diálogo, planejamento e compreensão do peso que o futebol tem na vida brasileira. Pode-se discutir a conclusão dele. Ignorar a discussão é mais difícil.
E Tabet dá nome ao que acredita estar por trás de tudo: “vaidade”. Para ele, a rejeição ao lulopetismo estaria sendo subestimada enquanto Lula permanece no centro de um campo político que não conseguiu construir uma sucessão com força própria. Essa é provavelmente a parte mais incômoda do texto porque a crítica deixa de ser sobre campanha e passa a ser sobre poder.
Apesar do diagnóstico pesado, Tabet não decreta Lula derrotado. Escreve que ainda dá para virar no segundo turno e ressalta que pesquisas erraram. Ou seja: ele não está escrevendo um obituário eleitoral. Está dizendo que existe uma janela para consertar algumas coisas antes que ela feche.

Fechei o X aqui em Sintra pensando justamente nisso. Antonio Tabet fez algo que militância costuma detestar em época eleitoral: criticou o próprio campo quando a crítica ainda pode produzir consequência. Concordar com tudo é outra conversa. Mas chamar comunicação ruim de genialidade, ausência de sucessão de estratégia e derrota de acidente seria muito mais confortável. E eleição não costuma premiar conforto.