Que bom que a televisão brasileira ainda tem Angélica. Escrevo isso de Lisboa, depois de assistir à estreia da segunda temporada de Angélica Ao Vivo, exibida na última quinta-feira (24), no GNT, e ficar com uma sensação que há muito tempo a televisão não me provocava: eu conheço essa mulher. Eu cresci com essa mulher. E, de alguma maneira, ela cresceu comigo.
E vou comprar uma briga logo cedo, antes de encarar as ladeiras da Alfama: Angélica é hoje a sucessora natural de Hebe Camargo. Não porque imite Hebe. Deus me livre, porque Hebe só existiu uma. Mas porque Angélica finalmente encontrou a idade, o formato e a segurança necessários para fazer algo que Hebe dominava como ninguém: transformar um programa de televisão numa extensão de sua própria sala.
E que sala, minha filha. Ivete Sangalo, Lázaro Ramos e Dan Stulbach sentados à mesa. André Marques na gastronomia. Aline Wirley, ex-Rouge, comandando a banda ao vivo. E Angélica no meio daquilo sem precisar disputar protagonismo com ninguém. A segunda temporada terá dez programas, agora com 70 minutos, exibidos ao vivo às quintas-feiras, às 22h30, no GNT e no Globoplay.

Aliás, talvez esteja justamente aí a grande novidade: Angélica não precisa mais provar que é Angélica.
Isso muda tudo.
A menina que começou ainda criança, atravessou décadas de televisão e passou por programas infantis, auditórios gigantescos e formatos de entretenimento chegou a uma fase em que consegue fazer o mais difícil diante de uma câmera: escutar. Não existe mais aquela ansiedade televisiva de preencher cada segundo, disparar uma pergunta, correr para o próximo quadro e anunciar o intervalo. Há silêncio. Há reação. Há intimidade.
E intimidade com Angélica não precisa ser fabricada pelo roteiro. Ela está dentro da casa do brasileiro há décadas. O próprio programa parece ter entendido isso. Os convidados têm os celulares “confiscados” durante a atração, há jantar, música ao vivo, brincadeiras e conversa. A própria apresentadora definiu a dinâmica como uma “resenha boa” e disse que o público percebe quando a diversão entre eles é verdadeira.
Foi justamente quando a televisão parou de fazer força que aconteceu o momento mais bonito da estreia.

Dan Stulbach apareceu como convidado-surpresa e releu uma carta que escreveu para si mesmo aos 16 anos. Adolescente, ele havia entrado sem convite numa cerimônia da APCA em São Paulo, viu Paulo Autran receber o prêmio de melhor ator e escreveu para o Dan do futuro perguntando se um dia seria ator e trabalharia com gente como aquela. Em 2002, Stulbach ganhou o prêmio da APCA de melhor ator por Novas Diretrizes em Tempos de Paz.
Pronto. Acabou comigo.
Eu vim para assistir a um programa de variedades e estava em Lisboa quase procurando um lencinho na bolsa por causa de uma carta escrita por um menino de 16 anos. Isso é televisão. Não a emoção fabricada com piano subindo no fundo e câmera procurando lágrima. É o convidado falando, os outros ouvindo e a apresentadora entendendo que naquele instante sua função era não atrapalhar.
E Hebe sabia fazer exatamente isso.
Hebe podia receber uma estrela internacional, um cantor popular, um ator, uma socialite e alguém que o Brasil acabara de conhecer. Tudo cabia naquele sofá porque o elemento de ligação era ela. Angélica começa a ocupar esse lugar à sua maneira. Não há sofá, há uma mesa. Não há Hebe, há Angélica. Mas existe novamente a ideia de anfitriã.
E existe bagunça também, graças a Deus. Na mesma estreia em que Dan emocionou o estúdio, Angélica contou possuir a famosa vela de Gwyneth Paltrow batizada de “This Smells Like My Vagina”. Lázaro Ramos quis saber qual era o cheiro, Angélica devolveu a provocação e Ivete entrou na conversa. Ou seja: num minuto, Paulo Autran e uma carta sobre vocação; pouco depois, uma vela com nome de vagina. Hebe, onde estiver, deve compreender perfeitamente a lógica.
Porque programa de variedades bom é isso. Não é seminário acadêmico. É a vida entrando pela televisão sem pedir licença.
Angélica está serena, mas não apática. Madura, sem ficar sisuda. E parece finalmente livre daquela obrigação cruel que a televisão impõe às mulheres que começaram muito jovens: permanecer eternamente parecidas com a menina que o público conheceu.
Não precisa.
A Angélica de agora é muito mais interessante.
E por isso eu digo sem nenhum pudor: ainda bem que ela está ali. A televisão brasileira precisa de grandes anfitriãs. Precisa de alguém capaz de receber, ouvir, rir, interromper quando deve e desaparecer quando a história do convidado é maior do que a apresentadora.
Hebe fazia isso usando joias, gargalhada e aquela intimidade inexplicável que fazia milhões de brasileiros acreditarem que estavam no sofá ao lado dela.
Angélica faz com uma mesa, comida, música, amigos e uma vida inteira diante das câmeras.
Mesmo que tenha uma mancha na perna.
Aliás, melhor ainda que tenha.
Porque depois de uma vida inteira tentando ser a loira perfeita da televisão brasileira, talvez o melhor programa de Angélica esteja surgindo justamente quando ela não precisa mais ser perfeita.
Precisa apenas ser Angélica.