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Brasília

Valentina de volta depois de sequestro

Arquivo Geral

30/06/2017 7h00

Atualizada 06/07/2017 9h46

Foto: Myke Sena

Manuela Rolim
Lucas Móbille
Douglas Lemos
Raphaella Sconetto
redacao@jornaldebrasilia.com.br

Durou quase sete horas o sequestro de um bebê de três meses, raptado da mãe, por uma conhecida, no centro da capital, na manhã de ontem. Valentina Bastos Rodrigues foi levada por Cevilha Moreira dos Santos, 44 anos, no Edifício Boulevard, no Conic, no Setor de Diversões Sul. A criança passou a tarde nas mãos da suspeita até ser devolvida para a mãe, a diarista Arlete Bastos da Silva, 29.

Apesar do crime ter acontecido no DF, a sequestradora foi presa em Planaltina de Goiás, pouco antes das 17h. Segundo a investigação da Delegacia de Repressão a Sequestro (DRS), as duas foram ao Conic para Arlete fazer um exame admissional, depois que Cevilha ofereceu uma vaga de emprego a ela, alegando ser proprietária de uma empresa de limpeza. As duas se conheceram há uma semana, no posto de saúde de Sobradinho II, cidade onde a diarista mora com a criança, o companheiro e mais três filhos.

Conforme mostram as imagens do circuito interno de segurança do prédio comercial, as mulheres chegaram juntas, mas, 20 minutos depois, a sequestradora saiu sozinha segurando Valentina nos braços. Em seguida, pegou um táxi e chegou a dizer para o motorista que iria para o Recanto das Emas, mas mudou de ideia no meio do caminho e parou na 114 Sul, onde teria pego um trem no Metrô.

Assim que percebe o sumiço da filha, Arlete aparece correndo no vídeo e pede ajuda da Polícia Militar. Segundo a corporação, o taxista não é lotado naquele ponto e estava passando por acaso no local, quando foi chamado pela mulher. De imediato, os militares começaram um trabalho de identificação da suspeita e, em seguida, o patrulhamento.

A sequestradora ficou rodando, passou pelo Gama, até parar em Planaltina de Goiás. Lá, ela pegou um segundo táxi, em frente ao Hospital Municipal Materno Infantil Santa Rita de Cássia, em direção a Planaltina do DF. De acordo com uma funcionária da unidade, Cevilha é conhecida na cidade. À reportagem, o taxista José Alves de Macedo, 62, contou que, durante o trajeto, um policial ligou para o seu celular e pediu para que ele voltasse. No entanto, assim que o motorista fez o retorno, Cevilha se desesperou. “Ela ameaçou matar o bebê caso eu voltasse. Diante disso, continuei em direção ao DF. No meio do caminho, porém, fui parado pela polícia”, conta.

Registro falso em mãos

A sequestradora foi presa com uma certidão de nascimento falsa, que ela iria utilizar para o bebê raptado. O documento, no entanto, apresenta algumas informações suspeitas, o que chamou atenção da Polícia Civil de Goiás. Para começar, o registro estava com a data de ontem e apresentava endereços distintos. Além disso, o nome Valentina foi trocado por Isabele.

Policiais descobriram que a mulher já tinha Certidão de Nascimento novo para a criança. Foto: Myke Sena

Policiais descobriram que a mulher já tinha Certidão de Nascimento novo para a criança. Foto: Myke Sena

No fim da noite, moradores de Planaltina de Goiás procuraram a delegacia, depois que o rosto de Cevilha dos Santos foi divulgado na imprensa e reconhecido pela comunidade. Segundo eles, a mulher já havia passado por algumas ruas da cidade a procura de uma família com criança pequena. Ela dizia trabalhar com enxovais de bebê e tinha a intenção de doar as roupas.

“Fiquei desesperada quando soube da notícia. Meu neto também é um bebê mais ou menos da mesma idade. Salvamos muitas crianças que poderia ter sido vítimas”, relata uma moradora.

Valentina retorna para os braços da mãe

O reencontro de Arlete Bastos da Silva com a filha foi emocionante. Valentina recebeu os primeiros cuidados no Hospital de Planaltina de Goiás e, em seguida, voltou para o colo da mãe. Faminta, a criança mamou e ganhou muito chamego da diarista. “Estou aliviada. Coloquei o nome da minha filha de Valentina pelo significado da palavra. Hoje (ontem), ela, de fato, mostrou o quanto é guerreira”, afirma.

Arlete lembrou do dia em que conheceu a sequestradora Cevilha. “Foi há uma semana. Eu estava perto do posto de saúde de Sobradinho, quando ela passou por mim e disse que era assistente social. Também me prometeu um emprego e disse que trabalhava com enxovais de bebê. Eu sei que o mundo está perigoso, mas nunca imaginei que isso fosse acontecer comigo. Antes de eu entrar para fazer o exame admissional, ela ainda me disse ‘pode confiar em mim, não vou roubar a sua filha’. A sala estava cheia de gente, tudo aconteceu em cinco minutos”, relata a mãe.

A mãe havia levado a bebê ao posto de saúde pois a criança estava gripada. “Foi na saída que ela me viu e começou a falar comigo” contou.

Em casa, pai de Valentina mostrou o quarto da filha e o berço. Foto: Myke Sena

Em casa, pai de Valentina mostrou o quarto da filha e o berço. Foto: Myke Sena

O pai de Valentina, o ajudante de pedreiro Valdir Rodrigues dos Santos, 33 anos, também estava muito abalado. Próximo ao berço onde a bebê dorme, ele conta que o filho mais velho acompanhou a mãe até o encontro com Cevilha, mas a sequestradora vetou a ida do garoto até ao Conic. “Não cheguei a conhecer essa mulher. Há dois dias, ela comprou R$ 100 em compras em um supermercado e trouxe as coisas para cá. Tinha arroz, leite, açúcar e biscoitos. A Arlete só comentou que ia fazer essa entrevista e mais nada”, completa. Segundo a família, a sequestradora também morava em Sobradinho, mas já havia tido vários outros endereços.

Ao lembrar de seu desespero, Alerte agradeceu o trabalho das polícias Civil e Militar: “Saí da clínica correndo e gritando e logo em seguida muitos policiais já estavam buscando minha filha”, acrescentou.

Arlete contou que, após o ocorrido, não teve mais qualquer contato com a sequestradora de Valentina. “Eu já estava tão desesperada que estava pensando em algo pior que poderia ter acontecido. Eu vi que ela não queria me ajudar, queria mesmo era minha filha.”

Saiba mais

  • Testemunhas acionaram a Polícia Militar após desconfiarem da atitude de uma mulher, com um bebê no colo, em uma farmácia do Gama Sul. Ela comprou fraldas no estabelecimento.
  • Policiais foram até o local, mas a mulher já havia ido embora.
  • A proprietária de um salão de beleza vizinho da farmácia, Maria Lúcia de Jesus, contou que Cevilha passou no local e pediu para esquentar a mamadeira da criança e tentou alimentá-la, mas a bebê não quis.
  • Logo depois, a sequestradora pediu ajuda para solicitar um Uber e foi então que uma outra comerciante vizinha ofereceu carona.
  • A jovem, que preferiu não se identificar, ia para o Novo Gama e levou Cevilha até as proximidades da Rodoviária da cidade.
  • A suspeita chegou a perguntar para a mulher se ela tinha visto reportagem sobre o caso do “sequestro de uma criança.”

Planejamento do crime

Segundo Madalena dos Santos Silva, concunhada de Arlete, Cevilha já tinha doado uma cesta básica à mãe da criança, além de ter oferecido o emprego em uma empresa de limpeza, com salário de R$ 1.000.

Ainda em estado de choque, a concunhada afirmou que acredita que a sequestradora tenha premeditado o crime. Ela disse que ninguém esperava pela situação. “O coração fica apertado. Nem que eu vá para a cadeia, se essa mulher cruzar meu caminho sou capaz de arrancar os olhos dela”, desabafou.

Um sobrinha de Arlete, Poliana da Silva, chegou à Delegacia de Repressão a Sequestro (DRS) e confirmou a história contada por Madalena. “No momento em que as duas se conheceram no posto de saúde, a minha tia contou a sua história e disse que estava passando por dificuldades financeiras”, afirmou.

Assim que foram informados da prisão, os policiais civis da Delegacia de Repressão a Sequestro (DRS) levaram Arlete até o hospital de Planaltina, onde a pequena já aguardava pela mãe, nos braços da mulher de um PM.

Depois do susto e muito emocionada, uma cunhada de Arlete, Márcia Rodrigues de Souza, lembrou o sufoco e pediu Justiça. Ela aguardava os parentes na casa da vítima. “Foi um dia difícil e de muita agonia. Agora, a sensação é de alívio e queremos que ela seja punida”, afirmou.

Márcia lembrou que Arlete é uma pessoa batalhadora, cria todos os filhos com muito trabalho e por isso confiou na oferta de emprego de Cevilha.

Vizinhos comemoram ao saber que Valentina já estava novamente nos braços de Arlete. “Graças a Deus ela já está com a mãe de novo”, gritou aliviada uma moradora da mesma rua da diarista.

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