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Formada por autistas, banda Timeout estrela documentário da Netflix

Pollyana Fonseca
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“Quem canta, seus males espanta”, já dizia o famoso ditado popular. E Ivan Madeira, João Daniel Simões, João Gabriel Mello, João Henrique Lopes, Marcelo Bacelar, Matheus Winker e Thiago Carneiro fazem jus à frase. Os sete jovens brasilienses formam a Timeout, banda de rock que ganhou projeção nacional ao estrelar um dos episódios da série de minidocumentários Os Originais, uma produção da Netflix exibida pelo YouTube. Além do amor pela música, e a fama repentina promovida pelo serviço de streaming, eles possuem outra coisa em comum: todos têm Transtorno do Espectro do Autismo.

Com acordes de Pink Floyd, Legião Urbana, Oasis e Mamonas Assassinas, os garotos provam que podem, sim, tocar boa música. “A gente acha que a Timeout é a banda mais rock’n’roll do momento”, diz o psicólogo Paolo Rietveld, idealizador do projeto.

Ele pontua que o rock tem raízes transgressoras das fronteiras sociais e que se encaixa na proposta do grupo. “[A banda] pega os limites impostos àquelas pessoas que têm autismo e quebra esse paradigma: estão fazendo uma coisa que não deveriam estar fazendo”.

O projeto nasceu em 2017 com uma equipe de psicólogos do Instituto Ninar, hospital que trata de pessoas com autismo. Paolo notou que alguns de seus pacientes tinham aptidão para a música. E, assim, resolveu montar uma banda. Coincidentemente, na mesma semana, Rietveld recebeu um rapaz que tocava bateria. Nesse momento, as coisas começaram a se concretizar. “Ele entrou em contato comigo. O primeiro encontro foi no meu estúdio, na Candangolândia”, conta o psicólogo João Guilherme Videira, cocriador do projeto.

Em tradução literal do inglês, Timeout significa ‘tempo fora’. Mas para a psicóloga Carolina Passos, uma das coordenadoras do projeto, a expressão tem duplo sentido. “A gente veio com essa ideia porque é tanto ‘fora’ da realidade dos meninos, que é uma agenda cheia de terapia, saindo de um atendimento para o outro, como também uma estratégia que a gente usa na psicologia”. A tática citada por ela consiste em retirar a pessoa que está tendo um comportamento socialmente inadequado do espaço em questão.

Além de usar a música como um momento de descontração, a banda também tem caráter terapêutico. Os integrantes estão cada vez mais autossuficientes. Se antes era necessário estimulá-los a aprender as músicas, atualmente eles mesmos se policiam. “Se o João começar a música errada, já vem outro encher o saco dele”, entrega Videira.

João Henrique Lopes, o baterista, é o que mais mudou desde que entrou no grupo. “Eu comecei a ter mais noção do que fazer diante de um público grande. Antigamente eu não sabia, ficava parado, não falava nada. Hoje em dia, eu fico mais confortável”, explica o calouro de Letras Inglês na UDF.

Emocionado, João Guilherme destaca o avanço do garoto e como o conjunto foi um instrumento importante. “Ele não estaria confortável nesse espaço. Você não conseguiria, sem a banda, colocar ele na vitrine assim”. E completa: “Para ele, estar em cima do palco e desenvolver o que ele está desenvolvendo hoje, diante do que era no começo, é um salto gigantesco”.

Para o psicólogo, a banda não fala somente de jovens autistas, mas de pessoas que criam laços sociais importantes. “O ganho de repertório de relacionamento interpessoal é muito grande, e para eles, que culturalmente estão mais isoladas, o salto é gigantesco”.

Divulgação

Mostrando que é possível

O terceiro episódio da websérie Os Originais, da Netflix, saiu esta semana. O contato inicial foi “meio mágico”, como conta Carolina Passos. “Entraram em contato e para gente foi até misterioso porque não sabíamos quem era a empresa”. Eles só descobriram de quem se tratava quando assinaram o contrato de confidencialidade. A trama do filme conta a história da banda e mostra ao público o trabalho feito pelo coletivo.

“Acho que ter alguém com esse porte, validando (a banda), para gente, teve uma importância muito grande”, desabafa Carolina. Para ela, um dos objetivos da banda é conscientizar as pessoas de que é possível. “A Netflix entra com esse alcance, poder mostrar para um monte de gente como o mundo é diverso e é lindo”, finaliza.

Agenda cheia

Mas a banda não para no vídeo exibido pela Netflix. Na semana que vem, a Timeout fará um evento de estreia do documentário, além de fazer sua primeira apresentação do ano, na Cervejaria Criolina. Eles também se preparam para a gravação do clipe de uma música autoral. E viajam, em abril, para Ribeirão Preto, onde se apresentam no TEAbrace, principal evento sobre autismo do País. Em julho, voltam ao palco do Brasília Capital Moto Week, maior evento de motociclistas da América Latina. Ufa!


Carnaval

O coletivo lança, no próximo dia 16, no Setor Carnavalesco Sul, agora de forma oficial, o Bloco de Carnaval para Pessoas Autistas. “A gente tem várias estratégias de adaptação cultural para pessoas com neuro diversidades”, adianta o psicólogo Paolo Rietveld, idealizador do projeto.

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