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Demonstrativa: usuário da biblioteca é que leva bolo

Ana Clara Arantes
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Afachada da Biblioteca Demonstrativa de Brasília (BDB), na 506/507 Sul, foi palco de uma comemoração às avessas. A promessa para a instituição, fechada desde 2014 por problemas estruturais, era de reabertura em breve. Pelo menos é o que diz uma faixa em frente a ela: “O Ministério da Cultura informa: vem aí a nova Demonstrativa!”. Por isso, passado um ano do “anúncio”, ontem teve bolo e parabéns de aniversário.

Brasilienses resolveram fazer o protesto irreverente para chamar a atenção do governo. Diogo Almeida, 37, funcionário público, postou no Facebook uma foto da placa, dizendo que iria cantar parabéns pelo um ano da instalação. Talita Miotto, 33 anos, viu o post e se animou: “Nós já nos conhecíamos e, quando vi a publicação, disse que topava e sugeri que criássemos um evento”, relembra a empresária.

Talita é de Brasília e frequentava o local. Ela diz que resolveu criar o protesto porque sempre passa pelo prédio, vê a placa ali e nada de a biblioteca reabrir. “A gente vê que nada está acontecendo, o prédio está se deteriorando, e pensei que não poderia ficar sem fazer nada. Então decidi me juntar com pessoas interessadas a fazer algo sobre isso e ver se muda a situação”, conta.

“Acho que existe um costume governamental no nosso País de empurrar prazos. Todos temos que cumprir prazos e esse fica sendo estendido. Já são quatro anos sem a biblioteca, que já foi modelo no Brasil”, completa. A empresária acredita que todos perdem com o prédio fora de funcionamento. “Fico muito triste com isso e gostaria de ver vida aqui”, opina.

Diogo, por sua vez, conta que passa todos os dias em frente à biblioteca e o fato de estar fechada causa muita tristeza. “Há um ano tive a esperança de que a biblioteca seria aberta após a instalação da placa, mas isso não ocorreu. É um protesto bem-humorado para chamar a atenção sobre a situação da biblioteca e das autoridades, para reabrir o espaço o mais rápido possível”, define.

Há dez anos o espaço era utilizado pelo funcionário público. “Era um lugar de importância social, de leitura, de cultura. Era uma excelente biblioteca”, lamenta.

Exemplo do retrocesso na capital

O diplomata Igor Germano, 44 anos, já pegou muitos livros na BDB e frequentou eventos no local. Ele demonstra indignação com o fato de a biblioteca estar fechada há quatro anos e a população achar normal. “Qualquer país que se preze não está fechando bibliotecas, mas sim abrindo”, compara.

Ele acredita que uma cidade como Brasília deveria ter muito mais bibliotecas do que as que existem. “Ver um espaço assim fechado há tanto tempo dá uma certa tristeza”, finaliza.

Jorge Paulino, 29, professor de artes visuais, é do Amapá e veio à capital cursar mestrado em artes. Ele mora em frente à BDB e, ao passar todos os dias por ela, não sabia se era um prédio desativado ou em construção. Foi aí que ele viu a divulgação do evento e compreendeu a situação.

O professor decidiu comparecer ao evento pois, apesar de não ter uma ligação com o local, compreende o prejuízo. “Eu poderia ter usado o lugar para estudo, além de colaborar”, observa.

Jorge acredita que a reabertura da Demonstrativa seria importante para toda a sociedade. “Por eu não ser daqui, tenho um olhar diferenciado que me faz chegar à conclusão de que a abertura desse espaço traria a oportunidade de pessoas se conhecerem”, pondera.

Ele presenciou o relato de uma senhora que passou pelo protesto e contou que seu filho se tornou médico após uma temporada de estudos na biblioteca. Segundo Paulino, a mulher relembrou que o filho morava em Valparaíso (GO), mas todos os dias ia até o local para estudar. “Hoje essa senhora é avó, e sua neta deseja esse lugar porque soube como era no passado. Isso demonstra o significado de uma geração que poderia construir história aqui, e de uma geração que já construiu uma história nesse espaço”, conclui.

Diogo, um dos organizadores do protesto, conta ainda que, desde a criação do evento, muitas histórias chegaram até eles. “Em todas as histórias, as pessoas falam sobre a falta que sentem da biblioteca”, relata. Par ele, é importante que a biblioteca reabra devido à escassez de espaços culturais no DF. “Temos vários locais fechados, como o Espaço Cultural Renato Russo e o Teatro Nacional”, cita.

Saiba mais

Procurada pela reportagem, a assessoria do Ministério da Cultura não retornou à demanda via e-mail até o fechamento desta edição. Na época da interdição do espaço, em 2014, a pasta informou ao JBr. que já teria resolvido as questões administrativas e o processo de revitalização da biblioteca estaria em andamento. Também houve protesto na ocasião, com um abraço simbólico de manifestantes em torno do edifício.

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