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Walter Linhares: ele ouviu e reportou o grande sonho de JK; confira entrevista

Por Arquivo Geral 20/04/2018 7h00
Foto: Breno Esaki

Ana Clara Arantes
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Era 1956 quando Walter Linhares, aos 20 anos, então repórter da rádio Marumbi em Curitiba (PR), entrevistou o candidato à presidência da República Juscelino Kubitschek. O diretor da emissora pertencia ao mesmo partido político de JK e, ao saber que o candidato iria passar pela cidade, incumbiu a missão ao “foca” do jornalismo. E foi um furo. A Linhares foi concedido apenas um minuto da palavra do político, mas o entrevistador conseguiu prolongar esse tempo por muito mais.

Linhares era um repórter iniciante, com apenas dois anos de profissão, e foi o único a conseguir a entrevista com Kubitschek na ocasião. Segundo ele, JK era um homem muito carismático e tinha uma maneira de andar e falar que demonstrava energia e decisão. “Ele era realmente uma figura impressionante”, afirma.

E se antes Brasília era apenas um sonho desafiador, amanhã a cidade já completa 58 anos. Linhares hoje tem 82. Para reviver esse momento em que a capital federal ainda era pensada com entusiasmo por seu criador, a reportagem do Jornal de Brasília se encontrou com Walter Linhares. Na entrevista, ele conta um pouco mais sobre este momento e sobre sua própria história, que se confunde com Brasília, onde vive há 51 anos.

Jornal de Brasília (JBr.) Como o senhor conseguiu entrevistar JK? Foi difícil?
Walter Linhares (WL) A entrevista foi no Palácio do Governo, em Curitiba, em 1956. Ali, onde Juscelino visitaria o governador, não autorizaram que a entrevista ocorresse, mas permitiram que eu pedisse uma saudação à rádio. Foi estipulado o prazo de um minuto. Após o acordo, eu aguardei até que JK aparecesse, e, de uma simples saudação, consegui extrair 30 minutos de entrevista com o então candidato à presidência.

(JBr.) Qual foi a sua sensação com essa oportunidade?
(WL) Juscelino era um homem muito carismático e enérgico. Foi muito emocionante entrevistá-lo. Foi, sem dúvidas, a entrevista da minha vida.

(JBr.) O que ele falou sobre o sonho de construir Brasília?
(WL)A última pergunta que fiz foi se ele acreditava que conseguiria construir Brasília em cinco anos e transferir a capital do Brasil para o Planalto Central. Juscelino respondeu que tinha certeza de que conseguiria. A convicção dele me deixou emocionado, e essa foi a pergunta que fiz com a resposta mais marcante, pela determinação dele.

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(JBr.) Qual outra pergunta marcou o senhor?
(WL)Quando perguntei sua opinião sobre a política naquela época de eleição. Ele respondeu que estava com a candidatura em andamento e esperava que os brasileiros dessem a oportunidade para que ele realizasse suas metas, como os problemas do governo e a construção de Brasília.

(JBr.) Se o senhor tivesse a chance de fazer outra entrevista com Kubitschek, o que perguntaria?
(WL)Eu gostaria de fazer uma abordagem sobre os pontos que ele estava atacando, como ele estava vendo o desenvolvimento do País e o aumento de empregos. Além disso, na área internacional, gostaria de saber sobre como ele estava conduzindo os interesses do Brasil no exterior.

(JBr.) Para o senhor, atualmente Brasília representa o sonho de JK?
(WL)Eu acredito que sim. É impressionante o crescimento da capital, inclusive extrapolando a ideia inicial de que seria uma cidade para 500 mil habitantes e, hoje, incluindo as cidades do Entorno, são 2,5 milhões.

(JBr.) Para o senhor, há semelhanças entre a política na época de JK E a política atual?
(WL)Na época de JK, as pessoas levavam mais a sério a função pública. Não se via os problemas que nós estamos assistindo hoje. Todo mundo fazia sua parte, então acredito que houve uma mudança muito grande.

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(JBr.) Como o senhor vê a história da política brasileira, já que vivenciou momentos distintos?
(WL)Nós estamos passando por um período muito difícil. No passado, não havia tantos escândalos, e atualmente isso parece uma instituição. Isso deprecia muito a vida política e a população já não acredita mais nos políticos. Acho que realmente há a necessidade de reforma nesse aspecto. A democracia está ameaçada porque há interesses entre os poderes e fala-se até em intervenção militar.

(JBr.) Como o senhor começou na profissão?
(WL)Eu estudava em Curitiba e lá tinha serviço de alto falantes, no qual eu era o locutor. Assim que terminei o segundo grau, precisei trabalhar. Um conterrâneo meu, de Ponta Grossa, tinha um programa em uma rádio e fui conversar para ver se ele me daria a oportunidade para fazer um teste. Foi aí que entrei em um estúdio, gravei e ele gostou da minha voz e a oportunidade do teste surgiu. Ele apresentava o programa com uma locutora que estava atrasada. Então, el me pegou pelo braço e disse que eu faria o programa com ele. Foi aí que tudo começou. Depois trabalhei em outras rádios e escrevi para jornais impressos.

(JBr.) E o senhor continua trabalhando…
(WL)Tenho uma editora, onde publico a Revista Ademi (Associação de Empresas do Mercado Imobiliário) há 35 anos. A revista trata sobre a área imobiliária. Fui fundador da Ademi e também da Câmara de Valores Imobiliários.

(JBr.) Fizemos essa entrevista no Memorial JK. Como o senhor se sente estando aqui dentro? Isso te traz lembranças?
(WL)Eu me sinto emocionado. Ter conhecido esse homem admirável, um estadista do século, e estar em um lugar onde ele se encontra de alguma forma realmente me toca muito. Tenho vindo aqui em diversas oportunidades, e sempre que chego me lembro de Juscelino e da admiração que tenho por ele.

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