A Faculdade UnB Gama completa um ano nesta terça-feira (25). Inaugurado em instalações provisórias, durante a crise da Universidade de Brasília, o campus conseguiu dobrar de tamanho: atende hoje 720 alunos e conta com 34 professores e 15 funcionários. Mesmo no improviso, o espaço físico também aumentou – de duas para seis salas de aula no antigo prédio do fórum do Gama, e mais cinco salas no estádio Bezerrão.
Para além dos números, a UnB Gama mudou a vida de jovens que sonhavam em ingressar no ensino superior. Davi Pedroza, 22 anos, é um deles. O rapaz, que nunca fez curso preparatório, tentou diversas vezes passar em Engenharia Civil, no campus Darcy Ribeiro. Davi, que sempre morou no Gama, já tinha se mudado para uma cidade no interior da Bahia, quando conseguiu a vaga na UnB Gama. “Estudava em casa, sozinho. Foi como realizar um sonho, fazer engenharia na universidade que eu sempre quis”, conta o aluno do 3º semestre, que acaba de conquistar medalha de bronze no judô, nas Olimpíadas Universitárias.
Davi se beneficiou do programa de inclusão da UnB. Estudantes que cursaram, no mínimo, dois anos do ensino médio em escolas das cidades de abrangência dos novos campi tem a nota final multiplicada por 1,2, caso sejam aprovados no vestibular. Porém, a medida ainda não conseguiu abrir as portas da universidade a toda população. O diretor da UnB Gama, Alessandro Borges, calcula que apenas 40% dos alunos sejam da zona de predominância da unidade, enquanto os outros 60% vêm do Plano Piloto e dos lagos Sul e Norte.
Mobilização
Borges acredita que a UnB Gama promoveu uma grande mudança na região. “A comunidade se mobilizou. Houve abertura e reforma de restaurantes que ficam perto do campus”, exemplifica o diretor. Caso da lanchonete Simpsons, a mais próxima do prédio do antigo Fórum da cidade. O proprietário do quiosque, Giordani Rodrigues, afirma que o movimento dobrou desde a inauguração da unidade. “Tive que contratar mais um funcionário e comprar produtos a pedido dos alunos, como sanduíche natural, suco em lata e chá gelado”, conta.
Nessa adaptação, há universitários que saíram da zona central de Brasília para viver mais perto do local de estudo. Cristopher Amaral, 20 anos, aluno do 3º semestre, trocou a casa no Lago Norte por um apartamento no Gama, dividido com três amigos. “Rodava 100 quilômetros por dia, dava quase R$ 500 de gasolina por mês”, lembra o jovem. O administrador do Gama, Cícero Neildo, espera que a presença da UnB impulsione a criação de empresas na região. “Já temos a Ambev e a Rexam (especializada em embalagens). Vamos inaugurar em breve uma nova Área de Desenvolvimento Econômico, em frente à sede definitiva da UnB”, diz.
Problemas
Para alunos, professores e funcionários do campus, a principal dificuldade é a falta de infraestrutura. “O espaço não é adequado, divide os estudantes, principalmente os calouros, que têm aulas no Bezerrão”, opina Gracy Lamarc, 18 anos, aluna do 2º semestre. Davi Pedroza, do 3º semestre, reclama da ausência de uma biblioteca. Lucas Duarte, 18 anos, do 2º semestre, critica a falta de um espaço de convivência. “Não temos Restaurante Universitário, nem lanchonete, gasto no mínimo R$ 10, R$ 15 por dia para me alimentar. Sai caro”, desabafa o jovem. As obras para a construção do primeiro prédio definitivo do campus já começaram, e a perspectiva é que a obra seja concluída até o fim deste ano.
O diretor da UnB Gama, Alessandro Borges, afirma que a falta de espaço incentiva a criação de novas metodologias de ensino. “A gestão do tempo é muito importante para nós. Todas as disciplinas estão on line, e os professores sempre fazem uma pré-aula antes de ir ao laboratório”, destaca. A graduação no campus se desenvolve aos moldes do princípio da UnB, na década de 60. Há um curso tronco – Engenharia – e os alunos optam por uma das especialidades – Energia, Eletrônica, Automotiva e de Software – após dois anos de curso.
Para o professor Marcus Vinicius de Morais, responsável pelas disciplinas Desenho Técnico e Álgebra Linear, o Gama conseguirá formar engenheiros multidisciplinares, cada vez mais demandados pelo mercado. “A ideia do campus é inovadora. Além de ser uma universidade, a intenção é transformar a futura sede em uma politécnica, um centro de referência na área”, aposta. O professor recém contratado Edson Alves acredita que a união dos docentes é o grande diferencial da unidade. “Aqui tem de tudo: físicos, químicos, matemáticos. O resultado é diferente”, diz.
“O Gama é uma cidade que cresceu muito pouco nos últimos 30 anos. A longo prazo, creio que a UnB pode ajudar no desenvolvimento local”, completa o professor Edson Alves, que morou na cidade durante 27 anos. Para o reitor da UnB, José Geraldo de Sousa Junior, a unidade conseguiu se consolidar no primeiro ano de existência. “E o fez com todo o espírito do pioneirismo, contornando das dificuldades”, ressalta José Geraldo.
A UnB Gama oferece a partir de setembro a especialização em Engenharia Clínica, a primeira da unidade. As inscrições encerram em 29 de agosto e podem ser feitas na secretaria do campus. A direção também pretende lançar até o início do ano que vem o primeiro mestrado da UnB Gama. A pós, em análise pela Capes, será em Engenharia Clínica, com foco em Instrumentação Biomédica. Informações: 3484-3443 |