Mal tinha terminado de falar com a assessoria do Padre Marcelo sobre fé e sabedoria aqui em Bari, e o telefone tocou de novo. Era uma fonte do jurídico me passando o que o STJ acabava de decidir sobre a Operação Narco Fluxo. Larguei o copo de vinho e fui direto para o teclado, porque isso aqui é grande demais para esperar o digestivo.
O Superior Tribunal de Justiça derrubou nesta quinta-feira (23) a prisão de MC Ryan SP, MC Poze do Rodo e Raphael Sousa Oliveira, dono da página Choquei, junto com outros 30 investigados da operação.
O motivo foi o que o ministro Messod Azulay Neto chamou de flagrante ilegalidade: o juiz da 5ª Vara Federal de Santos decretou 30 dias de prisão temporária, mas a própria Polícia Federal havia pedido apenas 5. Como os 5 dias já expiraram desde a deflagração da operação em 15 de abril, a base legal para manter alguém preso simplesmente não existe mais.




O advogado Felipe Cassimiro, da defesa de MC Ryan SP, foi às redes assim que a ordem saiu com uma frase que vai virar bordão de formatura de Direito pelo Brasil afora: “Fizemos história. Obrigado, Deus!” A Choquei, por sua vez, passou a semana inteira publicando conteúdo sobre BBB e celebridades enquanto seu fundador estava detido em Goiânia, e a defesa de Raphael emitiu nota garantindo que a verdade seria restabelecida. A verdade foi. Pelo menos a processual.
O que ninguém deve esquecer é que soltura não é absolvição. A Polícia Federal já havia pedido prisão preventiva, aquela sem prazo fixo, logo após a audiência de custódia em 16 de abril, e esse pedido segue em análise. A Narco Fluxo investiga lavagem de R$ 1,6 bilhão via bets ilegais, rifas clandestinas, tráfico e movimentação em criptomoedas, com R$ 2,26 bilhões em bens bloqueados. Um HD do iCloud puxou tudo isso. Um HD.
O juiz prendeu mais do que a PF pediu, o STJ derrubou, e a PF pode pedir de novo com uma modalidade mais difícil de derrubar. Ou seja, a festa da defesa tem champanhe, mas o gelo já está derretendo. Aqui de Puglia, acompanhando tudo pelo celular com o Adriático lá fora, eu diria que esse caso está no segundo ato de uma novela que tem pelo menos mais três temporadas pela frente.