Ai, meus amores, puxem a cadeira, ajeitem o babado e respirem comigo, porque essa história veio com trilha de MPB, lágrima antiga e climão de sala de família depois da sobremesa. João Marcello Bôscoli, filho mais velho de Elis Regina, reacendeu uma dor antiga ao falar sobre César Camargo Mariano, ex-marido da cantora e pai de Maria Rita e Pedro Mariano, em meio à polêmica envolvendo o álbum Elis 73.
O ponto que faz a perua aqui derrubar o café no roupão de oncinha é a virada da relação. Em 2019, ao falar do livro Elis e Eu, João Marcello descreveu César como “um dos meus maiores amores”, “um herói” e “uma referência”. Agora, o produtor musical disse que se sentiu abandonado depois da morte da mãe e soltou uma frase daquelas que entram na sala de salto alto e deixam todo mundo mudo: “Eu perdi minha mãe em uma terça e perdi minha família inteira na quinta”.


Segundo João Marcello, César teria ido buscar os próprios filhos após a morte de Elis, enquanto ele não estava em casa. E aí, minha gente, a coluna coloca o óculos escuro mesmo dentro de casa, porque a pauta deixou o campo da mixagem e entrou naquele território cheio de porta batendo, lembrança mal resolvida e gente que passou a vida tentando organizar o álbum de família.
A confusão atual começou com o relançamento de Elis 73, disco originalmente lançado em 1973 e agora remixado e remasterizado por João Marcello Bôscoli e pelo engenheiro Ricardo Camera, com apoio da Universal Music Brasil. A proposta oficial do projeto era atualizar a sonoridade do álbum, trabalhar as faixas a partir das gravações originais e aproximar a escuta de uma produção contemporânea.
Só que César Camargo Mariano, que participou da concepção musical do disco original, não gostou nadinha dessa nova roupa sonora. O músico criticou publicamente a remixagem e afirmou que o trabalho de meses feito na época, incluindo arranjos, execuções e planos de gravação, teria sido “jogado no lixo”.
César também apontou incômodos em faixas como “É Com Esse Que Eu Vou”, “Doente Morena”, “Oriente” e “Caçador de Esmeraldas”. Depois, ele enviou uma notificação extrajudicial à Universal Music Brasil por causa do relançamento.
João Marcello rebateu a cobrança e afirmou que não via razão para que a consultoria de César fosse necessária no projeto, citando o papel dos herdeiros e da gravadora na condução do catálogo de Elis. Em outra fala, ele ainda disse que, se César acreditava ter algum direito ferido, deveria tratar disso por notificação, sem transformar o caso em exposição pública.
E aí entra a minha leitura, com cílio postiço, mas com responsabilidade. A briga pelo som de Elis acabou abrindo uma gaveta emocional que parecia trancada com chave antiga. De um lado, César defende a obra que ajudou a construir no estúdio. Do outro, João Marcello carrega a autoridade de filho, herdeiro e guardião de uma memória que também passa por perda, infância e abandono.
No fim das contas, o barraco é refinado, musical e dolorido. A pergunta que fica na mesa, entre um vinil, uma taça e um lenço de seda, é simples e pesada: quem pode mexer no legado de Elis sem tocar também nas feridas de quem ficou?