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Kátia Flávia
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Angelo Carbone: uma vida dedicada à defesa de quem quase não tem voz

Uma trajetória jurídica marcada pela defesa da dignidade humana e pelo compromisso com a justiça

Kátia Flávia

09/02/2026 17h30

Uma trajetória jurídica marcada pela defesa da dignidade humana e pelo compromisso com a justiça

Mais do que quatro décadas após iniciar sua carreira na advocacia, Francisco Angelo Carbone consolidou o próprio nome como um criminalista voltado à defesa de vítimas e à atuação em casos complexos. Com passagem por processos de grande repercussão e presença constante no Tribunal do Júri, o advogado afirma que sua vocação nunca esteve ligada ao poder, mas ao ato de defender. “Fui indicado pela OAB ao quinto constitucional para desembargador, mas minha vocação é defender.”

Desde 1976 na profissão, Angelo construiu uma trajetória guiada por um princípio que costuma repetir com convicção: o Direito precisa servir como proteção para quem mais precisa. Ao longo do tempo, reuniu mais de dois mil processos e uma rotina marcada por histórias que, muitas vezes, chegam carregadas de dor.

Dr. Ângelo Carbone construiu carreira marcada pela atuação no Tribunal do Júri, defesa de mulheres, idosos e minorias, além de participação em processos de grande impacto – Foto: Divulgação

Sua formação acadêmica ajuda a explicar a base dessa atuação. Mestre e doutor em Direito Civil e Processo Civil, com período de doutorado em Portugal, também estudou Administração de Empresas e Comunicação e, atualmente, cursa uma pós-graduação em Inteligência Artificial no Mackenzie, sinal claro de atenção às mudanças que redesenham o universo jurídico.

Ainda assim, quando fala sobre a própria identidade profissional, ele não hesita: “Meu forte é o criminal. Tribunal do Júri.”
A frase soa como síntese de uma carreira moldada em ambientes onde cada argumento pode alterar destinos.

Indicado ao quinto constitucional e com atuação em processos sensíveis, criminalista afirma que sua vocação está na defesa -Foto: Divulgação

A técnica como caminho para a Justiça
Angelo define sua expertise de forma direta. “A minha especialidade é a parte processual. Se o processo não foi bem feito, se existem falhas, a absolvição é possível.”

Essa leitura técnica abriu espaço para atuações em episódios que ganharam projeção pública. Ele relata ter defendido, na Pensilvânia, uma jovem brasileira acusada de matar o filho ao nascer e esconder o corpo em um armário. Também afirma ter libertado uma mulher presa pela morte do filho por meio de habeas corpus, mesmo sem representar formalmente a causa.

Advogado que já atuou em casos de repercussão nacional soma mais de 40 anos na defesa de vítimas -Foto: Divulgação

Em Minas Gerais, diz ter absolvido uma mulher acusada ao lado do companheiro pela morte de uma criança.

O advogado ainda sustenta que obteve habeas corpus no Tribunal de Justiça para o casal Nardoni, sem atuar como defensor dos acusados, ao apresentar o argumento de erro relacionado ao episódio da Escola Base. Também assumiu a defesa do goleiro Bruno quando o advogado anterior foi suspenso pela OAB e participou de desdobramentos ligados ao caso Eloá.

Histórias distintas, mas conectadas por uma mesma lógica: examinar cada detalhe do processo.

Com trajetória iniciada em 1976, Ângelo reúne milhares de processos, atua em casos emblemáticos e mantém foco na dignidade humana – Foto: Divulgação

Antes da lei, a convicção
Muito antes de a legislação brasileira avançar com a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio, Angelo já direcionava seu trabalho à proteção de mulheres vítimas de violência.

“Defendo mulheres agredidas mesmo antes da Lei Maria da Penha e do feminicídio”, afirma.

Hoje, além de atuar nesses casos, busca penas mais altas para condenados e acompanha execuções criminais para evitar solturas antecipadas.

Esse olhar também alcança outras frentes. O advogado relata atuação na responsabilização de crimes contra pessoas LGBTQIA+. Em um dos casos, afirma ter condenado o assassino de um jovem que se apresentava como mulher e foi lançado da janela de um prédio. Em outro, diz ter conseguido a condenação de um homem que matou um rapaz enquanto ele beijava o namorado na Avenida Paulista.

“As defesas são gratuitas”, destaca.

Segundo ele, a violência contra minorias ainda exige respostas firmes. “Os gays sofrem muito e são humilhados.” Sobre o racismo, acrescenta: “Ainda os negros são espezinhados e humilhados, e tratamos de instaurar inquéritos criminais e indenizações cíveis.”

Justiça que atravessa as paredes da família
Nem todos os conflitos chegam com sirenes ou manchetes. Muitos nascem dentro de casa. Parte relevante de sua atuação se concentra em disputas familiares.

Angelo trabalha para obter alimentos para mulheres que passaram a vida cuidando da família e depois enfrentaram abandono. Também atua na anulação de doações por ingratidão, na retirada de idosos de asilos e na recuperação de bens apropriados por parentes.

Outra frente envolve inventários. Ele questiona partilhas quando meios-irmãos ficam fora do processo sucessório.
Casos de investigação de paternidade, inclusive de cantores no Brasil e no exterior, também integram sua carteira. Entre eles, cita procedimento ligado ao artista Hungria.

Episódios de grande visibilidade
O advogado menciona ainda uma disputa envolvendo o jornalista Cid Moreira, com foco nos direitos dos filhos, e a defesa de um homem que, na condição de usuário, mantinha em casa meio quilo de maconha e uma arma.

Em outro episódio, relata ter obtido medida protetiva para uma mulher agredida por um artista que foi candidato ao Senado. Segundo ele, a vítima recebeu indenização de cinco milhões de reais. À época, concedeu entrevista à Folha, fato que, de acordo com o criminalista, contribuiu para a derrota eleitoral do acusado.

Professor, comunicador e homem de fé
Antes da fase atual da carreira, Angelo dedicou mais de 15 anos ao magistério. A experiência revela uma vocação para compartilhar conhecimento. Durante anos, também manteve um programa na Rádio Mundial, onde traduziu temas jurídicos para uma linguagem próxima do cotidiano.

Fora dos tribunais, carrega outro título simbólico. Em seu grupo religioso, é chamado de bispo. Uma palavra que, de certo modo, ajuda a entender o senso de missão que acompanha sua trajetória.

Uma carreira que recusa a indiferença
Atuante na capital paulista, Francisco Angelo Carbone construiu uma história que parece menos ligada ao conforto das certezas e mais ao enfrentamento de realidades difíceis.

Entre autos, depoimentos e decisões, a imagem que emerge é a de um advogado que não se acomoda. Estuda para acompanhar o tempo, observa as fraturas humanas e insiste na ideia de que o Direito pode ser mais do que técnica. Pode ser proteção. Pode ser voz. E, em muitos momentos, pode ser a única presença possível quando quase todo o resto já falhou.

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