Fábio Magalhães
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Considerado o pai da arquitetura moderna, Oscar Niemeyer deixou um legado de obras espalhadas por todo o mundo e também nos quatro cantos da capital federal. As curvas, que eram marcas registradas de seus projetos, deram vida a Brasília e fez da cidade Patrimônio Mundial da Humanidade. Apesar de algumas delas ainda não terem sidas tiradas dos croquis, surge neste momento os questionamentos se, afinal, existirá alguém no Brasil que sucederá tal genialidade.
Num primeiro momento, todos os projetos que estavam em andamento serão continuados pelos netos e bisnetos de Niemeyer, que também são arquitetos e administram escritórios no Rio e no DF. Porém, quando se esgotarem os desenhos feitos por ele, a tendência, segundo especialistas, é que o traçado das linhas curvas, que tanto encantou o mundo, não seja mais produzido da mesma forma.
Conforme analisa o arquiteto professor emérito da Universidade de Brasília (UnB), José Carlos Coutinho, novas obras como as de Niemeyer jamais serão vistas. A explicação para esta afirmação é que a personalidade do gênio da arquitetura era única e ele não se preocupou em deixar seguidores que propagassem a mesma criatividade e estilo de produção: “Ele projetava por meio do seu impulso criador e de maneira espontânea. Embora ele tivesse os conceitos básicos da arquitetura, ele nunca se preocupou em fazer discípulos. Acredito que essa forma de arquitetura morre com ele, porque todos os arquitetos reconhecem o seu personalismo absoluto.”
Forma única
Embora argumente que a curva é um item bastante utilizado na arquitetura e não é exclusividade de Niemeyer, Coutinho reconhece que a forma com que ele a utilizava merece admiração. Suas obras, além de serem ousadas, eram incrementadas com criações de grandes artistas. “O Niemeyer começou sua carreira utilizando a linha reta e uma das inovações com a curva foi a Pampulha, em Minas Gerais. Desde jovem, ele era irreverente, ousado e tinha certa predileção pelas curvas. O diferencial é que, desde a primeira obra, ele se cercou de gênios como Portinari, Burle Marx e Athos Bulcão”, analisa, citando com exemplo a Igrejinha da 108 Sul, ondulada e revestida de azulejos de Bulcão.
Essência de criação
Diretora da faculdade em que Niemeyer se formou, a Escola Nacional de Belas Artes, Denise Barcellos Pinheiro Machado afirma que possivelmente não haverá outro arquiteto com a mesma essência de criação. “Igual a ele é muito difícil que exista. Ele era bastante lúdico como arquiteto e tinha o traço muito especial”, diz.
A lembrança mais forte que Denise guarda foi a receptividade com que Niemeyer teve. “Eu tinha 20 anos e estava com uma carta de recomendação em mãos. Ele era muito simples e receptivo no estilo clássico. Outras vezes, mais recentemente, fiz várias visitas ao escritório dele. Nos desenhos, provavelmente ele não terá continuadores, mas com o olhar, as mensagens, e no modo de colocar a arquitetura como transformadora da sociedade, ele pode deixar muitos seguidores”, indica Denise.
Singular
Coordenador do curso de arquitetura e urbanismo do UniCeub, José Galbinski também é um dos arquitetos brasileiros que supõe que Niemeyer não terá sucessores no modo de desenhar. Ele acredita que nem mesmo os netos e outros profissionais que trabalharam com Niemeyer durante anos poderão dar continuidade a este traçado. “O Oscar é uma figura que fez obras singulares. Não creio que existam sucessores. Ao menos, até hoje, não apareceram, nem mesmo dentro do escritório dele. Ele pode influenciar, mas ninguém terá a mesma sensibilidade, a leveza e elegância da curva feita naturalmente”, garante.
O presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil no DF (IAB-DF), Paulo Henrique Paranhos, argumenta que a personalidade de desenho é única. “Traços específicos iguais aos do Oscar não se revelaram até hoje e não imagino que venham a se revelar. A obra dele é precedente de obra de autoria única”, analisa Paranhos.