Fábio Magalhães
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Vítimas do descaso com o transporte coletivo, milhares de passageiros vivem diariamente o drama e as dificuldades decorrentes da quebra dos ônibus durante os percursos. Se não bastasse o atraso por causa das panes, muitos usuários ainda são obrigados a esperar uma próxima condução sob a chuva ou o sol escaldante. Dos 3.953 veículos pertencentes à frota de coletivos do Distrito Federal, 45% já ultrapassaram a idade-limite e circulam como carcaças sobre rodas pelas avenidas da capital. Desse total, uma média de 70 veículos quebra todos os dias e não consegue completar seus percursos. A estimativa é das próprias empresas de ônibus.
Por lei, veículos que transportam até 80 passageiros podem rodar até sete anos. No entanto, nas ruas do DF circulam coletivos que estão em operação há 19 anos, passam por fiscalizações do Transporte Urbano do Distrito Federal (DFTrans) e são liberados para voltarem às ruas. Porém, nem mesmo essas inspeções impedem que os veículos trafeguem com semelhanças à sucata.
Neste ano, foram lavrados pelo DFTrans 12.218 autos de infração, até o momento. Deste total, 9.564 foram por causa das más condições dos ônibus. No ano passado, o total de autos aplicados foram 12.980 infrações, o que correspondeu a 35,5 veículos notificados por dia. Já o número que se restringe a falhas nos veículos, que vão desde pequenos problemas aos mais complexos que podem comprometer a segurança dos passageiros, chegou a 7.641.
Um rodoviário que preferiu não se identificar denuncia que a quebra de coletivos acontece por falta de correta manutenção. Segundo ele, quando os carros quebram, os funcionários devem pedir um guincho, faz-se a manutenção e no outro dia o veículo já está em circulação. “O guincho demora até seis horas para chegar. Eles levam para oficina e fazem uma ‘meia-sola’. Já saí com carro sem freio, sem seta. Eu tenho medo de trabalhar assim, mas se reclamar, nós sofremos represálias”, revela o rodoviário, mostrando um vazamento de óleo no motor do ônibus em que trabalha atualmente.
Drama diário
Se para os funcionários das empresas a situação é embaraçosa, para os usuários os transtornos são enormes: atrasos no trabalho muitas vezes são inevitáveis, patrões ficam irritados e o trânsito fica caótico, com faixas paradas por causa dos ônibus que sofrem panes.
Moradora de Santa Maria, a dona de casa Amanda Louize, 24 anos, conta que já passou por diversas situações em que os coletivos quebraram no meio da viagem. Em todas estas ocasiões, a filha Emilly, de cinco anos, estava presente. “É um constrangimento ter de entrar pela porta dos fundos em outro ônibus porque o que você estava quebrou. Os ônibus quebram onde não tem parada, longe de tudo. Você é obrigado a se espremer em outro carro para poder chegar em casa e isso é muito humilhante”, desabafa.
Artimanhas para burlar vistorias
Os ônibus do DF devem ser submetidos à fiscalização periódica do DFTrans. O intervalo entre as vistorias deve ser de dois a seis meses. Porém, rodoviários denunciam que, quando os ônibus estão com peças estragadas, elas são substituídas para burlar a fiscalização e, aprovada a circulação, as peças são retiradas.
Empresário, Carlos Roberto Chagas, que representa uma das empresas do transporte, confirma a prática ilegal que acontece nos pátios das empresas. “Sabemos que é difícil manter um ônibus, mas é inadmissível fazer essa fraude. Extintores, lâmpadas e outras coisas são trocadas”, diz.
Diretor operacional do DFTrans, Ricardo Leite admite que existe a tentativa de maquiar os problemas. Por isso, a fiscalização também acontece de forma esporádica nas ruas para flagrar a real situação. As multas variam de R$ 270 a R$ 1.080 mil. “Na vistoria programada, que é bem detalhada, nós verificamos 150 itens”, conta.
Segundo Leite, mesmo sabendo que os veículos quebram com frequência, não existe norma específica que penalize os empre sários pela má prestação de serviço e falta de manutenção.
De acordo com o presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do DF (Setransp), Wagner Canhêdo Filho, apesar de seus cálculos apontarem a quantidade de 70 ônibus quebrados todos os dias – que prejudica no mínimo 3,5 mil pessoas – o percentual é baixo e segue os padrões mundiais. “Não concordo com as quebras, mas reconheço que elas estão dentro do limite”, argumenta.
Tarifa
Questionado sobre a manutenção, Canhêdo garante que as empresas são comprometidas em fazer os trabalhos, pois, em caso de acidentes, elas podem responder civilmente. Em sua visão, para que a frota seja trocada, é preciso subir a tarifa. “São oito anos sem reajuste e a primeira coisa que as empresas fazem quando há desequilíbrio financeiro é não trocar a frota. Não queremos trocar a frota toda, porque 50% dos carros só funcionam em horário de pico e deixar um carro novo sem funcionar o dia inteiro é penalizar o usuário a pagar muito”.
Saiba mais
Para amenizar esta situação, a aposta do governo está nas modificações do transporte previstas para o ano que vem. No final de julho, deverão estar em circulação novos ônibus.
A licitação prevê 100% de frota renovada. Na avaliação do subsecretário de Políticas de Transporte, Luiz Messina, certamente a manutenção e a quebra dos ônibus diminuirão.
Ele argumenta que os 70 veículos que quebram diariamente representam de 1% a 2% da frota.