Guilherme Luis
Folhapress
Pendurada por cabos, a nave rosa de Xuxa desceu do alto do Nubank Parque, em São Paulo, para sobrevoar o gramado, no que a apresentadora promete ser um dos seus últimos voos. Começava, na noite deste sábado (25), a turnê que ela preparou para se despedir daquele que se tornou um dos maiores símbolos da sua carreira.
Foi com “Doce Mel”, dos anos 1980, e “Xuxalelê”, lançada na década seguinte, que a artista começou o show “O Último Voo da Nave”. As músicas vieram após ela descer de uma abertura no topo do palco, em meio a telões imensos, também pendurada por cabos.
Foi um show de diva pop —algo que Xuxa almejava, após estudar turnês recentes de artistas como Beyoncé e Madonna. Disse a este jornal que se inspirou no vigor de Cher, de 80 anos, que faz várias trocas de figurino quando se apresenta, e em Pink, famosa por cantar pendurada em cordas.
Embora não estivesse entupido, o Nubank Parque ficou bastante cheio neste sábado. Ali, já passaram nomes gigantes do pop internacional, como Taylor Swift, Harry Styles e The Weeknd. A plateia de Xuxa era formada, em sua maioria, por adultos. Uma segunda apresentação acontece na próxima sexta-feira, dia 31.
“Todo mundo sabe que não sou cantora”, Xuxa disse no começo da apresentação. “Minha intenção aqui é ver vocês felizes. O brilho de vocês me faz uma estrela. Não acho legal alguém se intitular estrela, mas o brilho que emanam daí bate em mim e olha o que acontece”, afirmou, apontando para seu maiô prateado, bem reluzente.
Xuxa gavou em estúdio novas versões de 20 das 31 canções que compõem a setlist. Ela dublou a maior parte das músicas —usava a voz apenas para discursar ao público durante as pausas.
Foram vários discursos. Primeiro, no telão, uma Xuxa computadorizada pregou contra a homofobia, o racismo e o sexismo, e deu boas-vindas à plateia. Depois, já no palco, pediu que as pessoas saíssem dali pensando em como melhorar a relação com a natureza. Houve ainda um pedido pelo fim da violência contra a população LGBTQIA+ acompanhando pela música “Arco-Íris”.
“Abecedário da Xuxa” e “Xuxaxé” foram as que mais agitaram na primeira parte do show. Xuxa disse que foi difícil montar a seleção de canções —”sei que não vou agradar todo mundo”. Por isso, ela teve de cortar várias pela metade para que coubessem nas duas horas de apresentação.
“Respeita minha idade, que a avó de vocês deve estar fazendo crochê e eu aqui de xuxinha”, disse ela a certa altura. Noutro momento, pediu licença para relembrar os tempos de apresentadora —Xuxa fez carreira comandando vários programas na Globo, entre as décadas de 1980 e 2000—, e convidou quatro fãs ao palco. Brincou que seriam suas “paquitas” e “paquitos” por um dia, e com eles dançou “Tô de Bem com a Vida”.
Nos telões, Xuxa exibia uma seleção aleatória de imagens —havia elementos da natureza, com animais e árvores, arco-íris e robôs. Eram imagens artificiais e computadorizadas, um tanto distoantes dos objetos cenográficos e fantasias reais espalhados pelo palco.
Mas isso não incomodou o público, que queria mesmo dançar. Muitos nem olhavam para o palco, algo um tanto raro em megashows como esse, com as pessoas quase sempre numa busca incansável pelo artista em cena.
Uma hora depois do início do show, Xuxa emendou sucessos dançantes. “Soco, Bate, Vira”, “Estátua”, “Cabeça, Ombro, Joelho e Pé” e “Dança da Xuxa” fizeram o público largar celulares e copos de cerveja para lembrar as coreografias que marcaram a infância de tantos.
Xuxa convidou ao palco o cachorro laranja Txutxucão para dançar várias músicas dedicadas a ele. Não apareceram, porém, outras criaturas famosas da carreira dela, como o polvo Teddy, a Xuxinha ou a Elefanta Bila Bilú.
Mas Xuxa convidou, é claro, as paquitas, dançarinas que acompanhavam a apresentadora nos programas de TV. “Não vieram todas, umas porque não quiseram, outras porque não puderam, mas não importa”, afirmou. Elas dançaram “Fada Madrinha”.
O corpo de bailarinos de Xuxa, bem ensaiado, reproduzia os movimentos rápidos e ousados de shows de divas do pop atual. Isso fica evidente no bloco dedicado ao programa Planeta Xuxa, dos anos 1990, que ganhou sons de funk remixados pelo DJ Dennis. Agora com outro body, este dourado, e de peruca comprida, Xuxa apresentou “Libera” e “Giro do Planeta”.
No final do show, Xuxa apresentou “Lua de Cristal” e “Ilariê”, uma das canções que ela mais exportou —e, por isso, foi cantada em várias línguas. Xuxa lembrou que foi a vários países só por causa dessa música, e pediu que o público acredite em todos os seus sonhos.
Ela se despediu, voltou ao teto do estádio e a nave fez um último voo.