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Glória Menezes: os papéis que marcaram uma das grandes atrizes brasileiras

Da televisão aos palcos, atriz construiu uma trajetória de mais de seis décadas marcada por personagens populares, vilãs memoráveis e grandes interpretações teatrais

Aline Teixeira

18/08/2026 17h18

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Foto: Frederico Rozario/Memória Globo

A dramaturgia brasileira perdeu nesta terça-feira (18) uma de suas grandes intérpretes. Glória Menezes morreu aos 91 anos, em sua casa, no Rio de Janeiro, segundo informações confirmadas pela família. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, a atriz construiu uma trajetória que atravessou televisão, teatro e cinema, tornando-se uma das figuras mais importantes da história da atuação no país.

Nascida em Pelotas (RS), Glória Menezes começou sua trajetória artística nos palcos e chegou à televisão ainda nos primeiros anos da teledramaturgia brasileira. Na TV, consolidou-se como uma atriz de grande versatilidade, capaz de transitar entre protagonistas românticas, personagens populares, comédia e vilãs. Sua carreira também foi marcada pela parceria profissional e afetiva com Tarcísio Meira, com quem dividiu a cena em diversas produções.

Da heroína popular à vilã icônica

Um dos primeiros grandes momentos de sua trajetória televisiva veio com Ana Preta, de Pai Herói, novela de Janete Clair exibida em 1979. Dona de uma casa de samba, a personagem representou uma mudança importante na carreira da atriz, que ganhou uma figura mais popular e próxima do público. A personagem se tornou um dos trabalhos mais lembrados de sua trajetória.

Nos anos seguintes, Glória mostrou que também dominava a comédia. Em Jogo da Vida, interpretou Jordana, enquanto em Guerra dos Sexos, de 1983, viveu Roberta, em uma produção que explorava o talento cômico da atriz. A versatilidade continuou em Brega & Chique, de 1987.

Mas foi em 1990 que Glória criou aquela que se tornaria uma de suas personagens mais emblemáticas: Laurinha Figueiroa, de Rainha da Sucata. A socialite arrogante e manipuladora marcou a primeira grande vilã da carreira da atriz e protagonizou, ao lado de Maria do Carmo, vivida por Regina Duarte, uma das rivalidades mais lembradas da teledramaturgia brasileira. Décadas depois, a personagem voltou a ganhar destaque com a reprise da novela.

Na década de 1990, Glória ainda esteve em Deus nos Acuda, trabalho que lhe rendeu o Troféu Imprensa de Melhor Atriz, além de A Próxima Vítima e Torre de Babel.

Já nos anos 2000, a atriz continuou explorando diferentes registros. Em O Beijo do Vampiro, interpretou a excêntrica Zoroastra. Em Senhora do Destino, viveu a Baronesa Laura, enquanto em A Favorita interpretou Dona Irene. Entre seus últimos trabalhos na televisão esteve Totalmente Demais, em 2015.

Uma atriz formada nos palcos

Antes de se tornar um dos grandes nomes da televisão, Glória Menezes construiu uma relação profunda com o teatro. Entre seus trabalhos de destaque está As Feiticeiras de Salém, montagem que marcou o início de sua trajetória profissional nos palcos.

Ao longo da carreira, participou de espetáculos como Tudo Bem no Ano Que Vem, de Bernard Slade, que permaneceu em cartaz de 1976 a 1981, em uma longa temporada ao lado de Tarcísio Meira. Também esteve em Navalha na Carne, de Plínio Marcos, em 1981, e Um Dia Muito Especial, adaptação teatral da obra de Ettore Scola, em 1988.

Um dos maiores desafios de sua carreira teatral veio com Jornada de um Poema, adaptação brasileira de Wit, de Margaret Edson. Em 2000, Glória interpretou Vivian Bearing, uma professora universitária que descobre estar com câncer em estágio avançado.

A personagem exigiu uma transformação radical da atriz. Para a montagem, Glória raspou completamente os cabelos e permaneceu longos períodos em cena, conduzindo a narrativa praticamente sozinha. A atuação foi recebida com grande reconhecimento da crítica e lhe rendeu indicação ao Prêmio Shell de Melhor Atriz.

O espetáculo se tornou um dos trabalhos mais importantes de sua fase madura. Glória chegou a afirmar que Vivian era uma personagem especialmente significativa pela possibilidade de levá-la aos limites da interpretação.

Outro momento importante nos palcos foi Ricardo III, montagem dirigida por Jô Soares, seguida por Ensina-me a Viver, espetáculo no qual interpretou Maude, uma mulher idosa, irreverente e cheia de vitalidade que transforma a vida de um jovem de 18 anos. A montagem estreou em 2007 e permaneceu em cartaz por anos, tornando-se outro grande sucesso teatral da atriz.

Uma carreira marcada pela transformação

A trajetória de Glória Menezes foi construída justamente pela capacidade de não permanecer presa a um único tipo de personagem. Ela passou pela mocinha das primeiras novelas, pela heroína popular, pela comediante, pela vilã, pela matriarca e por personagens dramáticas de grande complexidade.

Na televisão, Laurinha Figueiroa talvez seja o símbolo mais imediato dessa versatilidade. No teatro, porém, Jornada de um Poema representa outra dimensão de sua carreira: a de uma atriz disposta a se expor completamente diante do público para construir uma personagem.

Ao morrer aos 91 anos, Glória Menezes deixa uma obra que atravessa diferentes períodos da cultura brasileira e uma coleção de personagens que continuam presentes na memória do público. Sua trajetória, iniciada nos palcos e consolidada também diante das câmeras, fez dela uma das grandes damas da dramaturgia brasileira.

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