Eu estava no meio de uma reunião quando vi a cena e parei. Celular na mão, conversa interrompida e aquela conferida básica para saber se eu tinha entendido direito. Tinha. Adrilles Jorge, vereador de São Paulo, ex BBB e candidato a deputado federal pelo União Brasil, aparece na propaganda eleitoral sacando uma arma e efetuando um disparo.
E a arma não entrou no vídeo como figurante. Adrilles a relaciona ao combate a crimes sexuais contra crianças. Em outro momento da propaganda, aparece com um livro de Paulo Freire em uma mão e a arma na outra e sustenta que, para quem violenta crianças, palavras não seriam suficientes.
Pronto. A reunião que me perdoe, mas aí a jornalista aqui precisou prestar atenção. Porque campanha eleitoral é também disputa por memória. Em poucos segundos de televisão, o candidato precisa fazer o eleitor lembrar do nome dele no meio de uma multidão de concorrentes. Adrilles escolheu um recurso visual impossível de ignorar: arma, disparo e discurso sobre segurança pública.
E tem companhia nessa estratégia. Rubinho Nunes, também vereador de São Paulo e candidato a deputado federal pelo União Brasil, aparece em outra propaganda com uma escopeta. Segundo o UOL, ele defende pena de morte para criminosos sexuais e aponta a arma para um alvo de papelão.
Os dois fazem parte da aposta do União Brasil em São Paulo para a disputa pela Câmara dos Deputados. Meses antes do início da propaganda eleitoral, a legenda já havia colocado Adrilles e Rubinho entre os nomes nos quais pretendia investir no estado.

Do ponto de vista da comunicação, a jogada é cristalina: transformar alguns segundos de televisão em imagem difícil de esquecer. O eleitor pode concordar, discordar ou simplesmente ficar olhando para a tela tentando entender o que acabou de assistir. O fato é que a arma virou elemento central da mensagem política apresentada pelos candidatos.
Agora, meu amor, tudo bem que, pela imagem, a empunhadura da arma não parece exatamente coisa de quem passou a tarde no clube de tiro. Mas, para a propaganda eleitoral, o disparo cumpriu a missão: chamou atenção. Se vai acertar o alvo nas urnas, aí já é outra história.