Enquanto o clima da cidade não resolvia se fazia chuva ou sol, passos apressados percorriam os corredores do Conic. Como o próprio nome diz, o lugar icônico é mais do que um comércio entre a Rodoviária do Plano Piloto e o Setor Comercial Sul, no centro da capital. Não é de um dia para o outro que dá para resumir o lugar em poucas palavras. Afinal, amontoados de letras não são suficientes para descrever o cheiro das esquinas e das histórias.
Os ponteiros do relógio já haviam dado início à partida da tarde daquela quinta-feira, 16 de abril de 2015. Em poucos segundos, o semblante das pessoas mudava em frente a uma loja de CDs. Na misteriosa cena, olhares apressados e distraídos focavam no interior do local. Medo somado à curiosidade.
O melancólico som do recinto podia ser ouvido a pelo menos 20 passos de distância. Entre prateleiras de rock, blues, jazz, reggae e MPB, a recepção do vendedor foi marcada com olhar desconfiado e sorriso no canto da boca, que possuía duas presas de cinco centímetros. O sobretudo preto escondia as outras peças de roupa, assim como a própria pessoa ocultava muitos segredos. A camisa branca era coberta com uma espécie de colete marrom, combinada com uma calça preta da mesma cor das botas.
Não dava para reparar com firmeza o símbolo no pingente pendurado no colar que o homem levava no pescoço. Na mão direita, dois anéis, e, na esquerda, cinco. Afirmara ter tido coragem de pagar R$ 75 em um deles. Com cabelo desgrenhado, não se preocupava em ficar bem arrumado para que as pessoas pudessem apreciá-lo. Mechas loiras na parte da frente da cabeça misturavam-se ao restante dos longos fios pretos caídos sobre os ombros, que contrastavam com a cor pálida da pele.
490 anos de idade
O motivo para tanto espanto dos observadores é que o aniversariante do dia afirmara ter 490 anos. Seria humanamente impossível ter essa idade e ainda ter forças para ficar em pé. Ele só podia ser personagem daqueles filmes, tachados de terror, que gosta de sugar o sangue das pessoas. A diferença é que ele não aparece na rua somente quando o sol dá espaço para o anoitecer.
Comida de verdade em vez de sangue
Em plena luz do dia, Vlad Thepes perambula pelas calçadas de Brasília e atrai a atenção de quem o vê. Os dias são parecidos. Desperta cedo na casa onde mora sozinho, em Taguatinga Sul, para mais uma jornada de trabalho. Naquela quinta, lembrou que o descanso só viria em três dias, já que trabalharia até a tarde de sábado e folgaria no domingo. Desejou “bom dia” para o motorista e para o cobrador do ônibus. Na rua, muitos nem se espantam com a presença dele. Outros preferem ignorá-lo.
Ele também precisa se alimentar com comida de verdade. Ele deve preferir pão com manteiga e café a um copo de sangue. Ele também precisa esperar o ônibus chegar ou optar pelo metrô, quando os coletivos estão em greve. Ele também tem desejos. “Sonho ter um carro funerário Ford, do ano de 1978. É lindo. Ainda conseguirei comprá-lo”, confessa.
Vlad já bebeu sangue de verdade. “Eu estava tomando banho, enquanto a minha ex-esposa preparava a comida. Ela me gritou dizendo que havia cortado o dedo. Chupei o sangue dela”, garante. Vlad assegura que os dentes de vampiro machucam. “Certa vez, uma amiga me falou para morder o braço dela. Deu uma espetada”, sorri.
Nascido em Minas Gerais, em 1966, o vampiro é o filho caçula. Há oito anos, assumiu o traje. “Sempre tive o cabelo grande. Cheguei a Brasília como metaleiro. Me visto assim 24 horas por dia”, afirma. Segundo ele, foi apaixonado pelos filmes de Drácula desde criança. “Aos oito anos, adorava a Turma do Penadinho, a Turma da Mônica”, diz. Desde então, é atraído pela temática. “Tenho três caixões que estão na cidade de Arinos (MG). Um deles é um caixão baleia, que poderei usar como cama”, ressalta.
Refúgio
A música é um esconderijo para disfarçar a tristeza. “Gosto daquelas canções bastante depressivas e melancólicas”, admite. Assumir o personagem foi uma escolha. “Vampiro não é um demônio, como muitos pensam. Isso é ignorância. A vida é o maior presente de Deus, que deve ser aproveitada ao máximo”, admite. Há alguns anos, sofreu um acidente de carro e ficou em coma por oito dias. “Faço campanha de doação de sangue no grupo Vampiros do DF para ajudar outras pessoas, assim como precisei quando estava internado”.
Olhar bondoso e jeito sentimental
Diante do contraste na ação de um vampiro, ao degustar o sangue dos indivíduos quando ainda está quente, a atitude fria não condiz com o bondoso olhar do vampiro Vlad Thepes, que escolheu a capital federal como moradia. Ainda bem que, naquele dia, Vlad não conseguiu se esconder totalmente, pois havia guardado as lentes de contato de cor azul no bolso por causa de uma alergia ocular, que geralmente impactam ainda mais.
O vampiro, de carne e osso, tem sentimentos. Ele também se emociona. Certa vez, em um sábado qualquer, estava maquiado na porta do Teatro Dulcina de Moraes. Uma menina pequena, com idade aproximada de quatro anos, acompanhava do avô, o avistou. “Ela apontou o dedinho para mim, e ele deu um sorriso de aprovação. Fiquei sem entender nada. De repente, ela correu na minha direção. Eu estiquei a mão. Ela abraçou a minha perna. O meu olho encheu d’água. Ganhei o dia com aquela atitude da menininha”, conta.
Saiba mais
Vlad Tepes, o Empalador, viveu entre os anos 1482 e 1476. Era o rei da Valáquia, conhecida atualmente como Romênia. Combateu os otomanos e exterminou um quinto da população do país. A crueldade deu origem ao mito de Drácula. Também aterrorizou inimigos e súditos com os assassinatos cometidos em massa.