Eric Zambon
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Invasão de terra pública não se restringe a áreas afastadas ou ocultas. No centro de Taguatinga, na QNC 1, em frente ao 2º Batalhão da Polícia Militar, pelo menos dois homens demarcaram um terreno ao lado do antigo Clube do Comércio e da Indústria de Taguatinga (CIT). Eles plantaram mudas de banana e residem em um barraco escondido pelas folhagens. A Agência de Fiscalização do DF (Agefis) garante que monitora a área, mas não confirmou uma data para atuar no local.

Batalhão da PM fica junto ao terreno ocupado por grileiros. Foto: Reprodução/Google Maps
O órgão, por sinal, já teve problemas com os invasores. Em 22 de dezembro, após denúncia anônima, fiscais da Agefis se deslocaram a fim de erradicar as cercas erguidas na calada da noite. Os agentes, contudo, teriam sido hostilizados e ameaçados pelos homens. No dia seguinte, a PMDF auxiliou a operação e não houve resistência durante a derrubada das edificações.
Memória
Ocupações irregulares em série
- A ida dos membros do MRP ao Clube Primavera foi um paliativo pensado pelo Governo de Brasília para desocupar o Hotel Saint-Peter, no centro da cidade. Ainda em 2015, porém, Taguatinga foi alvo de outra grande invasão, esta fomentada pelo Movimento dos Sem Teto (MTST). Em fevereiro daquele ano, os manifestantes ocuparam um terreno na QSB 12/13 como parte de uma ação maior para reivindicar, junto ao Governo local e Federal, moradia para mais de duas mil famílias.
- Em janeiro de 2016, a Agefis extinguiu uma das maiores áreas griladas de Taguatinga, o antigo condomínio Cooperville, erguido em um corredor ecológico próximo ao Parque Nacional de Brasília em terras pertencentes à União. A invasão, porém, estava consolidada há mais de 15 anos e foi comparada a Vicente Pires por especialistas.
Uma testemunha, que prefere manter o anonimato, conta já ter havido ameaças e entreveros entre os funcionários do estabelecimento e os “vizinhos”. Para ele, além de se apropriar de terras públicas, os invasores planejam ganhar dinheiro com o crime. “Eles querem grilar e fazer chácara em uma área pública. Estão grilando à luz do dia”, critica. “Eles botaram as bananeiras porque (os fiscais) tiraram a cerca que fizeram. Eles estão plantando bananeira para lotear a área”, reforça.
Até placa com endereço
A reportagem do Jornal de Brasília foi ao local na tarde de ontem, mas não encontrou os homens responsáveis pela ocupação irregular. Ao lado de um muro, encoberto parcialmente pela folhagem densa, no entanto, há um barraco com mobília e objetos pessoais expostos. A casa fica a alguns metros do local onde as bananeiras foram plantadas. Há lixo e animais circulando por todo o terreno. Os novos moradores se deram ao trabalho até de colocar uma placa com o endereço do lote: “QNC 1, Chácara 2, Ouro Verde. CEP 72.115-510.”
Existe (ou deveria existir) preocupação do poder público com o caso devido à proximidade com o antigo clube CIT. Os muros envelhecidos, que mal protegem o campo dominado pela mata, já esconderam um dos pontos de encontro de Taguatinga. Em 2001, a Justiça anulou a venda do espaço ao grupo de sócios e o lugar foi abandonado. O local guarda semelhanças com o Clube Primavera, na QSC 17.

Há mobília e objetos pessoais expostos no barraco. Foto: Sandro Araújo
O Primavera foi invadido diversas vezes e, igualmente largado, é alvo de reclamação de habitantes da região por ter se tornado ponto de encontro de moradores de rua e usuários de droga. Em setembro de 2015, as famílias do Movimento de Resistência Popular (MRP), responsáveis pela ocupação do Hotel Saint-Peter, foram encaminhadas, pelo Governo de Brasília, ao antigo clube e ficaram 30 dias por lá.
Durante a chegada dos manifestantes, os moradores da QSC montaram até barricadas com pneus em chamas para tentar evitar a mudança.
Versão oficial
Em nota, a Agefis confirmou a ida ao local em 22 e 23 de dezembro de 2016 para “fazer a retirada da invasão”. “Temos conhecimento de que os invasores voltaram após nossas operações. Por isso, continuamos monitorando a área com a ajuda de outros órgãos do DF e a ação segue dentro do cronograma de operações”, completou o órgão.