Estava sentada numa trattoria em Lecce esperando uma burrata que prometia me reconciliar com tudo que eu tinha feito de errado na vida, quando minha amiga Renata me mandou um áudio com a voz de quem acaba de ler algo transformador. “Kátia, tem um livro que você precisa colocar a mão agora.”
O livro é Paratyanas, crônicas escritas ao pé do fogão, de Ana Bueno, chef e proprietária do Banana da Terra em Paraty há mais de trinta anos. Em 284 páginas, Ana reúne mais de 300 personagens reais da cidade, da Angeli dos Temperos ao Pindoca, farinheiro tradicional, compondo uma obra que mistura receita, crônica e declaração de amor a um pedaço do Brasil que o Brasil insiste em subestimar.
O lançamento chegou às redes com aquela energia de presente inesperado: no @anabueno_paraty, leitores aparecem com o livro no colo como se segurando algo precioso. A editora Dialeto Documentários, com mais de trinta anos registrando a América Latina em livros, vídeos e exposições, assina a publicação. Isso já diz tudo sobre o nível do que chegou às livrarias.

Ana chegou a Paraty em 1989 vinda de São José dos Campos, trabalhou como jornalista na Eco TV local e nunca mais saiu, construindo ao redor do fogão uma rede inteira de gastronomia, empreendedorismo e memória. Liderou a Folia Gastronômica por quinze anos, criou a Escola de Comer e o Mulheres da Costeira, e em 2024 fundou o Instituto Paratiano de Gastronomia. Paratyanas carrega tudo isso: o arquivo afetivo de quem passou trinta anos ouvindo, comendo e preservando o que outros simplesmente deixariam passar
Eu fui a Paraty uma vez e quase não voltei, porque tem cidade que te pega pelo pescoço com gentileza e não solta mais. R$ 150,00 por 284 páginas de Paraty de alma inteira, disponível pela Dialeto: é o melhor negócio cultural do Brasil neste momento. Pode chamar de livro. Eu vou chamar de Paraty num volume só.