Beatriz Castilho
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Entre barras de ferro que cercam o palco, o cenário minimalista dá o protagonismo às interpretações. Atores, vestidos de cores neutras, utilizam os corpos para dar voz ao texto modernista. Apenas com ajuda de uma trilha sonora e 250 bonecos de feltro que compõem a ambientação, o espetáculo se desenvolve. Dando vida às mais de 800 páginas escritas por Guimarães Rosa, a peça Grande Sertão: Veredas chega a Brasília, com apresentação única, amanhã, às 20h, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães.
Lançado em 1956, o livro em que o espetáculo se baseia fala sobre um sertão, não localizado geograficamente. No palco, a narração é do personagem Riobaldo, interpretado por Caio Blat. Expondo seus medos, anseios e repressões, o ex-jagunço busca respostas com o diabo, viajando para tentar fazer um pacto com ele.
Do elenco também fazem parte Luíza Lemmertz, Luísa Arraes, Leonardo Miggiorin, José Maria Rodriguesm, Balbino de Paula, Daniel Passi, Elias de Castro, Lucas Oranmian e Clara Lessa.
Cenário
Construído dentro de uma gaiola de ferro, o teatro conta com cenário enxuto, sem decorações ou objetos. “As dez pessoas interpretam rio, cheiros, bois, árvores, peixes… tudo tem a mesma importância nesse ecossistema”, conta Caio Blat, em entrevista ao JBr. “O homem é só mais um, representando todas as forças, tudo com nosso corpo, lindo e coletivo.”
A peça não tem intervalos. Durante as duas horas e 20 minutos em que a cena transcorre, os integrantes se revezam na jaula e nos papéis, dando um ritmo acelerado à obra. “É totalmente desgastante, é dificílimo, é um trabalho quase de atleta”, afirma Caio. “Sempre exige uma entrega física total que é muito bonito de ver por ter a força do texto e do grupo.”
Além das barras de ferro, cadeiras são dispostas ao redor do cenário, possibilitando o maior contato do espectador com a mensagem. “Durante a peça as pessoas sentem os cheiros dos atores, do cigarro, dos chás e da cachaça. As pessoas estão a dois palmos, então acaba que tudo é muito sensual, é feito de gente, é feito de carne, com muito suor”, desenha o protagonista.
Sertão de todo lugar
Para Caio Blat, além da demarcação física, o sertão explorado pela peça se expande para o Brasil. “Apesar de quase regional, é meio metafísico. Caracteriza qualquer lugar onde haja abandono, onde não exista lei, onde as pessoas andam em bandos. É uma grande metáfora do Brasil, da cidade grande ao cerrado.”
Com 31 anos de idade e 23 de carreira, Caio demonstra especial apreço por essa montagem: “É um trabalho muito maduro, muito completo, com um texto muito sagrado. Sabemos que somos um grupo muito privilegiado. Sei que esse é o melhor trabalho da minha vida”.
Desafios estéticos
À frente da produção, destaca-se a multifacetada Bia Lessa. “Já tinha trabalhado em um exposição e no jornalismo, no aniversário de 50 anos do livro”, conta a atriz. “Foi uma obra que me tomou por inteiro, psicologicamente, emocionalmente, fisicamente. É um livro que tem muitas questões, e muitos desafios estéticos.”
Admiradora do autor, a diretora trouxe a obra de Guimarães após uma pausa de dez anos da cena teatral. “Para fazer [teatro], acho que é bom criar um bom desafio. Teatro para mim não é entretenimento, é questão. É como se a vida colocasse uma questão para nós inventarmos uma resposta.”
Bia explica que a gaiola foi uma solução para deixar o sertão vivo, com movimento. “As imagens que Guimarães cria se expandem para além da literatura e do próprio teatro”, diz.
O som
Também a trilha sonora foi criteriosamente escolhida: a música, especialmente criada por Egberto Gismonti. Assim, como uma forma de explorar outra dimensão do ambiente, é disponibilizada nos fones de ouvido entregues ao público na entrada do espetáculo.
Grandes sertões já reuniu mais de 20 mil espectadores nas cidades por em que se apresentou. Para Bia, a palavra sucesso não define, mas caracteriza como “poderoso” o texto. “O mundo está tão retrógrado, perto da barbárie… Esse espetáculo é uma reflexão profunda sobre isso. Ele cria uma espécie de pacto com a plateia, é algo diferente”, conclui. Vale acompanhar