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Cidades

Apesar da facilidade, educação a distância apresenta problemas para estudantes

Raphaella Sconetto
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A possibilidade de o próprio aluno montar o seu plano de aula de acordo com a rotina é atrativa. A educação a distância permite que alunos sejam os protagonistas durante a graduação, pós-graduação ou em cursos profissionalizantes, além de aliar o conteúdo tradicional com o universo multimídia. Apesar dos pontos positivos, quem se matricula em um curso EAD relata dificuldades: problemas de comunicação, atendimento ruim e até má qualidade do serviço prestado.

Em todo o País há 583 instituições credenciadas no Ministério da Educação (MEC) para a modalidade a distância. Destas, 17 são do Distrito Federal. Segundo as Estatísticas da Educação Superior, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), só no Centro-Oeste foram ofertados mais de 180 cursos, nas áreas de saúde, engenharia, comunicação, entre outros.

Na capital, em 2017, 28,5 mil estudantes ingressaram em uma graduação presencial, enquanto 6.410 se formaram pelo EAD. No mesmo período, o Distrito Federal foi polo de 94 instituições brasilienses ou não – um aumento de 88% quando comparado com 2010, quando Brasília tinha 50 polos.

O enfermeiro Ednilson Messias de Oliveira, de 36 anos, é de Divinópolis (MG) e está matriculado em uma pós-graduação de Enfermagem do Trabalho de uma instituição de Brasília. Essa é o segundo curso que ele fez na mesma faculdade. Da primeira vez, ao cursar Enfermagem em Urgência e Emergência, ele cita que a experiência foi positiva. Na segunda, porém, não teve a mesma sorte.

 

Ednilson Messias de Oliveira é de Divinópolis(MG). Foto: Raphael Ribeiro

 

“Na primeira pós deu tudo certo. Acho que foi porque não tive que ter tanto contato com a faculdade. Na segunda vez precisei fazer mais contato por conta de alguns problemas, e enfrentei várias barreiras para chegar a quem precisava. O contato com a faculdade é muito burocrático, porque não tem como ficarmos ‘cara a cara’”, critica.
Assim como ele, muitos não se sentem satisfeitos. Levantamento feito pelo portal Reclame Aqui – site especializado em queixas – para o Jornal de Brasília mostrou que 330 pessoas fizeram reclamações da modalidade a distância no DF em 2018. O número é 19% maior do que em 2017, quando 276 críticas foram registradas.

Entre os principais motivos das reclamações em 2018 estão a instabilidade dos sites e cobrança indevida, ambos com 7,6%. Em seguida, alunos também criticaram o mau atendimento, dificuldade de cadastro, demora na emissão de diploma e documentação (6,6%). Não muito atrás, a qualidade do serviço prestado (5,7%) também foi alvo das queixas dos estudantes do DF.

Para o mineiro Ednilson, o ensino a distância era o único modo de voltar a estudar e aprimorar o currículo sem atrapalhar a rotina. “Moro no interior. Um bom curso só conseguimos em Belo Horizonte, que fica a umas duas horas daqui. O deslocamento é difícil. No fim de semana sempre estamos fazendo plantões. O EAD é único jeito de continuar a estudar”, comenta.

 

Atendimento por robô não resolve problema

Movido pela boa experiência e por conseguir um desconto mais atrativo, o enfermeiro Ednilson Messias não pensou duas vezes em fazer um segundo curso na instituição de Brasília. Com duração de um ano, ele começou a ter problemas no final da pós-graduação. “Virei a noite fazendo um trabalho da última matéria do curso. Quando coloquei o trabalho no portal, pedi uma resposta mais rápida da tutora. Quando fui ver, ela havia retirado três pontos, não pelo conteúdo, mas porque não havia escrito de maneira científica”, recorda.

Conforme o enfermeiro, nas outras nove matérias a instituição não havia cobrado a escrita acadêmica. Por isso, questionou a correção. “Mandei mensagem no fórum, liguei e abri um chat no site. Não consegui nenhuma resposta. Nunca consegui falar com o coordenador de curso. Em uma das respostas, o diretor me tratou com total descaso. É uma faculdade privada, a gente paga pelo curso mas não tem o um bom atendimento. O chat e o telefone são atendidos por um robô”, critica.

Para se formar, Ednilson precisa fazer uma única prova. No entanto, ele diz que não está mais motivado. “Entrei numa fria. Durante o curso, estudava com a maior força de vontade. Eu me desiludi tanto. Ainda não agendei minha prova final. A sensação que tenho é que foi um dinheiro jogado no lixo”, lamenta o estudante.

“Estou com três colegas de trabalho querendo cursar a distância, mas não recomendo. No EAD, o aluno tem que se virar sozinho. Mesmo que tenha esforço, força de vontade, têm coisas não dependem de você, mas sim de outros profissionais. Além disso, você sente falta da prática. É muita teoria, conhecimento científico, mas quando chego ao meu trabalho é como se estivesse aprendendo pela primeira vez”, completa o enfermeiro.

Movido pela boa experiência e por conseguir um desconto mais atrativo, o enfermeiro Ednilson Messias não pensou duas vezes em fazer um segundo curso na instituição de Brasília. Com duração de um ano, ele começou a ter problemas no final da pós-graduação. “Virei a noite fazendo um trabalho da última matéria do curso. Quando coloquei o trabalho no portal, pedi uma resposta mais rápida da tutora. Quando fui ver, ela havia retirado três pontos, não pelo conteúdo, mas porque não havia escrito de maneira científica”, recorda.

Conforme o enfermeiro, nas outras nove matérias a instituição não havia cobrado a escrita acadêmica. Por isso, questionou a correção. “Mandei mensagem no fórum, liguei e abri um chat no site. Não consegui nenhuma resposta. Nunca consegui falar com o coordenador de curso. Em uma das respostas, o diretor me tratou com total descaso. É uma faculdade privada, a gente paga pelo curso mas não tem o um bom atendimento. O chat e o telefone são atendidos por um robô”, critica.

Para se formar, Ednilson precisa fazer uma única prova. No entanto, ele diz que não está mais motivado. “Entrei numa fria. Durante o curso, estudava com a maior força de vontade. Eu me desiludi tanto. Ainda não agendei minha prova final. A sensação que tenho é que foi um dinheiro jogado no lixo”, lamenta o estudante.

“Estou com três colegas de trabalho querendo cursar a distância, mas não recomendo. No EAD, o aluno tem que se virar sozinho. Mesmo que tenha esforço, força de vontade, têm coisas não dependem de você, mas sim de outros profissionais. Além disso, você sente falta da prática. É muita teoria, conhecimento científico, mas quando chego ao meu trabalho é como se estivesse aprendendo pela primeira vez”, completa o enfermeiro.


Experiência positiva

Diferentemente de Ednilson, a orçamentista Shayene Boaventura, 29 anos, não tem do que reclamar. De Uberaba (MG), ela se mudou para Brasília há três anos. Na época, quando cursava o 5º semestre, ela teve de trancar o curso de Engenharia Civil para se mudar para a nova cidade. Quando chegou à capital, descobriu que sua faculdade oferecia o curso, com os mesmos professores, na modalidade EAD.

Por ter passado pelas duas modalidades na mesma universidade, ela conclui que não há diferenças na qualidade do conteúdo. “A única diferença que percebi é que o EAD exige uma disciplina maior. O material está ali e é você que tem que sentar para estudar. No presencial, o professor te puxa. Aqui não tem. É a necessidade que faz a gente buscar o estudo”, compara.

Shayene Boaventura. Foto: Raphael Ribeiro

Com duas filhas, de 8 e 9 anos, e trabalhando fora o dia inteiro, Shayane adaptou sua rotina facilmente. “Eu acho até mais fácil, porque a aula está salva e posso assistir uma, duas ou até entender o conteúdo. No presencial, não tem isso. Tenho tutores quase que 24 horas, me respondem sempre com rapidez. Eu me organizo com base na minha rotina”, aponta.

Para ela, críticas a respeito da metodologia são arcaicas. “Atualmente a gente faz tudo pelo computador e pela internet. Compras, banco e por que não podemos estudar? A carga horária é a mesma, bibliografia é a mesma, e tudo isso por um preço que, às vezes, sai mais em conta e ainda pode fazer no seu tempo”, completa a estudante.


Modelo em evolução

O ensino a distância está muito ligado à internet. No entanto, ele começou na década de 1990 em outro formato. Na época, estudantes podiam receber em casa livros, enciclopédias e outros materiais impressos por correio. De lá para cá, houve o surgimento das novas tecnologias e o crescimento da quantidade e qualidade do quadro de docentes. A contextualização é de Ormezinda Ribeiro, coordenadora do curso de Letras da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em ensino a distância.

“Muita gente não acreditava, desprezava e minimizava a educação a distância. As universidades públicas deixaram para as privadas esse trabalho, que acabou ficando como um filão empresarial. Só que, se não acreditava, ninguém investia. Instituições privadas, algumas picaretas, tomaram a frente visando o lucro e atrasaram o desenvolvimento e o trabalho em prol da qualidade”, esclarece.

A partir de 2010, a especialista lembra que o EAD começou a ter mais destaque a partir de políticas públicas. “Hoje o ensino a distância não está 100% equiparado na qualidade com o presencial devido a um processo de resistência. Mas a tendência é de que ensino chegue até a educação básica”, espera Ormezinda.

Para a professora, para avançar é preciso mais capacitação de professores. “Os professores não podem fazer do espaço tecnológico um depósito. Os tutores podem fazer uma aula a distância sem distância. Assim como no presencial, a experiência pode ser boa ou ruim, depende dos atores. Posso ter um aluno que não sei o nome, que vai para a aula e não participa. Não é a modalidade, é a forma como se conduz”, finaliza.

 

Versão Oficial

Por nota, o MEC informou que atua na supervisão de todas as instituições de ensino superior – públicas e particulares, incluindo as modalidades presenciais e a distância. As formas de fiscalização podem ser: por meio de denúncias por parte de alunos, docentes, servidores ou qualquer cidadão que tenha elementos formais que possam ser indícios de irregularidades; e, por meio dos indicadores de educação realizados periodicamente nos cursos superiores.

“No caos dos cursos de EaD, a avaliação inclui visita in loco, realizada pelo Inep, que conta com comissão de especialistas da área de conhecimento do curso e em EaD. A proposta de cada curso é definida pelo cumprimento das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN), emitidas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), que definem as possibilidades de oferta de cursos, inclusive no que se refere à exigência de atividades presenciais”, aponta a nota.

Procurada, a Faculdade Unyleya – instituição em que Ednilson faz a pós-graduação – alegou que apuraria as informações para tomar providências. Por nota, a empresa diz que estreita os laços entre alunos e coordenadores através da plataforma. “O aluno entra em contato, pela plataforma de atendimento online, informando o seu problema, suas dúvidas, e o professor responde. A maioria dos problemas é resolvida pela própria plataforma.

Caso haja a necessidade, o coordenador ou a equipe de atendimento ao aluno faz o contato por telefone”, destaca. Além disso, existe um número (0800 602 6770) para que o aluno entre em contato. Por fim, a Unyleya reconhece que os cursos são teóricos e que não existe, de fato, a exigência de prática.

 

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