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Kátia Flávia
Kátia Flávia

5 anos de Domingão: como Luciano Huck virou a maior potência da TV aberta brasileira

O apresentador transformou audiência em uma máquina publicitária bilionária, blindou a equipe nos bastidores e provou, cinco anos depois de assumir o horário de Faustão, por que é o comunicador mais poderoso da televisão brasileira.

Kátia Flávia

06/09/2026 11h48

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Luciano Huck deixava o “Caldeirão” para assumir o “Domingão” após a saída de Faustão da Globo. (Foto: João Miguel Júnior/ O Globo)

Eu estou tentando ligar para Luciano Huck.

Não atende.

Liguei uma vez. Duas. Na terceira, achei deselegante. Na quarta, achei jornalismo. Na quinta, concluí que um homem que completa cinco anos comandando o domingo da Globo tem o direito constitucional de não atender Kátia Flávia num domingo.

Mas eu queria dar parabéns.

Porque fazer cinco anos de programa na tv aberta brasileira de hoje é um luxo. Não luxo de bolsa francesa. Luxo mesmo. Daqueles artigos raríssimos que deveriam vir acompanhados de certificado de autenticidade, seguro contra cancelamento e uma plaquinha: não toque, espécie ameaçada de extinção.

Luciano Huck estreou no “Domingão com Huck” em 5 de setembro de 2021, ocupando um horário que Fausto Silva havia comandado por três décadas. Só escrever essa frase já me dá uma pequena taquicardia profissional. Substituir Faustão no domingo da Globo é parecido com comprar o apartamento de alguém que morreu ali dentro: você pode trocar o sofá, pintar a parede, arrancar o carpete, mas durante algum tempo todo mundo entra procurando o antigo proprietário.

E Huck entrou.

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Luciano Huck no Melhores do Ano 2026 (Foto: Globo/João Miguel Júnior)

A estreia já começou com um pequeno surto nacional. Brasil e Argentina tiveram a partida interrompida, a programação virou do avesso e o novo “Domingão” entrou 35 minutos atrasado. Mesmo assim, marcou 18,4 pontos e 32,7% de participação na Grande São Paulo.

Cinco anos depois, ele não está mais morando na casa de Faustão.

A casa é dele.

Em agosto de 2026, uma edição do programa alcançou 23,7 milhões de brasileiros, registrou 13,7 pontos de média nacional, 14,1 em São Paulo e 15 no Rio de Janeiro. No horário, chegou ao dobro da audiência da concorrente que transmitia uma partida do Flamengo.

No Rio.

Contra o Flamengo.

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Huck no Dança dos Famosos 2025 – Foto: Globo/ Manoella Mello

Eu gostaria apenas que vocês respeitassem a gravidade dessa informação.

O menino do “H” virou instituição

A televisão tem uma perversidade deliciosa: ela envelhece todo mundo diante dos nossos olhos e depois finge que nada aconteceu.

Antes de ocupar o “domingo” mais importante do país, Luciano escreveu a coluna “Circulando”, no Jornal da Tarde, passou pela CNT Gazeta e chegou à Band com o “H”, programa que colocou Tiazinha e Feiticeira no imaginário nacional.

Era outra televisão. Outro Brasil. Outra internet ,no caso, quase nenhuma.

Em 1999, Huck assinou com a Globo. No ano seguinte, veio o “Caldeirão do Huck”. E o rapaz que parecia representar uma juventude televisiva meio inquieta, meio paulistana, meio “vamos fazer alguma coisa diferente”, foi ficando.

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O Familhão é uma assinatura mensal de benefícios associada a Luciano Huck. (Foto: Reprodução/Globo)

E ficando.

E ficando.

Até virar aquilo que todo jovem apresentador jura que jamais será:

uma instituição.

Existe uma ironia maravilhosa nisso.

Huck costuma dizer que não se considera “uma carinha bonita da televisão”, nem showman ou multi-instrumentista. Define-se como alguém de comunicação, interessado em histórias, em ouvir e em tocar as pessoas.

Talvez aí esteja uma parte importante do truque.

Quando herdou o domingo, ele não tentou colocar os sapatos de Faustão.

Porque não serviriam.

Faustão era excesso. Era volume. Era interrupção. Era a televisão ocupando todos os centímetros disponíveis da sala.

Huck escolheu outra coisa.

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Elenco fixo do Domingão: Dona Déa Lúcia, Ed Gama, Rafael Portugal e Lívia Andrade (Foto Reprodução/Globo)

Conversa.

O “Domingão” foi sendo transformado numa espécie de sala de estar nacional onde cabem Dona Déa, Lívia Andrade, padre Fábio de Melo, Diogo Defante, atores de novela, anônimos, competição, emoção e aquela instituição brasileira chamada “Dança dos Famosos”.

Huck conduz.

E conduzir parece pouco até você perceber que milhões de pessoas precisam aceitar ser conduzidas.

O intervalo comercial também assiste

Agora chegamos à parte que eu adoro porque celebridade é maravilhosa, mas celebridade com departamento comercial é praticamente erotismo corporativo.

O “Domingão” virou uma vitrine para algumas das maiores marcas do país.

Já na estreia, em 2021, uma grande ação comercial com o Magalu ocupou o programa. Depois vieram operações muito mais sofisticadas.

A BYD fechou ações que atravessaram o estúdio, as ruas e até a China. Huck visitou instalações da montadora e, em 2025, esteve na fábrica de Camaçari, na Bahia.

A Natura transformou o programa em plataforma para histórias ligadas à própria marca e levou o apresentador à Amazônia. Em 2025, a Stone anunciou Huck como embaixador, associando sua imagem a campanhas e iniciativas voltadas aos empreendedores.

Perceberam?

Não se vende mais apenas o intervalo do Luciano Huck.

Vende-se Luciano Huck.

A credibilidade, a curiosidade, a capacidade de entrar numa fábrica, numa comunidade, numa casa, numa floresta ou numa campanha publicitária sem parecer que foi sequestrado pelo departamento de marketing.

Isso vale dinheiro.

Muito dinheiro.

E então mexeram nos bastidores

Eu tenho uma teoria: programa de televisão é casamento com ponto eletrônico.

Enquanto todo mundo sorri na frente da câmera, atrás dela existem planilhas, reuniões, vaidades, diretores, produtores, orçamento, cronômetro e pelo menos uma pessoa perguntando desesperadamente quanto falta para o intervalo.

Por isso, a mudança ocorrida em 2026 poderia ter provocado barulho.

Hélio Vargas, diretor artístico ligado havia mais de 15 anos à Globo, encerrou seu vínculo com a emissora. Clarissa Lopes foi promovida à direção artística, enquanto Daniel Faria e Barbara Maia passaram a dividir a direção geral.

Troca importante.

E o programa?

Continuou.

Mais do que isso: a nova estrutura assumiu justamente no período em que o “Domingão” registrou números expressivos de audiência com a nova temporada da “Dança dos Famosos”.

É aqui que eu vejo talvez a maior vitória de Huck nesses cinco anos.

Ele deixou de ter apenas um programa forte.

Construiu uma estrutura.

Porque estrela de televisão é aquela que brilha quando a câmera acende.

Poder é quando trocam as pessoas atrás da câmera e a máquina continua funcionando.

Luciano não quer ir embora

Aos 54 anos, Huck já foi questionado sobre aposentadoria e respondeu que a fronteira entre trabalho e prazer, para ele, é muito pequena.

Eu compreendo.

Também não sei separar trabalho de prazer. Por isso estou tentando telefonar para ele num domingo.

Segundo o próprio apresentador, até quando o programa é gravado antecipadamente ele interrompe a rotina em casa para assistir à exibição junto com o público.

Isso diz bastante sobre a relação dele com televisão.

Tem gente que trabalha na TV.

Tem gente que gosta de aparecer na TV.

E existem pessoas que parecem sofrer de televisão.

Luciano Huck me parece pertencer à terceira categoria.

O homem virou uma empresa

E então chegamos ao dinheiro, porque ninguém atravessa cinco anos de televisão dominical vendendo automóvel, cosmético, banco, aplicativo e sonho brasileiro por esporte.

Estimativas publicadas sobre os vencimentos de Huck costumam colocá-lo entre os profissionais mais bem pagos da televisão brasileira, mas os valores exatos de salário, publicidade e patrimônio não são confirmados publicamente pelo apresentador ou pela Globo.

E aqui está a parte mais interessante: talvez nem seja necessário saber o número.

O poder de Huck não está simplesmente no contracheque.

Está na capacidade de movimentar marcas, audiência, anunciantes, artistas, histórias e milhões de espectadores ao mesmo tempo.

É um ativo humano dentro de uma empresa que aprendeu, dolorosamente, que nenhuma audiência pode mais ser considerada garantida.

Há cinco anos, a pergunta era:

Luciano Huck vai conseguir substituir Faustão?

Hoje essa pergunta parece velha.

Porque Huck não substituiu Faustão.

Construiu outra coisa.

O “Domingão” deixou de ser o programa que Luciano Huck herdou e virou o programa que carrega seu sobrenome.

Cinco anos depois, enquanto a televisão aberta disputa atenção com streaming, YouTube, TikTok, celular, futebol, influenciador, podcast e absolutamente qualquer pessoa com uma câmera frontal e autoestima suficiente, Huck ainda consegue fazer milhões de brasileiros pararem diante da mesma tela.

Isso, em 2026, não é apenas audiência.

É poder.

E eu continuo tentando ligar para ele.

Nada.

Luciano, meu filho, eu só queria dar parabéns.

Mas pensando melhor, talvez não atender telefone seja exatamente o tipo de privilégio que alguém conquista depois de sobreviver cinco anos ao domingo brasileiro.

Parabéns, Huck.

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