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Ao analisar fascismo, Madeleine Albright faz alerta para os dias de hoje

Arquivo Geral

13/08/2018 7h57

JOSHUA ROBERTS / REUTERS

Eduardo Brito
edubrito@grupojbr.com

A atual deterioração do quadro partidário brasileiro atingiu até conceitos básicos do vocabulário político. Dentro da superficialidade primitiva da nova esquerda do País, a ideia de fascismo passou a ser algo como “crença professada por qualquer um que pense diferente de mim”. Por essas e outras, cai muito bem a leitura de Fascism – a Warning (algo como Fascismo – uma Advertência), que acaba de ser lançado lá fora por Madeleine Albright, cientista política que foi secretária de Estado no governo Clinton.

Madeleine sabe do que fala. Seu primeiro contato com o fascismo se deu quando ainda começava a andar, ao precisar fugir da Tchecoslováquia invadida pelas tropas de choque de Adolf Hitler — ele, sim, um fascista de verdade, e da pior vertente do fascismo, o nazismo.

Não se sabe quanto ela conhece da realidade brasileira atual, mas Madeleine está alerta para o uso simplório da palavra fascismo. “Para um adolescente”, diz ela, “fascismo é a limitação que o papai impõe ao uso do celular”. Só que não se trata disso. Fascismo é algo muito sério. E, embora seja menos corriqueiro do que os debilóides creem, está, sim, presente por aí.

Para começar, fascismo é menos uma ideologia política do que uma forma de tomar e de manter o poder. Baseia-se em uma relação emocional com as multidões e, por isso mesmo, costuma se fortalecer em períodos de sofrimento – desemprego, guerra, empobrecimento, miséria generalizada – para surgir como uma promessa de renovação, de regeneração, de recuperação de algo que foi roubado.

Um fascista, observa Madeleine Albright, “é alguém que diz falar por toda uma nação ou grupo, não se importa com os direitos dos outros e está disposto a usar a violência e quaisquer outros meios necessários para alcançar os objetivos que ele ou ela quer ter”. Por isso mesmo, não precisa ser necessariamente de direita. Pode ser de esquerda, com tropas de choque e tudo o mais. Bom dia, Hugo Chávez e Nicolás Maduro.

O século 20 foi definido pelo choque entre democracia e fascismo, uma luta que criou incerteza sobre a sobrevivência da liberdade humana e deixou milhões de mortos. Dados os horrores dessa experiência, poderíamos esperar que o mundo rejeitasse os sucessores espirituais de Hitler e Mussolini, caso surgissem em nossa era. No livro, Albright baseia-se em suas experiências como uma criança na Europa devastada pela guerra e sua distinta carreira como diplomata para questionar essa suposição.

O fascismo, como ela mostra, não só perdurou ao longo do século 20, mas agora apresenta uma ameaça mais virulenta à paz e à justiça do que em qualquer outra época desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O ímpeto em direção à democracia que varreu o mundo quando o Muro de Berlim caiu foi revertido. Os Estados Unidos, que historicamente defenderam o mundo livre, são liderados por um presidente que exacerba a divisão e despreza as instituições democráticas.

Que ninguém se iluda. O fascismo tem um corpo. Precisa das pernas da multidão para tomar as ruas, precisa dos braços de tropas de choque para espancar os adversários, precisa de pulmões para berrar palavras de ordem. Mas também tem uma cabeça. Essa cabeça pode incluir os demagogos carismáticos que costumam conduzi-lo, mas também conta com alguém para pagar as contas. Hitler e Mussolini não existiriam se não houvesse empresários para financiá-los, pagar pelas manifestações, remunerar os militantes e assalariar as tropas de choque.

Putin, Kim, Chávez, Orbán, Erdogan…

Um capítulo inteiro de Fascism: A Warning é sobre Vladimir Putin, que descobriu ser “tão frio a ponto de ser quase reptiliano”, mas um homem de talentos consideráveis, embora obscuros. “Ele é muito esperto, jogou uma mão fraca muito bem. Tem agenda maior, que é nos separar de nossos aliados e que começa separando a Europa central e oriental da Europa ocidental”.

Albright se lembra de um russo reclamando: “Nós éramos uma superpotência e agora somos Bangladesh com mísseis”. Putin, ela diz, “se viu como o redentor daquele homem”.

Embora escreva como cientista política e diplomata, Madeleine Albright não esquece que, em quatro anos como secretária de Estado, seus pontos de vista foram moldados por encontros com a tirania.

Ela encontrou Kim Jong-il, pai do atual tirano da Coreia do Norte, lembrando-se dele como “bastante normal para alguém cujo aniversário é celebrado todos os anos como o ‘Dia do Sol'”. Slobodan Miloševic, o tirano sérvio, “não se encaixa no estereótipo de vilão fascista”, ainda que fosse responsável por limpezas étnicas como no Kosovo.

Hugo Chávez, o falecido governante da Venezuela, era “muito carismático” e promissor para seu país quando e suplantou “um bando de velhos elitistas”. Quando Recep Tayyip Erdogan chegou ao poder pela primeira vez na Turquia, parecia uma refrescante alternativa a pessoas “que vivem em casas grandes, ou às forças armadas”. Todos eles viraram tiranos, com ao menos uma pitada de fascismo implícito ou explícito.

É o caso de Viktor Orbán , o auto-intitulado “democrata liberal” que governa a Hungria. Foi financiado por George Soros para ir a Oxford. Depois, virou fascista. Ela lamenta. A transformação de Orbán no cargo a pegou de surpresa.
Em tempo: Albright só faz duas referências ao Brasil em todo o livro. Uma delas, sub reptícia, para avisar que manifestações contra a corrupção não são, mesmo, sinais de fascismo. Ela conhece as piores mentes da esquerda brasileira.

Fascism: A Warning
Autora: Madeleine Albright
Editora: HarperCollins
Páginas: 304
Preço médio: US$ 35

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