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‘As Verdades’ com Lázaro Ramos se perde entre o policial e o romance

O problema é que o filme precisa, aparentemente, de uma trama amorosa, e a única à mão é essa, do delegado por uma das suspeitas do crime

Por FolhaPress 02/07/2022 2h10
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Inácio Araújo

“As Verdades” reencontra a famosa estrutura com que Akira Kurosawa seduziu o mundo e pareceu revolucionar o cinema há uns 70 anos com “Rashomon” -uma história contada por vários personagens, cada um com uma versão diferente

No caso, estamos numa pequena e paradisíaca cidade baiana, onde o policial Josué, papel de Lázaro Ramos, depara, logo após sua chegada, com um caso escabroso -a brutal tentativa de assassinato de Valmir, papel de Zécarlos Machado, candidato a prefeito da cidade.

Depois de analisar o local do crime, Josué localiza o primeiro suspeito, um certo Cícero -Thomás Aquino-, valentão que, entre outras, já aceitou proposta para matar por dinheiro. Depois ouvirá Francisca -Bianca Bin-, a bela do local, possível pivô do crime, e a própria vítima, que o hospital da cidade mantém surpreendentemente vivo.

Cada uma das histórias é tocada a poder de elipses e falsidades misturadas aos fatos. Cícero fala de uma mulher pela qual era obcecado. Queria Francisca para ele e, no mais, notava que ela dava mais bola para ele do que para o marido. Ora, Francisca diz exatamente o contrário.

E o filme nos mostra o contrário: Cícero interpreta tudo que vê do ponto de vista de uma paixão desenfreada. O prefeito falará de como amava a jovem, com quem pretende casar-se, vencendo as resistências da mãe da garota, a amarga Amara -Drica Morais.

O filme anda bem durante a primeira história, quando flui com desenvoltura. Logo, no entanto, o passado se imiscui, pois Josué anos atrás tivera uma relação passageira, porém marcante com Francisca.

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Narrativamente, as coisas começam a se complicar por aí. O autor do filme, José Eduardo Belmonte, toma distâncias em relação ao narrador (Josué), na medida em que este se descobre também apaixonado por Francisca. Ou seja, torna-se um narrador pouco confiável.

O problema é que o filme precisa, aparentemente, de uma trama amorosa, e a única à mão é essa, do delegado por uma das suspeitas do crime. Pois Francisca é a maior suspeita, no dizer de Cícero -queria se livrar do amante (e futuro marido) para ficar com Cícero.

Francisca, claro, conta uma história completamente diferente. O filme não toma uma atitude clara em relação ao que se arma: fica com a história amorosa ou com a policial? À medida que a trama progride as duas se embaralham e o narrador (Josué) se embanana.

Outro problema para Josué é que nenhuma das histórias cola muito bem. Cada um narra os fatos de seu ponto de vista e conforme aquilo que lhes interessa, o caso perde progressivamente o interesse do ouvinte/narrador, Josué, muito mais interessado em Francisca, e também do espectador –as fendas de cada uma das versões começam a se mostrar claras demais.

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Tudo isso levará o delegado a buscar uma quarta versão do caso, talvez a mais rocambolesca, cuja função principal, do ponto de vista da trama policial, é amarrar a história toda.

“As Verdades” consiste, em poucas palavras, em nova tentativa de estabelecer o que seria um “filme médio” brasileiro: um produto bem narrado, com elenco conhecido, boa produção, fiel à representação clássica, com atuações verossímeis -na medida do possível- e uma história idem.

À parte o fato de ignorar que o cinema e o espectador não estacionaram nos anos 1950, resta saber se o “público médio” desse “filme médio” existe. Em países mais equilibrados pode-se supor que sim. O universo dos espectadores e o dos autores de filmes não é tão distante assim. A pessoa mais ingênua e a mais culta partilham, afinal, do mesmo mundo. Infelizmente é bem improvável que as coisas se passem dessa forma no Brasil.

É nessa medida que o filme corre o risco de não convencer de todo nem o espectador que busca a trama policial nem o que procura o romance, pois, buscando narrar sua história de maneira a um tempo simples e sofisticada, “As Verdades” se embrenha por tantas verdades supostas e paixões desenfreadas que ao final as pontas soltas obrigam os protagonistas a se dispersar, um para cada canto do mundo.

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Enquanto isso, o filme praticamente deixa escapar sua premissa inicial, aquela exposta nas fotos que acompanham os créditos de abertura -o crime não é, a rigor, responsabilidade de um nem de outro suspeito, mas de uma estrutura social violenta e perversa.

AS VERDADES

Onde: Em cartaz nos cinemas
Classificação 16 anos
Elenco Bianca Bin, Drica Moraes, Lázaro Ramos
Produção Brasil, 2020
Direção José Eduardo Belmonte
Avaliação Regular

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