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Brasília

Barracos de Santa Luzia, na Estrutural, ganham artes de grafiteiros

Arquivo Geral

25/03/2018 15h12

Foto: Myke Sena

Jéssica Antunes
jessica.antunes@grupojbr.com

A menos de 20 quilômetros do centro político brasileiro, a Chácara Santa Luzia surgiu ao redor da Cidade Estrutural, às margens do maior lixão da América Latina, agora desativado. O local, onde vivem cerca de 2,5 mil pessoas em situação de vulnerabilidade, é palco do primeiro Fest Povos do Distrito Federal neste domingo (25), que enche de cor as paredes dos barracos construídos de forma improvisada. Quase 200 grafiteiros de todo o país participam do projeto que promete ganhar as comunidades da capital.

A proposta do evento é unir artistas urbanos para transformar a paisagem de comunidades em vulnerabilidade. Desta vez, casas de alvenaria e barracos de madeira construídos por famílias de trabalhadores de materiais recicláveis da Cidade Estrutural foram transformadas em telas por artistas urbanos da capital e de outros estados. A área virou uma galeria a céu aberto, com uma estimativa de 200 residências repaginadas.

“Desde 2016 tentávamos recurso para esse tipo de evento e, agora, saiu pelo Fundo de Apoio a Cultura (FAC-DF). Vamos percorrer comunidades com demanda social. Quando o recurso chega nesses locais a gente entende o quanto é valoroso”, diz Davi Marcos, grafiteiro, produtor cultural e idealizador do projeto. Ao todo, R$ 94 mil serão destinados a duas etapas do Fest Povos, mas também há apoio da iniciativa privada. A próxima deve acontecer em São José, em Brazlândia, em junho.

Pelas ruas da comunidade, a aceitação é massiva. Moradores colocaram a cadeira na porta de casa e assistiram de camarote as paredes tomarem cor e os desenhos ganharem forma. Desempregada, Rosângela da Silva, 41 anos, mora ali há oito anos com esposo e cinco filhos. “A gente mora em favela, que é muito feio, abandonado, esquecido. Tudo o que é arte é bonito”, avalia.

Para ela, a intervenção ainda pode chamar a atenção das autoridades e desmistificar o local: “Aqui não vive só gente ruim. Tem muita gente boa e talentosa, tem muitos projetos da comunidade. É bom ter a oportunidade de mostrar outros lados da Santa Luzia”.

Mais de 150 artistas foram convidados para o projeto, tanto aqueles da própria comunidade quanto aqueles que vivem em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Espírito Santo, Minas Gerais e Pernambuco.

Donizete de Souza, 43 anos, é artista da grande São Paulo. Conhecido como Bonga, ele desconhecia a realidade da região. “O mais louco é que está no centro do poder e precisa de tanta infraestrutura. Nossa chance é de contribuir para a comunidade, trazer um pouco de alegria”, diz. Nascido em Recife, o tatuador Gustavo Cavalcanti, 40, está em Brasília há 14 anos, e defende a propagação artística: “Arte, teatro, dança, música mudam a realidade de um lugar. Em Recife tem mutirão há mais de dez anos”.

 

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