A reação de influenciadores ao fim das bets no Brasil virou motivo de piada nas redes sociais. Vídeos de criadores como Jon Vlogs, Rico Melquiades, Luqueta e Davi Brito lamentando a medida foram reunidos em uma thread no X, batizada de “Coletânea de choro de influencers com o fim das bets”.
Eu cheguei ao Miradouro de São Pedro de Alcântara e parei diante daquela vista de Lisboa que faz qualquer pessoa respirar fundo. Aí abri a internet e dei de cara com a carteira de trabalho virando meme para influencer. Foi um contraste bonito: de um lado, cidade histórica; do outro, gente descobrindo que publi de tigrinho não é patrimônio cultural.
As críticas vieram em bloco. “Acabou a farra dos influenciadores digitais que divulgam bets, agora vão ter que trabalhar”, escreveu um usuário. Outro imaginou criadores de conteúdo atendendo no Atacadão, enquanto uma publicação resumiu o humor da rede: “Influenciador de bet descobrindo que perder dinheiro dói: finalmente uma experiência real com o produto”.

Os influenciadores defenderam argumentos diferentes: liberdade para apostar, risco de crescimento do mercado ilegal e comparação entre o vício em jogos e outras dependências. Davi Brito, por exemplo, afirmou que pessoas com problema de jogo precisam de tratamento, mas questionou se o brasileiro deixaria de apostar apenas porque as plataformas regulamentadas deixariam de operar.
Eu fiquei apoiada no parapeito, vendo o Castelo de São Jorge ao fundo, e pensei que o problema do debate é essa matemática torta. Para quem ganha muito dinheiro divulgando link, bet é “mercado”. Para quem perde aluguel, salário e sossego, bet vira um buraco com anúncio bonito e promessa de retorno imediato.
Nem toda a repercussão foi só deboche. Muitos usuários compartilharam relatos de famílias afetadas por dependência em apostas: dívidas, empréstimos, atrasos de aluguel, conflitos domésticos e sofrimento emocional. A discussão mostrou que, por trás de cada vídeo de influencer preocupado com a renda, existem pessoas que não tiveram nem espaço para reclamar quando o dinheiro sumiu.

Também houve críticas à comparação entre apostas e consumo de álcool. Internautas lembraram que influenciadores não costumam publicar links oferecendo vantagem para quem beber mais cerveja, enquanto as plataformas de jogos se espalharam justamente com bônus, códigos promocionais e promessas de ganhos rápidos.
Eu guardei o celular por um instante e deixei Lisboa voltar a ser Lisboa. Meme tem seu valor, porque às vezes o humor é a forma que a internet encontra para devolver uma dose de realidade. Mas o riso não pode apagar o principal: vício em jogo é assunto de saúde, endividamento é assunto de família e publicidade irresponsável não é brincadeira.
A proibição das bets ainda depende da análise do Congresso, mas já produziu uma cena que o Brasil conhece bem: influenciador falando em liberdade, internauta entregando carteira de trabalho em montagem e um país inteiro discutindo quem pagou a conta da farra. Spoiler: não foi quem ganhou com o link.