Raphaella Sconetto
raphaella.sconetto@grupojbr.com
Está nos prédios, escolas, hospitais, igrejas. O traço e as cores marcantes não negam o artista: Athos Bulcão. Aqui na capital não é preciso ir longe para encontrar alguma peça do desenhista que deu colorido ao concreto. Ainda em comemoração ao seu centenário, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) lançará hoje a nova edição do inventário que reúne as obras do artista que estão na capital.
Dos principais nomes da construção de Brasília, ao lado de Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e Burle Marx, Athos Bulcão foi o único que se instalou na capital. Ele mesmo se autodenominava de brasiliense. “A cidade influenciou muito o trabalho dele, embora não seja considerada uma arte regional, mas sim uma obra de caráter internacional. A obra dele é importante nas artes plásticas no mundo inteiro”, indica o superintendente do Iphan, Carlos Madson Reis.
O inventário reúne detalhes das 261 peças que ficam em Brasília organizadas em ordem cronológica em mais de 200 páginas. Segundo Reis, a nova edição será mais didática.
“O primeiro foi lançado em 2010. Agora, fizemos uma revisão e atualização, fizemos novo formato, aumentamos o tamanho das fotos, substituímos algumas fotos, adicionamos algumas informações, uma nova diagramação, e colocamos a biografia de Athos. É um livro novo”, resume.
Para ele, o livro ajudará a dar o devido reconhecimento ao artista que completaria cem anos no início deste mês. “É reconhecer a importância, o significado, os valores. É ajudar a identificar uma obra, fornecer material didático aos pesquisadores. E também é uma espécie de educação patrimonial, porque o livro será distribuído nas escolas e trabalhado pelos professores”, afirma o superintendente do Iphan.
Santíssima Trindade
José Carlos Córdova Coutinho, professor emérito da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB), sabe reconhecer o trabalho de Athos Bulcão na construção da capital. Ele resume o artista plástico como o criador dos grandes símbolos gráficos de Brasília. “Athos é uma figura extraordinária. Em Brasília, ele pode ser posto no nível de Niemeyer e Lúcio Costa. Na verdade, os três compõem a santíssima trindade de Brasília”, brinca.
Mesmo que o desenhista tenha revolucionado o uso dos azulejos como forma de arte, ele defende que a obra de Bulcão esteja em três dimensões. Para o professor, o que a torna ainda mais especial é a característica de ser democrática. “São obras que ficam em espaços públicos, estão oferecidas para a contemplação de todos e não em galerias de artes”.
No entanto, nem o fato de vê-las todos os dias as fez perderem seu esplendor. “Não há quem não tenha visto uma obra, até mesmo com certa indiferença. Se tornou habitual. Por isso, às vezes, a conservação deixa a desejar. Um exemplo é o mercado das flores, que fica perto do cemitério. Não tem o tratamento respeitoso que deveria ter. Apesar de todas homenagens, reconhecimentos, que são feitos merecidamente, as obras poderiam ser mais conservadas”, observa Coutinho.
Nem todos os azulejos e painéis já são tombados
Atualmente, parte dos painéis e azulejos do artista é tombada como patrimônio cultural. “O conjunto da obra não é, mas parte é tombada porque está integrada a edifícios. Por exemplo, o Teatro Nacional é um bem tombado pelo Iphan. Ao tombar o prédio, as obras que estão lá, internas e externas, farão parte do conjunto tombado. Não dá para imaginar o Teatro sem as obras de Athos”, explica o superintendente do Iphan.

Foto: Rayra Paiva Franco/Jornal de Brasília
Isso exige também cuidados adicionais. Está ainda na memória dos brasilienses os grandes danos causados aos azulejos da Igrejinha de Nossa Senhora de Fátima – primeira das obras de Niemeyer e de Athos Bulcão no DF – quando uma fogueira feita por moradores de rua destruiu grande parte de uma parede externa. Houve necessidade de uma penosa recuperação.
Carlos Madson Reis considera ainda que o desenhista foi um dos únicos artistas plásticos que conseguiu unir arte com arquitetura. “Se tornou algo indissociável. Não é só um complemento da construção, mas passa a ser elemento essencial na arquitetura. Não é uma mera decoração, uma ilustração. Athos fazia cada painel pensando em cada projeto, não dá para replicar”, finaliza.
Os interessados na nova edição do inventário de Athos Bulcão poderão buscar um exemplar na sede do Iphan – é gratuita – ou, em breve, adquirir no site do instituto em formato digital. Para os próximos meses, o órgão também fará o lançamento de um livro voltado ao público infanto-juvenil com a história do artista.
Lançamento do Inventário da Obra de Athos Bulcão em Brasília
Data: Hoje, a partir das 18h
Local: Sala Mário de Andrade, Sede do Iphan
Endereço: SEPS 713/913 – Asa Sul – Brasília – DF
Entrada franca
