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Kátia Flávia
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A novela de Benedito que a Globo deixou escapar: como Pantanal foi rejeitada e virou fenômeno nacional

Antes de virar clássico, a obra de Benedito Ruy Barbosa ficou engavetada na Globo, foi realizada pela Rede Manchete em 1990 e acabou colocando a líder de audiência para correr atrás do próprio prejuízo.

Kátia Flávia

07/07/2026 11h08

Benedito Ruy Barbosa levou Pantanal à Manchete após a trama ficar engavetada na Globo

Benedito Ruy Barbosa levou Pantanal à Manchete após a trama ficar engavetada na Globo

Pantanal, um dos maiores sucessos da carreira de Benedito Ruy Barbosa, quase nasceu na Globo antes de virar fenômeno na Rede Manchete. A trama chegou a ser pensada nos anos 1980 com o nome Amor Pantaneiro, mas ficou engavetada e acabou cancelada por dificuldades de produção, especialmente pelas condições de gravação no Pantanal. Anos depois, em 1990, a Manchete apostou na história e transformou a novela em um dos maiores sustos que a Globo já levou na audiência.

Eu já estava com a máquina de lavar batendo roupa de viagem, uma planilha mental de gastos de Nova York me humilhando em silêncio e a casa do Cosme Velho tentando voltar a parecer casa, quando essa história voltou a cair no meu colo. Minha filha, Benedito não deixou só novela boa. Ele deixou também um case de executivo arrependido, desses que deveriam ser estudados em curso de televisão com a legenda: “Nunca subestime uma onça, uma Juma e um autor teimoso”.

Cristiana Oliveira viveu Juma Marruá na versão original de Pantanal, exibida em 1990
Cristiana Oliveira viveu Juma Marruá na versão original de Pantanal, exibida em 1990

A história é deliciosa porque começa com cara de “não vai dar”. Segundo registros sobre a produção original, Pantanal ficou durante anos na Central Globo de Produções e chegou a entrar em pré-produção no fim de 1984 para a faixa das 18h. O projeto, então chamado Amor Pantaneiro, acabou inviabilizado. O Pantanal estava em época de chuvas, gravar ali parecia caro, difícil, arriscado, tudo aquilo que faz diretoria franzir a testa e perguntar se não dá para resolver com uma fazenda cenográfica em Guaratiba.

Só que Benedito Ruy Barbosa não era exatamente o tipo de autor que guardava sonho na gaveta e esquecia a chave. Em 1990, a Rede Manchete contratou o novelista e bancou a aventura. Jayme Monjardim assumiu a direção geral, a emissora misturou nomes conhecidos, como Cláudio Marzo, Cássia Kis e Nathália Timberg, com rostos que explodiriam ali, como Cristiana Oliveira e Marcos Winter, e o resultado foi uma novela com cara de cinema rural, cheiro de mato, câmera apaixonada pela paisagem e uma sensualidade que fazia a sala de estar brasileira fingir que estava só interessada no debate ecológico.

E aí veio o tapa. Pantanal estreou com audiência discreta, mas cresceu rápido. Em poucas semanas, começou a superar a Globo em seu horário, especialmente contra a linha de shows e depois contra Araponga, novela criada justamente para tentar conter a sangria. A Globo, que até então parecia assistir de camarote ao próprio domínio, precisou esticar Rainha da Sucata e reorganizar a programação para segurar o público. Isso não é concorrência, amor. Isso é reunião de emergência com cafezinho frio e diretor dizendo “quem deixou isso passar?”.

Importante fazer a precisão, porque fofoca boa também precisa de coluna vertebral: Pantanal não “derrubou” Rainha da Sucata diretamente como muita gente resume por aí. O que ela fez foi ainda mais simbólico. A novela da Manchete entrou na faixa posterior e passou a roubar a atenção do público de um jeito que obrigou a Globo a reagir. Era a primeira vez em muito tempo que uma novela fora da Globo virava assunto nacional, furava a bolha e fazia a líder de audiência olhar para o lado com medo de perder o jantar.

O último capítulo registrou liderança no horário em São Paulo, e a trama consolidou a maior média da dramaturgia da Manchete. Também ajudou a colocar a emissora de Adolpho Bloch no mapa internacional das novelas, ainda que ela nunca mais tenha repetido aquele terremoto. Foi um brilho raro, desses que parecem acontecer uma vez só: uma emissora menor, um autor obstinado, uma paisagem que ninguém conseguia copiar e uma protagonista que virava onça no imaginário popular.

Eu fico fascinada com esse tipo de erro histórico. Porque televisão adora dizer que entende o público, mas às vezes o público passa na frente montado em cavalo, molhado de rio, apaixonado por Juma Marruá e deixando todo executivo com cara de quem recusou sociedade numa mina de ouro. Pantanal era cara? Era. Era difícil? Era. Era arriscada? Muito. Mas o risco, nesse caso, virou lenda. A cautela virou arrependimento.

 Sucesso da novela obrigou a Globo a reagir na audiência e virou marco da teledramaturgia brasileira
Sucesso da novela obrigou a Globo a reagir na audiência e virou marco da teledramaturgia brasileira

Anos depois, a Globo fez as pazes com a criatura que deixou escapar. Comprou os direitos, produziu o remake de 2022, colocou Bruno Luperi, neto de Benedito, à frente da adaptação, e transformou Pantanal novamente em novela das nove. Bonito? Bonito. Mas também com aquele gostinho de quem anos depois liga para o ex e diz: “Oi, sumido, sempre soube que você era especial”.

Benedito Ruy Barbosa venceu duas vezes. Venceu quando tirou Pantanal da gaveta e entregou para a Manchete uma novela capaz de desafiar a Globo. E venceu quando a própria Globo, décadas depois, precisou reconhecer o valor daquela história e trazê-la para seu horário mais nobre. Isso não é só sucesso de audiência. É vingança dramatúrgica servida em horário nobre, com berrante, rio e onça olhando de canto.

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