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Kátia Flávia
Kátia Flávia

Anitta vira o Pedro de Lara de ‘Estrelas da Casa’ e expõe fragilidades do entretenimento da Globo

Cantora roubou a estreia da terceira temporada ao criticar som, figurinos e decisões da produção. Em um programa que ainda procura uma identidade, a conselheira acabou fazendo da sinceridade o principal entretenimento da noite.

Kátia Flávia

26/08/2026 10h28

Anitta virou o Pedro de Lara de Estrela da Casa: criticou som, figurino e produção e acabou entregando o principal entretenimento da estreia.

Anitta virou o Pedro de Lara de Estrela da Casa: criticou som, figurino e produção e acabou entregando o principal entretenimento da estreia.

Anitta virou o Pedro de Lara de Estrelas da Casa.

Pronto. Falei.

E antes que alguém venha me cancelar, tenha calma porque isso aqui é elogio. Dos grandes.

Para quem não viveu a televisão brasileira na época em que jurado podia simplesmente detestar uma apresentação sem precisar começar a frase com “primeiro eu quero parabenizar vocês”, Pedro de Lara era uma instituição.

O homem não gostava de nada. Reclamava, implicava, fazia cara feia, reprovava e parecia ter saído de casa exclusivamente para acabar com a autoestima de um calouro.

Era maravilhoso.

O candidato cantava três notas e Pedro já estava com aquela cara de quem tinha encontrado cabelo na comida.

Anitta chegou mais ou menos nesse espírito na estreia da terceira temporada de Estrelas da Casa, nesta terça-feira, 25 de agosto.

Só que tem uma diferença importante.

Pedro de Lara fazia da implicância um personagem. Anitta estava apontando problemas do programa mesmo.

E aí, meu amor, o negócio fica delicioso.

Porque não era Anitta no sofá de casa mandando áudio num grupo de WhatsApp. Era Anitta dentro da Globo, ao vivo na Globo, praticamente fazendo uma reunião de produção da Globo diante do Brasil inteiro.

Eu fiquei passada.

A cantora chegou como conselheira da temporada, ao lado de Junior Lima e Belo. Só que, em determinado momento, parecia que tinham esquecido de avisar para ela que conselheiro de televisão normalmente elogia primeiro, faz uma crítica pequenininha no meio e termina dizendo que todo mundo arrasou.

Anitta não recebeu esse memorando.

Achou o som ruim?

Falou.

Achou que a produção musical estava engolindo as vozes?

Falou.

Achou o figurino adolescente demais para um bando de adulto?

Falou também.

E ainda explicou que, nos trechos mais baixos da música, a produção deveria dar espaço para a voz aparecer.

Eu só imaginava alguém na técnica olhando para o monitor e pensando: “Meu Deus, ela está falando da gente.”

Depois veio o figurino.

Anitta olhou para aquela juventude toda montada e basicamente perguntou por que estavam vestindo adultos como adolescentes de 15 anos.

Eu quase caí do sofá.

Porque existe crítica de figurino e existe você entrar na Globo e dizer, com todas as letras, que não precisa fantasiar marmanjo de adolescente para conversar com público jovem.

E ela não parou.

Em outro momento, ao comentar uma performance complicada, Anitta praticamente deu uma aula de sobrevivência para artista iniciante. Disse que o participante também precisa aprender a se posicionar diante da produção e dizer quando não quer fazer alguma coisa.

Traduzindo para o português de quem já trabalhou em televisão: meu filho, se a ideia for uma porcaria, abra a boca antes de passar vergonha no ar.

Isso acontecendo dentro do próprio programa.

É de uma baixaria maravilhosa.

E teve um momento ainda melhor. Anitta avisou que, se não gostassem das opiniões dela, no próximo programa poderia ficar mais contida.

NÃO!

Pelo amor de Deus, não deixem essa mulher contida.

Porque aí sobra o quê?

E é justamente aí que mora o problema de Estrelas da Casa.

Estamos falando de um programa que chegou à terceira temporada e continua com aquela energia de pessoa que abre o armário cinco vezes porque não sabe o que vestir.

Uma hora é reality de convivência.

Depois é formação artística.

Agora é grupo musical.

Minha filha, decide.

A Globo está tentando encontrar Estrelas da Casa dentro de Estrelas da Casa há três temporadas.

E Anitta precisou de uma noite para encontrar alguma coisa que estava faltando ali desde o começo.

Personalidade.

Porque, gostando ou não dela, aconteceu televisão quando Anitta abriu a boca.

Teve tensão.

Teve climão.

Teve opinião.

Teve gente provavelmente suando na produção.

Teve Junior Lima sendo colocado no meio da confusão.

Teve até macumba.

Quando chegou a hora das decisões, Anitta jogou a responsabilidade para Junior e avisou que quem fosse mandado embora poderia colocar o nome dele na boca do sapo.

Minha senhora!

Isso é televisão.

Pedro de Lara, onde estiver, deve ter pedido a palavra.

Só que existe uma perversidade deliciosa nessa comparação.

No Show de Calouros, Pedro reclamava dos calouros.

Em Estrelas da Casa, Anitta começou criticando os candidatos e, quando a gente percebeu, já estava criticando indiretamente o próprio programa.

Esse é o babado.

Ela falou do som.

Falou da produção musical.

Falou do figurino.

Falou da concepção das performances.

Falou que artista precisa aprender a dizer não para a produção.

Tudo isso dentro de uma emissora que passou décadas ensinando ao Brasil uma expressão que virou praticamente sobrenome: padrão Globo de qualidade.

Percebe o tamanho do constrangimento?

Não foi um crítico de televisão escrevendo no dia seguinte.

Não foi uma página de fofoca.

Não fui eu, essa fofoqueira de quinta categoria, implicando com televisão alheia.

Foi Anitta.

Na Globo.

Ao vivo.

Falando daquilo que estava vendo na Globo.

Eu adoro quando o roteiro vem pronto.

E não significa que a Globo tenha desaprendido a fazer televisão. Seria uma bobagem dizer isso. A emissora continua tendo uma estrutura técnica gigantesca e uma capacidade de produção que poucas empresas de comunicação no país conseguem alcançar.

O problema está em outra prateleira.

É entretenimento.

É ideia.

É personalidade.

É criar alguma coisa que faça o brasileiro olhar para a televisão e pensar: “Eu preciso assistir isso hoje.”

Estrelas da Casa ainda não conseguiu chegar nesse lugar.

A Globo muda, remexe, reformula, troca dinâmica, coloca mentor, tira coisa, acrescenta coisa e continua procurando uma alma para o programa.

Aí chega Anitta.

Senta.

Olha.

Não gosta.

E fala.

Pronto.

Nasceu um programa.

Porque Anitta fez uma coisa muito simples que anda fazendo uma falta danada na televisão: ela parou de fingir que tudo estava ótimo.

Quando estava ruim, falou que estava ruim.

Quando não conseguiu ouvir, disse que não conseguiu ouvir.

Quando achou a roupa infantilizada, disse que estava infantilizada.

Quando percebeu que uma performance poderia prejudicar os artistas, mandou os próprios participantes aprenderem a dizer não.

E ainda arrumou tempo para jogar Junior Lima para a boca do sapo.

Desculpa, mas eu quero assistir isso.

Talvez seja essa a maior ironia de Estrelas da Casa.

A Globo criou um reality para encontrar estrelas.

Chegou à terceira temporada procurando.

Na estreia, finalmente encontrou uma.

Só teve um pequeno problema.

Ela já chegou famosa.

Globo criou Estrelas da Casa para encontrar novos talentos, mas quem roubou a estreia foi justamente quem já chegou famosa: Anitta.

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