Manuela Rolim
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Não é fraqueza. É doença. E, como tal, carece de tratamento de qualidade, seja qual for a condição do paciente. A adicção, distúrbio que envolve qualquer tipo de dependência, é progressiva, irreversível, fatal e reflexiva – afeta a todos ao redor. Depois de revelar que metade da população carcerária feminina do DF está presa por tráfico, reportagem do Jornal de Brasília mostra que a compulsão pela droga tende a se agravar após a conquista da liberdade.
Isso porque a repressão não manifesta resultados positivos, explica o clínico geral e especialista no assunto Geraldo Gonçalves. “Nem a internação compulsória resolve. A saída é apostar em um tratamento continuado, a longo prazo. Caso contrário, não há dúvidas de que as presidiárias vão sair pior do que entraram e ainda vão retornar para a cadeia. A adicção é grave. Não por acaso, os dependentes adquiriram os mesmos direitos de qualquer outro doente. Estamos falando de pessoas que largam tudo pela droga”, ressalta o médico.
Prevenção
- O papel da família no tratamento de um dependente químico é imprescindível. Segundo especialistas, um relacionamento saudável dentro de casa constitui um dos principais fatores de prevenção às recaídas.
- Entre os comportamentos condenados pelos médicos estão a minimização do problema por parte dos amigos e familiares; controle ou manipulação do uso de drogas pelo dependente; proteção exagerada do paciente; e o acolhimento das responsabilidades do usuário.
- De acordo com o médico Geraldo Gonçalves, toda a família fica doente junto com o dependente, portanto, todos precisam de tratamento e acompanhamento psicológico.
De acordo com ele, a enfermidade está relacionada ao fator genético, o que não exclui a influência do meio. “Tem gente que tem uma predisposição para o vício e se torna dependente daquela substância ao experimentá-la pela primeira vez. Não podemos deixar de considerar também a ação dos traficantes na fabricação de entorpecentes cada vez mais potentes. É uma doença que está relacionada a um conjunto de fatores”, pondera.
Gonçalves alerta ainda para a retomada da consciência dos usuários. “O primeiro passo é a aceitação. Todo dependente está em recuperação para o resto da vida. Não existe cura. O problema é que muitos demoram para descobrir isso e o vício é letal, não dá tempo”, completa.
O motivo é que a maioria das substâncias lícitas e ilícitas age diretamente no sistema nervoso. “O álcool é um exemplo disso, assim como o crack. Vale lembrar que, quanto maior o dano no sistema nervoso, maior o grau de dependência. No entanto, há também drogas como a maconha que, apesar de ser mais fraca, é um trampolim para as demais”, adverte. Para o clínico, o tratamento precisa ser físico, psicológico, religioso e ocupacional.
Trajetória difícil
A esteticista Maqueli Machado, 27, aceitou a doença há quatro anos, dez meses e dois dias. Seu primeiro contato com a droga, no entanto, foi ainda na infância. “Troquei as bonecas pelo ilícito, aos 11 anos de idade. Acredito que a influência do meio familiar foi decisiva. Eu tinha uma boa mãe, mas meu irmão era viciado e permanece assim até hoje”, conta a gaúcha.
Filha de pais separados, ela lamenta a ausência da figura paterna em casa. “Eu tinha apenas nove meses. Minha mãe teve que assumir tudo sozinha. Meu pai era alcoólatra e me via poucas vezes. À medida que fui crescendo, as más companhias da escola apareceram. Como todo mundo, comecei pela maconha”, relata.
Aos 13 anos, porém, Maqueli passou a se interessar por outras substâncias, ainda em Porto Alegre (RS), onde foi presa três vezes pelo mesmo motivo. “Comecei a andar com gente de índole pior. Ladrões e assassinos eram as minhas companhias. Também comecei a roubar, me prostituir e traficar para alimentar o meu vício. Foram 12 anos nisso”, lamenta.
“Fui abusada e torturada”
Aos 22 anos, Maqueli Machado se mudou para Brasília, onde sua irmã mais velha morava. A intenção era fugir da doença. “Cheguei a ficar um ano trancada dentro de casa para não cair na tentação, mas não adiantou. No meu aniversário de 23 anos, comemorei tendo uma recaída. Me droguei durante nove meses aqui. Depois, pedi ajuda para a minha família. Durante a internação reaprendi a viver. Eu já tinha perdido o controle de mim mesma e feito muita gente sofrer”, admite a esteticista. Maqueli lembra ainda os momentos que morou na rua. “Virei mendiga. Fui abusada e torturada muitas vezes”.
Para ela, um episódio específico a fez reconhecer que precisava de tratamento. “Vi a morte de perto durante uma noite qualquer em Ceilândia. Não lembro muito bem, mas quase fui assassinada. Eu estava dentro de uma estrutura grande quando um grupo entrou e começou a me espancar. Não sei dizer se entram traficantes ou policiais, mas colocaram uma arma na minha boca. Fiquei a noite inteira nas mãos deles. No dia seguinte, voltei para casa deformada e me internei em uma clínica em Brazlândia”, conta.
No total, foram nove meses de tratamento. “Sabia que era a minha última oportunidade. Aprendi o básico, como escovar os dentes e tomar banho. Eu não tinha saúde. O maior orgulho da minha vida é o tempo que estou limpa”, afirma.
Por outro lado, a prostituição é a dor mais marcante da sua história. “Eu perdi todos os princípios do meu corpo. Me sentia um lixo depois que passava a adrenalina. Minha vontade era entrar pelo ralo durante o banho. O pior é que, mesmo assim, tive que fazer programa infinitas vezes para manter o vício”.
Recuperação
Maqueli perdeu a mãe pouco depois de receber alta da clínica. “Minha maior vitória foi ter me tratado antes de ela partir e passar pelo luto sem nenhuma recaída. Foi quando me aproximei de Deus”, comemora.
Grávida do seu primeiro filho, a esteticista, agora, realiza um sonho. De acordo com ela, a equipe médica de um hospital chegou a dizer que seu útero não tinha condições para suportar uma gestação por causa do uso de drogas. “No entanto, continuei confiante. Quando senti sintomas diferentes, fiz um teste. Em seguida, fiz outro exame de sangue e, mesmo com o resultado positivo, não acreditava. Só aceitei a ideia depois que ouvi o coração do meu bebê. Foi um milagre”, afirma. O marido de Maqueli também está em recuperação.