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Começa a maior festa da sétima arte na capital

52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro abre hoje com uma seleção de sete longas e 14 curtas na Mostra Competitiva

Lindauro Gomes

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Larissa Galli
[email protected]

O primeiro festival de cinema nacional — e um dos mais tradicionais eventos audiovisuais do país — começa sua 52ª edição hoje. Considerado uma vitrine da criação cinematográfica nacional e atual, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro lança, neste ano, um olhar atento à diversidade do que se produz aqui. Ao todo, sete longas e 14 curtas disputarão os troféus Candango e serão exibidos entre hoje e 1º de dezembro no Cine Brasília (106/107 Sul); nos complexos culturais de Planaltina e Samambaia; e no auditório do Instituto Federal de Brasília (IFB) do Recanto das Emas.

Os sete longas escolhidos, representantes de quatro estados — MT, PR, RJ, SP — mais o Distrito Federal, abordam assuntos diversos e tratam de temas urgentes por meio de narrativas únicas e vigorosas. A seleção de curtas-metragens, ainda mais abrangente, representa as cinco regiões brasileiras com 14 filmes oriundos de oito estados — PE, RJ, SP, MG, PA, CE, PR, BA —,mais o DF.

“Precisávamos olhar para o Brasil como um todo. O Festival de Brasília é o mais antigo do Brasil e acontece na capital — criada para integrar o país e unir as forças de todo o território brasileiro. O festival tem esse mesmo espírito”, explica um dos curadores, Marcus Ligocki. “Antes de definir qualquer linha de curadoria, a gente se abriu para entender o que cada realizador dos quatro cantos do Brasil está produzindo”, completa.

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A conclusão foi que, com o crescimento do setor audiovisual no país, quase todos os estados brasileiros produzem filmes impactantes. “A partir disso, a gente entendeu que não tinha outro caminho senão marcar a diversidade temática, de narrativa e de modelo de produção. Fomos atrás da qualidade, inovação, maturidade, e frescor, respeitando e integrando a diversidade geográfica do país. Queremos que o festival reflita o que é de fato a produção audiovisual brasileira hoje”, pontua Marcus.

Foram 701 produções inscritas, entre curtas e longas-metragens. A partir disso, a equipe de curadoria escolheu os filmes que mais chamaram atenção. “Acredito que a diversidade do Brasil está muito bem representada no festival. As narrativas que ficam mais à margem, como o movimento negro e LGBT, por exemplo, também compõem a programação. Buscamos acolher essas temáticas, colocar todos para conversar e entender as demandas atuais dos realizadores de cinema”, resume o curador.

Os diretores

Sobre os diretores: Maya Da-Rin e Thaís Borges são as únicas mulheres que participam da mostra competitiva de longas; o experiente pernambucano Cláudio Assis traz o cenário nordestino ao festival; Francisco Bosco e Raul Mourão estreiam na direção de longas; Bruno Bini coloca na mostra competitiva o primeiro longa feito em Mato Grosso; o paranaense Gil Baroni traz a pauta LGBTQI+; e Kauê Telloli trabalha com a temática da educação.

As novidades

Este ano, como novidade, o festival conta com a venda de ingressos pela internet para a mostra competitiva, além da bilheteria do Cine Brasília. No âmbito da premiação, a boa nova é que houve uma retomado do pagamento em dinheiro: o festival vai distribuir R$ 340 mil entre os filmes vencedores das categorias da mostra competitiva e mais R$ 150 para os premiados na Mostra Brasília BRB de Cinema.

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Além desta última — que exibe filmes feito por moradores da cidade —, o festival traz também as mostras Vozes, Novos Realizadores, Guerrilha e Território Brasil, com sessões de exibição gratuita no Museu Nacional da República (Eixo Monumental) e no próprio Cine Brasília. Segundo o curador Marcus, as mostras paralelas completam a programação e dão visibilidade a mais produções brasil afora.

“A mostra Vozes é focada em iniciativas que têm dificuldades para se integrar, conquistar espaço e recursos; a mostra Novos Realizadores reflete o tipo de produção que está surgindo com força neste momento; a mostra Guerrilha, por sua vez, traz filmes de baixo orçamento, muito esforço e muito desejo de contar histórias; e a grande inovação é a mostra Território Brasil, que permitiu que 18 estados brasileiros fossem representados no festival”, explica Marcus.

A personalidade homenageada nesta edição do festival é o ator e diretor goiano Stepan Nercessian.

Abertura traz filme de Marco Bellocchio

A noite de hoje — reservada para a abertura do evento — traz a exibição da coprodução Itália/Brasil/ Alemanha/França intitulada O Traidor, de Marco Bellocchio. O filme estreou no 72º Festival de Cannes e será exibido pela primeira vez no Brasil hoje, no Cine Brasília, às 19h. Marcus Ligocki explicou que a escolha do filme se baseou no crescimento do cinema brasileiro e seu relacionamento com o mundo.

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“É um grande desafio exportar o cinema brasileiro e esse espaço vem sendo buscado. No momento em que os recursos no Brasil para o cinema estão cada vez mais escassos, é ainda mais importante que o cinema brasileiro dialogue com o mundo inteiro”, explicou o curador. O Traidor está dentro das regras da Agência Nacional do Cinema (Ancine) e recebeu investimentos do Fundo Setorial Audiovisual e do Canal Brasil. A ideia, segundo Marcus, é marcar o início do maior relacionamento das produções brasileiras com o mundo e gerar uma provocação simbólica para que o público considere o cinema brasileiro como global.

Diferentes públicos

Ao todo, entre as mostras competitivas e paralelas, 81 filmes serão exibidos durante o festival em mais sete regiões administrativas do DF além do Plano Piloto. Samambaia, Recanto das Emas e Planaltina exibirão, além dos filmes que disputam o Troféu Candango, a Mostra Brasília BRB e o Festivalzinho, voltado para o público infantil. O objetivo é oferecer uma ampla programação a diferentes públicos dessas regiões.

Dentro da programação descentralizada do 52º FBCB, também estão previstas exibições itinerantes. Trata-se do Cine Fusca, cinema móvel que percorrerá cidades como Sol Nascente, Sobradinho 2, Santa Maria e Paranoá. Outras três cidades do DF estarão no circuito do festival trazendo oficinas a quem se interessa pelo universo audiovisual. Ceilândia, Recanto das Emas e São Sebastião recebem atividades durante a programação.

Drama familiar em praia do Nordeste

Foto : divulgação

Veterano no Festival de Brasília, o diretor pernambucano Cláudio Assis estreia seu novo filme Piedade na noite de amanhã da competição. Dono de um discurso cinematográfico próprio, com caráter de denúncia e focado no comportamento humano, Assis traz para a tela do Cine Brasília um retrato da realidade vivida pelos moradores da região do Porto Suape, no litoral de Pernambuco.

Com um elenco de peso — formado por Fernanda Montenegro, Irandhir Santos, Mateus Nachtergaele e Cauã Reymond —, o filme trabalha questões ecológicas e sociais. Na história, Dona Carminha (Montenegro) é uma matriarca que vê sua família ser abalada com a chegada de um executivo de uma empresa petrolífera de São Paulo (Nachtergaele), que precisa expulsar os moradores locais para explorar os recursos da região, na Praia Saudade, em Piedade, onde ela tem um bar.

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“É um filme muito atual e traz pouco da minha história, só que ambientada na praia. No fundo, existe uma questão pessoal da minha vida, mas também tem pegada social e faz uma denúncia”, declarou o diretor ao Jornal de Brasília. Ele — que já venceu três vezes o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, por Amarelo Manga (2002), Baixio das Bestas (2007) e Big Jato (2015) — estará presente na exibição de amanhã com os atores Cauã Reymond, Francisco de Assis Moraes, Irandhir Santos, Mariana Ruggiero e Matheus Nachtergaele.

Ao mesmo tempo em que — na narrativa do filme — critica aspectos do capitalismo, Assis também aponta os retrocessos na política para o audiovisual do governo federal. “O cinema brasileiro está passando por um momento de piora. O governo não tem compromisso nenhum com a realidade e brinca com o poder. Estão desmontando o lugar sagrado que o cinema tinha conquistado”, opina.

E, segundo o cineasta, o Festival de Brasília é um espaço para lutar contra isso. “São mais de 50 anos de luta, resistência e denúncia, reunindo diversas localidades do Brasil com uma grande diversidade de público, além da grande visibilidade”, pontua. Para ele, a maior expectativa está na reação da plateia. “Brasília reúne gente de todo o país e forma um público muito corajoso”, afirma.

Sobre a solidão do indígena Justino

Foto : divulgação

No domingo, a temática indígena ganha destaque no festival. A história de A Febre, dirigida pela cineasta Maya Da-Rin, é de Justino — um indígena do povo Desana que trabalha como vigia no porto de cargas de Manaus. Enquanto sua filha Vanessa se prepara para estudar Medicina em Brasília, ele é tomado por uma febre misteriosa.

“Justino se vê cada vez mais esgotado pela solidão e pela discriminação tão comuns nas cidades brasileiras. O filme fala sobre a relação entre um pai e uma filha vivendo momentos distintos em suas vidas: enquanto ela batalha para fazer valer seu direito de cursar Medicina, ele percebe que os saberes dos brancos não têm a cura para aquilo que o atormenta”, resume a diretora.

Segundo Maya, a motivação para contar essa história veio a partir de filmagens de dois documentários que ela fez na Amazônia, quando conheceu algumas famílias indígenas que haviam deixado suas aldeias na floresta para viver na cidade. “Apesar de A Febre ser um filme de ficção, meu ponto de partida foram histórias reais. Elas me interessaram principalmente porque eram histórias de personagens com os quais eu poderia cruzar no cotidiano”, explica.

Segundo a diretora, a crítica pungente do filme está na questão da doença. “Acredito que a nossa sociedade está doente, porque não é mais capaz de se relacionar com a alteridade e nem suportar as diferenças. Somos a única espécie que extermina a si própria. Isso aconteceu durante séculos de colonização e segue acontecendo hoje, quando fechamos os olhos para os imigrantes e refugiados ou quando agimos com indiferença em relação ao aquecimento global e o desmatamento das florestas”, opina.

Em entrevista ao Jornal de Brasília, Maya contou que tomou cuidado para não tratar a temática indígena na tela de forma estereotipada. Para isso, ela fez muitas viagens a Manaus e se aproximou das famílias de indígenas que conheceu. “Sabemos da propensão do cinema em exotizar as culturas indígenas e da tendência em enxergá-las por um prisma romântico e positivista, como remanescentes daquilo que as culturas ocidentais foram no passado e não como as sociedades complexas e atuais que são”, pontua.

O filme estreou no Festival de Locarno, na Suíça, em agosto, e, segundo Maya, “tem tido uma acolhida muito calorosa tanto do público quanto da crítica”. A exibição no 52º FBCB será a estreia nacional da produção. “O Festival de Brasília tem uma importância histórica e política muito grande para o cinema brasileiro. Espero que a edição deste ano continue fomentando o debate, a representatividade e a regionalização em suas atividades, abrindo espaço para uma nova geração de cineastas das diferentes regiões do país”, comenta.

Maya é uma das duas mulheres que concorrem ao troféu Candango com longas na mostra competitiva. Para ela, esse número é alarmante e reflete a pouca participação das mulheres no cinema brasileiro. “Apenas um quinto da produção anual é feita por mulheres e a grande maioria desses filmes foram realizados por mulheres brancas. Não há outra justificativa para essa discrepância do que o machismo e o racismo estruturais da sociedade brasileira”, afirma. “São necessárias medidas que garantam a representatividade e a paridade”, completa.

Saiba Mais

Antes de Piedade, a primeira noite da Mostra Competitiva começa com a exibição dos curtas Alfazema, de Sabrina Fidalgo, e Carne, uma animação de Camila Kater. As sessões começam às 20h30 no Complexo Cultural Planaltina e no Instituto Federal de Brasília do Recanto das Emas, com entrada gratuita; e às 21h no Cine Brasília, com ingressos a R$ 10 (meia).

Já no domingo, os curtas-metragens que abrem a noite são Caranguejo Rei, de Enock Carvalho e Matheus Farias; e Ari y yo, um minidocumentário de Adriana de Faria. As sessões também têm início às 20h30 no Complexo Cultural Planaltina e no Instituto Federal de Brasília do Recanto das Emas, com entrada gratuita; e às 21h no Cine Brasília, com ingressos a R$ 10 (meia).




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