Beatriz Castilho
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27 de março de 1961. O Instituto Internacional de Teatro, unido à ONU, inaugura o Teatro das Nações na capital da França. O marco foi eternizado no vigésimo sétimo dia do mês, e considerado Dia Universal do Teatro. Em homenagem à esse dia, o Jornal de Brasília trouxe três histórias de pessoas que vivenciam a quinta arte na cidade.
Teatro pode ser feito, mas também pode ser assistido
No cenário brasiliense, a construção da cidade interferiu diretamente na produção artística, dando estilo, assinatura e reverência. João Antônio Lima acompanhou este processo. Artista desde pequeno, o fundador da faculdade de artes cênicas da Universidade de Brasília (UnB) chegou na capital federal em 71. O veterano relembra que, juntamente com os migrantes, a convergência cultural movimentava a capital, e isso se refletia na arte. “Era uma cidade jovem, não tinha censura nem seleção, e por isso tínhamos a liberdade de experimentar qualquer coisa”, conta.
Meados de 77 e ainda não existia patrocínio para a arte, mas a recém criada Federação de Teatro Amador do Distrito Federal incentivava a produção e divulgação dessa cena. João participou da primeira diretoria da fundação, e contava com mais de 40 grupos inscritos. Buscando locais para a realização de ensaios e espetáculos, a Federação Nacional de Teatro Amador (FETADIF) abriu portas de escolas públicas para abrigarem novas peças. “Isso resultou em uma movimentação muito grande, todo segunda era uma estreia nova no Teatro Nacional”, diz João.
A partir disso, o desenvolvimento da arte continuou, e a cidade foi crescendo. Mas, para João, a evolução do teatro brasiliense não acompanhou a da capital. “Não existe um momento que seja extremamente favorável para a arte, mas também não trabalhamos a favor”. Dessa forma, a falta de incentivo à quinta arte brasiliense ficou cada vez mais escassa, e os espaços para ela também.
Lidando com a falta de espaço
Atualmente, a demorada interdição de dois grandes espaços artísticos (Teatro Nacional Claudio Santoro [Setor Cultural teatral Norte] e o Teatro Renato Russo [W3 Sul]) representam um impasse na cena teatral. Abaetê Queiroz, ator e diretor brasiliense, acredita que essa dificuldade pode ter interferido positivamente em nossas produções. “Artistas tiveram que se adaptar com muita criatividade. Gostaria que as montagens escolhessem espaços alternativos por conceito e não por falta de opção”.
Dessa forma, a cena se tornou cada vez mais eclética e foi ganhando voz em outros estados. “Cansei de participar de festivais em outros estados e ver como somos aclamados fora da cidade. Na minha visão, Brasília tem a mesma qualidade das demais capitais, incluindo Rio de Janeiro e São Paulo”, afirma Abaetê.
Hoje, grande parte do mérito da capital é dado para os grupos de comédia, como Os Melhores do Mundo e G7, por exemplo, que lançaram tendências e alcançaram novas plataformas, como as telonas e vídeos virais em redes sociais. “A notoriedade dos grupos de comédia se dá pela aceitação comercial. Agradeço que isso popularize nossa arte e traga público aos teatros”, completa o ator.
- Divulgação
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Vivendo de arte
Para Abaetê, o futuro da produção teatral da cidade é duvidosa. E, por essa instabilidade, é comum que artistas da cidade busquem renda de outras fontes. “A princípio, sou ator. Mas como o mercado de trabalho não favorece o ator, me vi obrigado a completar minha renda financeira com outros trabalhos. Especificamente como professor, iluminador e diretor”, relata.
Outro exemplo dessa movimentação é o da atriz Camila Guerra que, além da atuação, faz produção cultural. “Atuar é culturalmente considerado hobbie, não é valorizado como algo rentável. Minha vida acaba mudando de dois em dois meses”, conta.
Camila começou a atuar em 95. Desde então trabalhou com Hugo Rodas, prestigiado diretor uruguaio, e foi premiada como melhor atriz (pela peça “A Porca Faz Anos!”). Para ela, teatro é o encontro do ser humano e devia ser mais valorizado. “Uma peça bem feita é transformadora. O teatro alimenta a alma e pode transforma-la”. Desde o início, a atriz estranhava a diferenciação de gênero no mercado. “Sempre tinham mais mulheres, mas os homens acabavam tendo um papel mais prestigiado”.
Apesar disso, Camila acredita o machismo mercadológico na cena teatral está com os dias contados pela liberdade de criação do teatro contemporâneo. “Nós, mulheres, estamos conscientes das conquistas e assim começando a de si, e isso é importante para se reconhecer”, afirma. A atriz está projetando lançar um trabalho autoral para explorar o lugar de fala da mulher. “Ascensão feminina é um caminho sem volta: ou vamos para frente ou vamos para frente, só se quiserem nos colocar a fogueira de novo”, acrescenta.
SAIBA MAIS
É hoje, mas também foi dia 21. Não há consenso sobre o dia de comemoração do Teatro, da mesma forma que não há sobre a arte. Por exemplo, você sabe por que dizemos que o cinema é a sétima arte? Porque em 1912 o italiano Ricciotto Canudo propôs o Manifesto das Sete Artes, marcando o cinema como tal. Mas e quanto a numeração das outras facetas artísticas? Entre as posições, são colocadas dimensões que as artes exploram. O teatro fica na quinta posição, englobando o poder de representar, e é dela que iremos falar.



