Jéssica Antunes
jessica.antunes@grupojbr.com
A despedida de Raphaella Noviski, executada dentro de uma escola em Alexânia (GO), varou a madrugada. Mais de duas mil pessoas velaram o corpo da adolescente na Igreja Assembleia de Deus Madureira. A menina foi vítima de feminicídio e morreu ao ser baleada pelo menos 11 vezes na cabeça por Misael Pereira Olair, 19, na Escola Estadual 13 de Maio. O enterro aconteceu após cortejo a pé de 2,5 km no Cemitério Campo da Saudade.
Raphaella tinha 16 anos e cursava o 9º ano do Ensino Fundamental. Cerca de um ano atrás, ela teria recusado investidas e presentes do suspeito. Para Rafaela Wiezel Azzi, delegada da Polícia Civil do município, houve feminicídio, sendo evidente a condição sexista de gênero e possessividade. O crime foi premeditado e teria motivação passional. Ele juntou R$ 2,3 mil durante um ano para comprar a pistola.
Planejamento de um ano
Misael Pereira Olair juntou dinheiro por um ano e comprou uma arma com a intenção de matar. Por alegado ódio, o homem de 19 anos pulou o muro da Escola Estadual 13 de Maio, em Alexânia (GO), e caçou uma adolescente de 16 anos que o havia rejeitado. Ao encontrá-la em uma sala de aula, ele descarregou contra ela toda a munição que tinha no revólver calibre 32, recarregou e disparou novamente. Pelo menos 11 tiros foram desferidos na instituição, localizada em uma das cidades mais violentas do País.
“Lúcido e sem indícios de consumo de drogas ou álcool, ele diz que não se arrepende”, contou a investigadora ao Jornal de Brasília. Os 11 tiros teriam sido disparados na direção do rosto da menina, a meio metro de distância, para que ela morresse “rápido e sem dor”. Não teria havido diálogo antes dos disparos, mas, segundo testemunhas, ele havia ameaçado-a anteriormente e dito que daquele dia ela não passaria.
Ponto de vista
- Apesar de não poder traçar um diagnóstico preciso sobre o comportamento do autor do assassinato, pois não há conhecimento profundo da história dele, a psicóloga Gláucia Flores, da Aliança Instituto de Oncologia, indica que há traços de sociopatia nas ações de Misael Pereira. Somado a isso, existiria “falta de preparo emocional para lidar com as frustrações – o que se vê com muita frequência na juventude hoje em dia”. Segundo a especialista, se o jovem não consegue lidar com os “nãos” que são dados a ele, pode tomar atitudes extremas. “Isso serve de alerta para quando mulheres receberem abordagens ou comportamentos muito agressivos, ficarem atentas. É necessário falar com a família ou até mesmo com a polícia”, ressalta Gláucia, que lembra que é normal as pessoas se revoltarem ou sofrerem, mas é necessário aceitar e seguir a vida. (Colaborou João Paulo Mariano)
“Cego de ódio”
Segundo a investigadora Rafaela Wiezel, Misael disse, em entrevista prévia e interrogatório, que é conhecido “de longa data” da vítima e que estava cego de ódio: “Ele informou que adquiriu o revólver especificamente para matá-la e estava esperando justamente a aquisição para cometer o crime”. Depois de matar a vítima, o suspeito pulou o muro, entrou em um carro e fugiu.
Policiais militares do município se depararam com o veículo e estranharam o homem encapuzado. Na abordagem, ele teria confessado o crime. Na mochila, foi encontrada a arma utilizada no crime, várias munições, uma faca e uma máscara. Ele também tinha veneno de rato e paracetamol, que seriam usados para suicídio. “Ele tinha medo de, com um tiro só, sobreviver ou ficar paraplégico”, revelou a delegada.
Misael teve ajuda de um amigo da família, o comerciante Davi José de Souza, de 49 anos, que também foi detido. Ele teria conduzido o rapaz até a escola, ouvido os tiros e a correria dos alunos, esperado o suspeito sair e dado fuga a ele.
Nenhum dos dois tinha antecedentes criminais e ainda é desconhecida a origem da arma. À investigadora, o homem revelou que adquiriu o objeto na própria cidade, mas não apontaria o vendedor por medo de ser assassinado. As investigações continuam com prova pericial, imagens do circuito interno da escola e depoimentos de alunos, testemunhas e familiares.
Comoção e revolta
O município goiano de Alexânia fica a menos de 90 quilômetros de Brasília e está incluído na Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (Ride). Segundo o último Mapa da Violência, de 2016, a cidade é a 80ª com maior taxa de assassinatos por arma de fogo do País. Com cerca de 30 mil habitantes, foi registrada uma média de 52,9 casos por grupos de cem mil habitantes.
Nas redes sociais, a notícia do assassinato de Raphaella provocou comoção e revolta diante da criminalidade. “Aonde vamos parar com tanta violência?”, questionou uma mulher. “Alexânia cada dia pior pra se morar. Aqui está o inferno puro. Que o Senhor tenha misericórdia de todos nós”, desabafou outra pessoa.
“Estamos perdidos. Mães e pais levam seus filhos para a escola e não sabem se voltam vivos. Que país é este que não tem limite para matar?”, reclamou uma terceira internauta. A internet também foi ferramenta para homenagens à vítima.
- Reprodução
- Reprodução
- Reprodução
- Reprodução
- Reprodução
- Reprodução
Versão oficial
Segundo a Secretaria de Educação, Cultura e Esporte de Goiás (Seduce), a escola tem câmeras de segurança no pátio e vigias noturnos para promover a segurança. “No momento da tragédia, a diretora do colégio e equipe tomaram todas as providências necessárias, chamando a polícia, o socorro e comunicando o ocorrido à família da jovem. Três psicólogas e uma assistente social da Coordenação Regional de Educação, Cultura e Esporte (Crece), de Anápolis, foram deslocados para Alexânia para apoiar a equipe da escola, alunos e familiares. Uma equipe da Seduce também se deslocou para o colégio”, informou a pasta, em nota.
O governador do estado, Marconi Perillo, emitiu nota de pesar após o crime. Ele defendeu que a tragédia vai contra o que se imagina para os jovens, ofereceu solidariedade à família e amigos e repudiou a cultura do ódio.
Memória
A tragédia dentro dos muros da escola pública aconteceu menos de um mês após um menino de 14 anos matar duas pessoas e ferir outras quatro no Colégio Goyases, em Goiânia. O jovem, que alegou ter sido vítima de bullying, usou uma pistola calibre 40, de propriedade da mãe, que é policial militar, para abrir fogo em sala de aula. O garoto está apreendido em uma unidade para adolescentes em conflito com a lei.




