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“Não costuma falhar”: caminhoneiros contam com a fé no combate à pandemia

Na cabine do caminhão, álcool em gel e máscara são acessórios obrigatórios. A antiga prática da carona teve que ser abandonada

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Foto: Vítor Mendonça/Jornal de Brasília
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Olavo David Neto e Vítor Mendonça
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“Tem que ter fé, se não a gente fica em casa. Se botar na ponta do lápis os riscos de ser caminhoneiro, não tinha caminhão na estrada”, crava Célio dos Anjos, 50. Com um caminhão-tanque, ele tem rodado em meio à pandemia do novo coronavírus transportando insumos para produção de asfalto, sobretudo o CM-30. As cargas transportadas por ele, geralmente, são encomendadas por empresas que prestam serviços ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), e, nos seus mais de 25 anos na estrada, poucas vezes viu um momento tão difícil quanto o atual. 

Célio e a família têm residência em Valparaíso de Goiás, e foi justamente por lá que a covid-19 entrou no Entorno de Brasília, em 24 de março, exatos 20 dias após a primeira confirmação da doença no Distrito Federal. Com 969 casos confirmados e 26 mortes, segundo a plataforma Salvando Todos, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), é a terceira no ranking das 20 cidades da microrregião, atrás apenas de Luziânia (1073 casos), e Águas Lindas (987 infectados); os óbitos em Valparaíso, porém, alcançam a vice-liderança, atrás apenas dos 37 falecimentos de Águas Lindas. A taxa de letalidade nos dois núcleos urbanos chegam a 2,7% e 3,7%, respectivamente.

Como não fica muito tempo longe de casa, “quatro ou cinco dias; no máximo uma semana”, conforme disse, a preocupação ao voltar ao abraço familiar é recorrente. “Eu não uso o chinelo que usei na estrada, e vou direto para o banho quando chego”, relata Célio. “Está todo mundo se cuidando. Não vou dizer que não tem medo, porque tem. É uma doença séria”, confessa o motorista. Na cabine do caminhão, álcool em gel e máscara são acessórios obrigatórios. Carona, nem pensar. Tudo para evitar um contaminação que colocaria em risco não só a família, mas o sustento do núcleo parental. Cuidados que têm de ser tomados individualmente, já que as ações do Estado “são raras”. 

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Wellington Domingos, 43, soube da pandemia pela televisão. Até então parecia uma doença distante, mas quando o inimigo aterrissou em terras brasileiras e a expansão da doença se tornou incontrolável, as primeiras preocupações foram a família e o emprego. Pelo que tinha visto nos países europeus, o cenário estava longe de ser favorável. “Aqui nós estamos lascados, eu imaginei. É um efeito dominó. Esse ‘trem’ vai parar é tudo”, pensou o mineiro de Sete Lagoas.

Há 14 anos como caminhoneiro, atualmente ele transporta o gás industrial do Rio de Janeiro que abastece as companhias de distribuição na capital federal. Somente a esposa permaneceu dentro de casa, em teletrabalho, opção não viável para Wellington, que viu a demanda crescer devido à falta de estoque de botijões no Distrito Federal. “O pessoal ficou com medo de desabastecimento e teve aquela explosão na procura. Mas agora as coisas já estão normais, tanto que a descarga está demorando mais por conta disso”, afirma. 

A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) promoveu a entrega de três mil kits de higienização para combater o contágio entre caminhoneiros. Conforme os dados do Registro Nacional de Transportes Rodoviários de Cargas (RNTRC), da própria reguladora, há cerca de dois milhões de veículos aptos a conduzir mercadorias nas estradas brasileiras, sendo pouco menos de 649 mil caminhões – entre leves, de três a oito toneladas; e pesados, de oito a 29 toneladas. Célio se queixa da ajuda estatal à categoria durante a crise de saúde. “A gente está chateado, o apoio é muito pouco”, lamenta o motorista. 

Testagens limitadas

O Serviço Social do Transporte (Sest) e o Sistema Nacional de Aprendizado do Transporte (Senat) realizaram testagens nos rodoviários em parceria com a Confederação Nacional dos Transportes (CNT). Até 3 de julho, data da última atualização disponível, quase 37 mil rodoviários foram testados de forma rápida, com aferição de anticorpos ou mesmo partículas virais através de material coletado pela garganta, com mais de 90% dos exames não atestando contágio pelo novo coronavírus. Os testes apontaram infecções em cerca de 3.155 pessoas, segundo os órgãos. Ou seja, há mais contaminações da covid-19 nas estradas que kits de higiene distribuídos. 

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O número é baixo, quase 9% do total de exames, mas a amostragem também é restrita. De acordo com José Natã, presidente do Sindicato Interestadual dos Caminhoneiros (Subc), há 700 mil choferes de caminhão no Brasil – 30 mil ligados à entidade -, e o baixo percentual de casos entre a categoria tem explicação celestial. “Em 1995 eu dei carona ao Dom Luciano [Mendes de Almeida, arcebispo de Mariana] e comentei que a gente queria fazer uma união dos caminhoneiros”, relembra o sindicalista. “Ele deu todo o apoio”, diz Natã, orgulhoso. 

Membro da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), D. Luciano convidou a primeira diretoria da então União dos Caminhoneiros para uma celebração. “Ele jogou água benta na gente, então estamos protegidos. Onde quer que ele esteja, sei que olha por nós”, declara-se o líder da agremiação. Falecido em 2006, o arcebispo se tornou uma espécie de patrono dos choferes de caminhão. Que se faz necessário, já que, para além do risco de contaminação, os motoristas sofrem com outros perigos nas estradas nacionais. A falta de segurança é uma delas. 

Quando atendeu à reportagem, Célio dos Anjos estava no Mato Grosso. Lá, segundo ele, é possível sair de Sapezal – cidade próxima à fronteira com a Bolívia – e rodar por 350 km sem qualquer tipo de fiscalização. O único posto da Polícia Rodoviária Federal (PRF) disponível está na BR-163, que cruza o Brasil de Norte a Sul. “A gente fica à mercê dos bandidos. Se alguém me emboscar, não tem para onde correr. Não tem a quem pedir ajuda”, comenta o chofer. Segundo ele, entretanto, percebeu-se uma queda nos assaltos a cargas nos dois últimos anos. 

Fora dos eixos: motoristas se queixam de falta de ajuda por parte do Estado; sem eles, prateleiras de mercados e farmácias estariam vazias. Foto: Vítor Mendonça/Jornal de Brasília

Há respaldo nos números. De acordo com pesquisa anual da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística), houve 18.382 assaltos a mercadorias em 2019, número 17% inferior aos índices de 2018 – quando mais de 22 mil ocorrências foram registradas. Ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), Leonardo Sant’Anna aponta que estradas mais vazias são terreno fértil para ações criminosas. “Isso estimula os crimes de rodovia, mas são crimes mais organizados e até mais difíceis, porque há o monitoramento das cargas”, aponta o consultor de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). 

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Quem guarda os guardiões?

Apesar dos aparatos tecnológicos, muitos criminosos já sabem como driblar a fiscalização. O caminhão-tanque de Célio – que possui seguro, bem como as cargas que carrega – conta com um rastreador, algo facilmente anulável por assaltantes. “Hoje eles vêm com um ‘chupa-cabra’ e cortam o sistema”, alerta o caminhoneiro. Algumas soluções improvisadas, como autodefesa, são opções para certos motoristas. Para dos Anjos, não. “Eu não tenho [arma] porque se parar num posto da PRF eu saio algemado. Até uma faca que eu tinha para descascar laranja eles tomaram”, lembra o chofer. 

O risco de contaminação em postos avançados da Polícia Rodoviária Federal levou a corporação a adotar novas posturas no patrulhamento das estradas. Ao Jornal de Brasília, a PRF informou que “não há metas na fiscalização”, e que os agentes foram orientados a agir em casos “de flagrante delito ou de infração de trânsito”. Para Sant’Anna, mesmo que não haja contaminação, como alega a força, o risco ainda é grande. “A substituição é mais difícil, pela especialização. Pela natureza do local onde trabalham, que geralmente é um posto pequeno, onde ficam vários agentes, há o perigo de uma infecção em massa”, observa. 

Desde a chegada da pandemia ao Brasil, a ANTT também tomou providências legais para conter a disseminação do novo coronavírus nas vias. Uma delas foi a suspensão por 90 dias das pesagens de cargas nas rodovias brasileiras. O prazo se fechou no final de junho, e no dia 26 uma nova portaria estabeleceu mais 30 dias para que as concessionárias “realizem as alterações necessárias” e retomem as pesagens “em consonância com as medidas sanitárias preventivas cabíveis”. Na prática, são quatro meses com os Postos de Pesagem Veicular fora de funcionamento ou em readaptação. 

Sant’Anna enxerga a medida como necessária. Ele aponta, entretanto, a brecha aberta ao crime organizado. “Boa parte desses aparelhos conta com raio-x, que examina produtos que eventualmente não foram declarados. É uma necessidade, mas cria um vácuo”, atenta. Para ele, o exemplo do México, onde não há fechamento das barreiras para o narcotráfico, faz-se notar. “É algo que circula muito mais fácil que dinheiro ou mercadorias controlados pelo Estado”, lembra. “É natural que isso impacte na criminalidade. Se o monitoramento é afrouxado, certamente vão entrar mais produtos”, completa. 

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“Só marmita a R$ 20”

O fechamento de restaurantes trouxe problemas a alguns dos caminhoneiros. Apesar da disposição da ANTT em afrouxar a regulamentação para carregamento de gás e utensílios de cozinha nas cabines, a proibição continua para veículos que transportam produtos inflamáveis – como o de Célio. Assim, resta a opção de parar apenas para um lanche, ou se render às refeições “para viagem” superfaturadas em estabelecimentos à beira da estrada. “Tem lugar que não deixa entrar mesmo, nem pedir comida. Só marmita a R$ 20, que é muito caro”, queixa-se. 

Além dos perigos da rodovia e da falta de comida, o período de descanso para os caminhoneiros foi diretamente afetado. Como os postos de gasolina adotaram restrições à parada dos veículos, agora, segundo Célio, “só pode dormir quem abastece” – e, em alguns locais, uma taxa de pelo menos R$ 25 é cobrada para estacionar o caminhão. Para Natã, a situação complica ainda mais porque os caminhoneiros têm certa fidelidade. “Se para num lugar, para a vida toda lá”, argumenta o sindicalista. 

O uso do “arrebite” – droga à base de anfetamina muito popular entre motoristas – torna-se, para alguns, uma solução viável. “Se tem que rodar a noite toda, toma. Eu não tomo, nunca tomei, mas ‘verdureiro’ só anda ‘arrebitado’”, relata Célio. Agora, sem locais adequados para o “pouso”, o uso nas estradas é mais frequente. “Tem cara que usa até para dormir”, diz José Natã. “Vira uma parte da vida, gera uma dependência das grandes”, afirma o diretor sindical, que garante não fazer uso do medicamento. 

“O Brasil para também”

Como vai e vem de uma região em plena ascensão de casos da covid-19, Célio toma cuidados na hora de chegar ou sair. O convívio com os familiares, porém, pode gerar um risco de contaminação. Para quem trabalha sozinho guiando um veículo de quase 20 toneladas, os efeitos do novo coronavírus representam outro perigo. “Se eu tiver os sintomas, só vou poder recorrer a postos da PRF com barracas da Vigilância Sanitária, nas entradas das cidades ou se a estrada for pedagiada”, preocupa-se. Assim, resta se aferrar às crenças. “Eu entrego a Nossa Senhora de Aparecida, que é a protetora dos caminhoneiros. Se não for na fé, a gente para. E, se parar, o Brasil para também”, finaliza.




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