Eu vou falar com toda a calma que uma perua escandalizada consegue ter às 9h da manhã: a internet ama um dramalhão, mas às vezes o próprio personagem entrega o roteiro, o figurino e a queda de luz. Depois da circulação de um áudio atribuído a Rennan da Penha com deboche sobre Erika Hilton, o Instagram fez o que sabe fazer de melhor, virou balcão de conferência moral com atendimento em tempo real. E aí vieram os prints mostrando que Anitta, Luísa Sonza e Pabllo Vittar já não apareciam mais entre os seguidores do DJ. No português fluente das redes, isso tem nome, sobrenome e trilha sonora de climão.
Claro que unfollow não substitui debate sério, não apaga estrago e nem absolve ninguém de explicar o que disse. Mas também não vou tratar como se fosse um gesto decorativo de quem trocou a foto do perfil e resolveu reorganizar o feed. Unfollow de artista grande, em meio a polêmica pública, é recado. É rompimento em versão aplicativo. É aquele tipo de corte que vem sem textão, sem coletiva e sem vela acesa, mas deixa a fumaça subindo do mesmo jeito. Quem conhece o teatro digital sabe que o botão de seguir virou uma espécie de crachá moral da convivência online.
E convenhamos, não estamos falando de qualquer trio perdido no camarote premium. Anitta, Luísa Sonza e Pabllo Vittar são nomes de peso, de alcance massivo, com imagem pública fortemente ligada a pautas de liberdade, respeito e diversidade. Quando artistas assim aparecem associados a um movimento de afastamento, o assunto sai da prateleira da fofoca fofa e entra direto na área de dano reputacional com iluminação de camarim acesa no talo. O público lê rápido, as páginas de entretenimento mais rápido ainda e o algoritmo, essa fofoqueira sem alma, espalha tudo com uma alegria quase ofensiva.
O mais curioso, e também o mais cruel, é como a internet aboliu a necessidade de grandes cerimônias para expor um desconforto. Antigamente o escândalo precisava de nota oficial, assessor aflito e entrevista de reparação. Hoje basta digitar um nome na busca, dar de cara com “nenhum usuário encontrado” e pronto, o capítulo está servido com close e legenda. É a diplomacia do constrangimento instantâneo. Um gesto pequeno na tela, uma repercussão enorme fora dela. E eu quase ouço o barulho seco da porta virtual batendo.
Tem também uma ironia que a vida digital adora entregar embrulhada em neon. No áudio que circula, a mensagem atribuída a Rennan da Penha teria sido clara: quem apoiasse Erika Hilton poderia deixar de segui-lo. Pois bem. Pelo que mostram os prints, teve gente que levou o aviso a sério demais. E aí o que era bravata virou efeito prático, público e altamente compartilhável. A internet tem esse talento raro de transformar excesso de confiança em performance do constrangimento.
Eu, Kátia Flávia, olho para esse caso e vejo uma lição que muita celebridade ainda insiste em subestimar. Fala pública tem consequência. Deboche tem preço. E algoritmo não tem pudor nenhum em exibir a conta para todo mundo. No fim, Rennan não perdeu só seguidores de alto calibre na vitrine do Instagram. Perdeu, ao menos nesse episódio, a fantasia confortável de que dá para provocar uma pauta sensível e sair ileso só porque depois vem um stories qualquer com cara de paisagem. Na internet, meu amor, o dedo que segue é o mesmo que cancela. E ele anda com a paciência bem curta.