Tony Ramos afirmou que não se arrepende de ter sido garoto-propaganda de uma grande empresa do setor de carnes, mas disse que passou a ter critérios muito claros para aceitar publicidade. Em entrevista ao Roda Viva, o ator explicou que evita campanhas de remédios, bebidas alcoólicas e jogos, apesar de consumir alguns desses produtos em sua vida privada.
Eu acordei tarde mesmo, às 11h de Lisboa, porque a noite anterior terminou no fado em Alfama e ninguém é de ferro. Abri a cortina do quarto no Bairro Alto Hotel, vi os 23 graus e o céu parcialmente ensolarado, com vento de 26 km/h, e fui direto para a história do Tony. Porque ele falou de publicidade com uma sinceridade rara: sem fingir santidade e sem fingir que não sabe o alcance que tem.

A pergunta foi feita por Gabriel Oliveira, o nosso Hick Souza, do TV Pop, durante a edição especial que celebrou os 40 anos do Roda Viva. Ele questionou Tony sobre os cinco anos em que foi garoto-propaganda de uma companhia que mais tarde se viu no centro de uma crise política e sobre como isso mudou sua relação com marcas.
“Não, a gente não poderia adivinhar, Gabriel, você jamais, nem você, nem a torcida do Flamengo poderia imaginar. E não me arrependo”, respondeu Tony. O ator disse que aceitou a campanha porque acreditava no produto e que, naquele momento, havia informações suficientes para considerar a parceria segura.
Tony fez questão de explicar seus limites. “Eu só faço aquilo que eu acredito. Eu não faço, por exemplo, de remédio”, afirmou. Em seguida, antecipou a leitura que poderia surgir: “Ah, porque cê não acredita no remédio? Não é isso”. Para ele, a escolha está ligada ao poder de influência que exerce por ser uma figura muito conhecida.
Eu desci para o BAHR & Terrace ainda escolhendo entre o galão e o suco de laranja, pensando que ele foi muito esperto em colocar a discussão onde ela precisa estar. O problema não é uma pessoa anunciar algo que outra pessoa anuncia. O problema é o tamanho da confiança que certos rostos carregam quando aparecem na televisão dizendo “pode comprar”.
“Eu não anuncio bebida alcoólica, apesar de beber. Adoro uma cervejinha, meu vinho, de vez em quando whiskinho, mas eu não vou anunciar isso”, declarou. Tony também reforçou que não faz propaganda de jogos. É uma posição que ele já havia manifestado ao falar sobre o uso indevido de sua imagem em anúncios falsos de remédio nas redes.
Ao comentar a campanha de carne, o ator disse que consome o produto e que aceitou representar “a maior empresa de carnes do mundo”. Segundo ele, quando surgiram questões políticas envolvendo a companhia, decidiu não continuar com o contrato, embora tenha recebido convite para permanecer. “De uma forma muito elegante, comigo eles foram e eu com eles”, afirmou.

O especial do Roda Viva marcou a primeira participação de Tony Ramos no programa, que completou quatro décadas no ar. Apresentada por Ernesto Paglia, a edição reuniu uma bancada comemorativa e revisitou a trajetória de mais de 60 anos do ator no teatro, no cinema e na televisão.
Eu sentei na varanda com o café finalmente servido e saí dessa fala com uma impressão boa: Tony não tentou reescrever o passado nem posar de homem sem contradição. Disse que bebe, disse que come carne, disse que escolhe o que anuncia e explicou por quê. No mundo dos famosos, em que muita gente aceita qualquer publi com cupom e música alta, já é quase uma aula de responsabilidade.