Eu estava na manicure, fazendo mão e pé, quando comecei a ver as imagens da coroação da Anitta na Grande Rio. Parei.
Porque tinha alguma coisa ali que ia além de uma cantora famosa colocando uma coroa na cabeça.
Anitta foi coroada rainha de bateria da Grande Rio, em Duque de Caxias. Estava de vermelho, toda coberta de pedrarias, emocionada, cercada pela comunidade. Até aí, você pode pensar: mais uma noite de Carnaval, mais uma famosa chegando para ser rainha.

Só que não.
Quem colocou a coroa na cabeça dela foi Eloína dos Leopardos.
E foi nessa hora que a história ficou bonita de verdade.
Eloína foi pioneira nesse lugar. Em 1976, há 50 anos, ela esteve à frente da bateria da Beija-Flor de Nilópolis, numa época em que uma mulher travesti ocupar aquele espaço era algo enorme.
Agora pensa comigo.
Cinquenta anos depois, é justamente Eloína quem coloca a coroa na cabeça de Anitta.
A mulher que abriu uma porta lá atrás coroando uma mulher que levou a música brasileira para lugares que, quando era menina em Honório Gurgel, provavelmente pareciam muito distantes.
Não precisa enfeitar muito. A imagem já fala.
E Anitta chorou.
Falou da menina do subúrbio do Rio que sonhava com aquele lugar. Agradeceu aos fãs, claro, mas fez questão de agradecer à comunidade. E disse uma coisa que eu achei importante: só quer continuar ali enquanto aquelas pessoas quiserem que ela esteja.
“Eu sempre sonhei, como qualquer menina do subúrbio do Rio, eu sempre sonhei em estar nesse lugar.”
Pronto.
Está tudo aí.
Antes de existir a Anitta que o mundo conhece, existia aquela menina.
Antes dos palcos internacionais, das premiações, das viagens, das músicas em outras línguas, existia uma carioca olhando para o Carnaval.
E agora ela está ali.
Na frente da bateria.

Tem fé no meio dessa história também
E tem outra coisa nessa coroação que mexeu comigo.
Anitta vive uma fase muito ligada à espiritualidade. Ela tem falado mais abertamente sobre sua relação com o candomblé, sobre ancestralidade e sobre uma parte da própria vida que durante muito tempo teve receio de mostrar por causa do preconceito religioso.
Isso apareceu na música, apareceu na estética dos trabalhos recentes e apareceu na maneira como ela passou a falar da própria fé.
Então vê-la chegando à Grande Rio justamente agora tem um peso diferente.
Carnaval, samba e escola de samba não nasceram separados da história negra brasileira. Religião, ancestralidade, música, corpo, comunidade, resistência… está tudo misturado nessa história há muito tempo.
E a própria Grande Rio sabe disso muito bem.
Em 2022, a escola foi campeã pela primeira vez com um desfile dedicado a Exu.
Na noite da coroação de Anitta, a referência estava lá novamente. Antes da cantora aparecer, um bailarino representando Exu abriu o espetáculo.
Depois entrou Anitta.
Depois veio Eloína.
Depois, a coroa.
Olha, eu estava com uma mão dentro da cabine para secar esmalte e pensando: isso aqui tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.
Porque tem.

E a Grande Rio vai falar de ancestralidade
Para 2027, a Grande Rio prepara o enredo “Sankofa Tabon – Os Retornados da Costa do Ouro e a Estrela Negra da Liberdade”, sobre africanos escravizados no Brasil que conquistaram a liberdade e retornaram ao continente africano.
E aí a chegada de Anitta ganha mais uma camada.
Não porque alguém tenha sentado numa sala e planejado todas essas coincidências. Não sei se planejou e não vou inventar.
Mas elas estão ali.
Uma cantora que saiu do subúrbio carioca, ganhou o mundo e agora vive um momento de reencontro público com sua fé e suas raízes chega a uma escola que vai falar justamente de retorno, memória e ancestralidade.
É bonito.
E tem uma diferença importante aqui: Anitta não está chegando à Grande Rio só para colocar fantasia, tirar fotografia e aparecer na avenida.
Ela também entrou na disputa do samba-enredo. Assina uma das composições finalistas ao lado de Igor Leal, Arlindinho, Fred Camacho, Fabian Juarez e Diego Nicolau.
Ou seja: ela quer participar.
Quer estar dentro daquilo.
E isso, para mim, diz bastante.
Anitta não torna o Carnaval grande. O Carnaval já é gigante
Também não vou cair naquela conversa de que a presença de Anitta “coloca o Carnaval brasileiro no mundo”.
Pelo amor de Deus.
O Carnaval já estava no mundo antes de Anitta nascer.
O samba também.
O que acontece é outra coisa.
Quando uma artista brasileira com o alcance internacional que Anitta tem assume a bateria de uma escola de samba, milhões de olhos que talvez não acompanhassem a Grande Rio passam a olhar para ela.
E aí aparecem Duque de Caxias, a comunidade, a bateria, o samba, o enredo, a história, Eloína.
Isso importa.
Anitta pode estar num palco do outro lado do mundo e, pouco tempo depois, estar numa quadra de escola de samba na Baixada Fluminense dizendo que sonhou a vida inteira com aquele lugar.
Eu acho que talvez esteja justamente aí a força dessa coroação.
Ela foi muito longe sem precisar fingir que veio de outro lugar.

A menina chegou
Quando Anitta disse que sonhava com aquele posto como uma menina do subúrbio, eu voltei para a imagem da Eloína colocando a coroa nela.
Aquilo me pegou.
Porque Eloína estava ali muito antes dessa história começar.
Quando ninguém falava em alcance global, streaming, Grammy Latino ou carreira internacional. Quando o Carnaval era uma das poucas avenidas em que determinados corpos conseguiam ocupar um lugar de majestade que o restante da sociedade insistia em negar.
Cinquenta anos depois, ela estava ali.
Com a coroa nas mãos.
E na frente dela estava Anitta.
A menina de Honório Gurgel cresceu.
Virou cantora, virou empresária, virou estrela internacional, tomou pancada, foi criticada, acertou, errou, mudou, foi embora, voltou.
Mas naquela noite não precisava ser nada disso.
Era só uma menina do Rio realizando um sonho antigo.
E talvez tenha sido por isso que eu fiquei olhando para o celular no meio da manicure sem conseguir voltar para a conversa.
Porque tem imagem que não precisa de legenda esperta.
Eloína colocou a coroa.
Anitta abaixou a cabeça para recebê-la.
E cinquenta anos de Carnaval ficaram ali, por alguns segundos, entre as duas.