Beatriz Castilho
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Erroneamente chamado de país por desavisados, o terceiro maior continente do mundo se estende por mais de 30 milhões de metros quadrados. A África é chão para 54 países. Trazendo uma amostra das cores e da história africana, duas exposições desembarcam hoje na capital federal. Ao todo, são mais de 23 artistas que assinam mais de 90 obras. O trabalho evidencia produções recentes de diversas regiões africanas.
“Estamos expondo a maior mostra de arte contemporânea africana realizada no Brasil. O objetivo é apresentar um retrato do momento artístico atual do continente”, explica o curador da mostra Ex África, Alfons Hug. Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, a exposição é um grande aglomerado de esculturas, fotografias, instalações, performances, pinturas e vídeos.
Para selecionar os 20 artistas expostos, foram feitas pesquisas sobre a complexidade da diversidade da África. “A arte africana movimenta-se na zona de tensão entre diversos arquivos: tradicionais e modernos, coloniais e pós-coloniais, locais e globais, cosmopolitas e aqueles influenciados pela diáspora”, aponta Alfons.
Entre as produções, ele destaca três grandes legados: a cultura nativa, o cristianismo e o islamismo. “Entre o Senegal e a África do Sul, o Sudão e Angola, a identidade africana moderna é marcada por uma diversidade de encontros culturais e interações, por processos de intercâmbio e aculturações”, conta.
Para abraçar todas as peças – e estruturas -, a mostra é dividida em capítulos: Ecos da História, Corpos e Retratos. “Muitos artistas evocam a história, inclusive da escravidão, em suas obras; e os vínculos, com a diáspora negra nas Américas, por exemplo. O corpo está presente nas performances e nos vídeos, enquanto o drama urbano surge em muitas fotografias”, enumera o curador. A música marca presença em uma sala sobre as novas tendências populares nigerianas.
Ponte com o Brasil
O título, Ex África, é uma referência direta ao escritor Caio Plínio Segundo (23 d.C.- 79 d.C.), em escrito feito há 2 mil anos. ”Ex Africa semper aliquid novi? [da África sempre há novidades a reportar]“ expressava a volta de uma viagem do romano às províncias do Império Romano.
Para o curador, a raiz histórica – com a migração forçada – é uma das pontes entre África e Brasil. “A exposição acontece num momento em que a herança africana no Brasil volta a estar em evidência, quando a comunidade afrodescendente conquista cada vez mais espaço na cultura”, frisa Hug.
Dois artistas brasileiros participam da mostra: o carioca Arjan Martins e o brasiliense Dalton Paula. “Enquanto Arjan estuda mais a geografia, tanto da África como do Brasil, Dalton se concentra nos mitos e rituais da cultura popular”, ressalta Alfons. Apesar das diferenças técnicas e temáticas, os dois se assemelham ao basearem seus trabalhos nas heranças africanas do país tupiniquim.
A única figura feminina da exibição é a britânica Ndidi Dike, que cresceu no continente africano, onde se formou em pintura pela Universidade da Nigéria.
Entre as duas dezenas de artistas, Ndidi traz uma instalação de peso, com objetos utilizados pelo comércio escravo. Com algemas e ferros de marcar, a obra impactante propõe uma viagem no tempo, e está exposta na primeira parte da mostra.
Non Orientable Nkansa II, do ganês Ibrahim Mahama, é outro destaque de Ex África. Empilhando e recheando mais de 2 mil caixas de sapato de madeira, o artista constrói uma parede que divide o Pavilhão de Vidro do CCBB. “(Mahama) É um dos nomes a ser levado em consideração quando se fala da arte africana no futuro”, garante o curador da exposição.
No quesito fotografia, nomes como Kudzanai Chiurai, J. D. Okhai Ojeikere e Omar Victor Diop são alguns dos artistas celebrados na exposição.
Entre passado e presente
Outra mostra que desembarca hoje em Brasília é Daqui pra Frente – Arte Contemporânea em Angola, ocupando a Caixa Cultural (Setor Bancário Sul) até 30 de setembro. A exibição traça um paralelo entre passado e presente, com imagens de três fotógrafos do país: Délio Jasse, Mónica de Miranda e Yonamine.
Misturando fotografias, vídeos e instalações, a exibição conta com diferentes óticas e estéticas para trabalhar questões relacionadas às consequências da diáspora africana. Retratando às guerras e exílios dos desdobramentos coloniais, Délio Jasse traz imagens descobertas em uma feira portuguesa de antiguidades. Explorando a memória, Mónica de Miranda busca em sua própria existência as fronteiras e as pluralidades da identidade. Por fim, a partir de recortes, jornais, pintura e grafite, está o trabalho de Yonamine. Com diversas referências de arte urbana, o artista explora imagens complexas e perturbadoras.
Bruscky ganha retrospectiva
Palarva – Poesia Visual e Sonora de Paulo Bruscky também desembarca na Caixa Cultural esta semana. Composta por mais de 200 obras de diferentes épocas e estilos, a exposição contempla as cinco décadas de produção do artista pernambucano multifacetado.
“É um resumo de minha trajetória. A palavra é fundamental na minha obra porque muitas vezes começo com uma palavra e desenvolvo algo em função disso”, explica o artista, em entrevista ao Jornal de Brasília.
Nascido em 21 de março de 1949 em Recife e considerado um dos mais influentes artistas conceituais contemporâneos brasileiros, o pernambucano é conhecido por ser um dos primeiros a explorar a arte correio no País. “Arte correio foi um movimento sem nacionalidade, baseado na troca de informação. Todo lugar virava lugar expositivo”, resume o artista.

Paulo Bruscky/Reprodução
Marcando uma grande parte da exposição, esse tipo de produção não é o única na retrospectiva, que engloba filmes, colagens, fotografias, peças de xerox, poesia visual e até performances exclusivas.
Para Bruscky, trabalhar com diferentes técnicas é algo natural. “Sempre digo que o artista tem que estar muito informado para não atravessar caminhos já caminhados. Você tem que ter o começo, mas fazendo o seu caminho.
Eu sou influenciado pela vida, e também pelo surrealismo e dadaísmo”, completa Paulo, que fará uma visita guiada pela mostra amanhã, às 19h.
Serviço
Ex África
De 7 de agosto a 21 de outubro
Local: Centro Cultural Banco do Brasil (Setor de Clubes Esportivos Sul)
Entrada franca
Informações: (61) 3108-7600
Classificação livre
Daqui pra Frente – Arte Contemporânea em Angola
De 7 de agosto a 30 de setembro
Local: Caixa Cultural Brasília (Setor Bancário Sul)
Entrada franca
Informações: (61) 3206-9448 / 3206-9449
Classificação livre
PaLarva – Poesia Visual e Sonora de Paulo Bruscky
8 de agosto a 30 de setembro
Local: Caixa Cultural Brasília (Setor Bancário Sul)
Entrada franca
Informações: (61) 3206-9448
Classificação livre
Outras exposições
Arte Nikkei de Brasília
Até 15 de Agosto (segunda a domingo, das 8h às 20h)
Local: Templo da Boa Vontade (Setor de Grandes Áreas Sul)
Entrada Franca
Informações: 3114-1070
Classificação livre
Exposição Caneta Criativa – Por Jailson Belfort
Até 17 de agosto (segunda a sexta-feira, das 12h às 19h)
Local: Supremo Tribunal Federal (Praça dos Três Poderes)
Entrada franca
Informações: 3217-3000
Classificação livre
Um Autorretrato Cubano
Até 19 de agosto (terça a domingo, das 9h às 21h)
Local: Caixa Cultural Brasília (Setor Bancário Sul)
Entrada franca
Informações: 3206-9448
Classificação livre
Precisão e Acaso – de José Patrício
Até 26 de agosto (terça a domingo, das 9h às 18h30)
Local: Museu Nacional do Conjunto Cultural da República (Eixo Monumental)
Entrada franca
Informações: 3325-5220
Classificação livre
Eu Leitor
Até 23 de setembro (terça a domingo, das 9h às 19h)
Local: Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul)
Entrada franca
Informações: 3443-6039
Classificação livre
Mostra dos artistas selecionados ao Transborda Brasília – Prêmio de Arte Contemporânea 2018
Até 9 de outubro (terça a domingo, das 9h às 21h)
Local: Caixa Cultural Brasília
Entrada franca
Informações: 3206-9448
Classificação livre