Dez dias antes de ser presa, Deolane Bezerra tentou retirar do ar uma reportagem do SBT sobre sua suposta ligação com o PCC, mas teve o pedido negado pela Justiça de São Paulo. A decisão foi definitiva, e o processo já foi arquivado.
No Cosme Velho, com a tarde já completamente fora do eixo e a mesa parecendo arquivo de delegacia misturado com camarim de novela, tentei separar as pautas por ordem de urgência. Não deu tempo. O celular piscou com Deolane, SBT, PCC e uma tentativa de tirar reportagem do ar antes da prisão. Tem dia em que a notícia não chega batendo na porta: ela entra com advogado, processo e carimbo de urgência.

Segundo a coluna Outro Canal, da Folha de S.Paulo, Deolane havia pedido a retirada de uma reportagem veiculada pelo SBT em setembro de 2022 e ainda disponível nas plataformas digitais da emissora. O material tratava de uma suposta ligação da influenciadora com a facção criminosa.
No processo, Deolane alegou que sua empresa foi notificada pelo banco BTG Pactual depois que a instituição identificou a reportagem em janeiro de 2025, durante uma análise sobre o nome dela para investimentos. A influenciadora afirmou ter passado por constrangimento ao receber a notificação.
Ela também sustentou que a notícia tratava de um processo arquivado e acusou o SBT de manter condutas discriminatórias sem base jurídica e “baseadas em fake news”. A defesa de Deolane foi procurada pela Folha desde sexta-feira (22), por email e WhatsApp, mas não respondeu. O SBT informou que não comentaria o caso.
A 1ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo negou o pedido no último dia 11, em última instância recursal. O desembargador Enéas Costa Garcia afirmou na decisão que não havia elementos para comprovar a alegação da influenciadora.
O magistrado avaliou que a reportagem do SBT se baseou em investigação da Polícia Civil e em relatórios do Coaf, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras. Para ele, retirar o conteúdo do ar configuraria censura.
“Não se identifica caráter difamatório ou conteúdo ofensivo na matéria, que possui natureza jornalística e aborda fato de conhecimento público e interesse coletivo”, afirmou o desembargador.

Os relatórios do Coaf citados na reportagem do SBT também aparecem entre as provas apresentadas pela Polícia Civil de São Paulo no pedido de prisão contra Deolane. A influenciadora foi presa na quinta-feira (21), na Operação Vérnix, sob suspeita de lavagem de dinheiro ligada ao PCC por meio de uma transportadora de fachada.
Eu li a decisão e fiquei olhando para a tela, porque a sequência é dessas que parecem roteiro escrito por advogado sem freio: reportagem antiga, banco incomodado, pedido de retirada, Justiça falando em censura e, dez dias depois, prisão. Deolane tentou apagar a chama antes do incêndio. O problema é que, quando a pauta já está no processo, não adianta soprar a manchete.