Eu estava na academia, tentando prestar atenção no meu treino, quando comecei a ver os vídeos da Anitta na estreia de Estrela da Casa. Parei. Porque ela não foi ao programa para distribuir elogio protocolar e fingir que tudo estava maravilhoso porque havia uma câmera ligada.
A cantora roubou a cena justamente fazendo o contrário: falou.
E falou bastante.

Ao avaliar uma das apresentações, Anitta apontou que o volume da produção musical teria prejudicado a percepção das vozes nos trechos mais baixos da canção.
“Quando vai pro tom bem baixo, a produção dá uma secada, que é pra poder a voz da pessoa sobressair. E aqui, nesse caso, não foi assim”, avaliou.
Segundo ela, quem acompanha o programa precisa conseguir distinguir os participantes, especialmente porque a votação é individual. Até aí, crítica técnica. Mas Anitta não conhece essa instituição brasileira chamada “vamos parar por aqui para não criar problema”.
Sobrou também para o figurino.
A cantora questionou a tentativa de caracterizar os participantes de maneira excessivamente adolescente. “A gente não precisa se vestir como 15 anos. A gente pode se vestir como adultos, né?”, disparou.
Eu parei minha série de vez. É fascinante assistir a alguém dizendo, em televisão aberta, aquilo que normalmente só seria falado numa reunião de produção às 23h47, depois que alguém finalmente cria coragem.
Anitta ainda aconselhou os próprios participantes a estabelecerem limites diante das escolhas feitas para suas performances. Ao comentar uma apresentação que considerou excessivamente difícil, afirmou que também cabe aos artistas dizerem: “Não faço isso.”
Ou seja: além de jurada informal, Anitta inaugurou ali o sindicato dos participantes.
E quando parecia impossível aumentar o grau de sinceridade da noite, entrou Junior Lima na história. Anitta brincou sobre as consequências das avaliações do cantor: “Quem for demitido faz o ebó pra ele, quem for mandado pra casa bota o nome dele na boca do sapo!”
Aí eu já não sabia se continuava o treino ou se sentava para assistir ao resto.
Foi crítica de produção, direção musical, figurino, posicionamento artístico e despacho espiritual em televisão aberta.
Anitta entendeu perfeitamente o programa.
Talvez melhor do que o próprio programa.