De braços abertos, pendurado em uma cruz e com uma coroa de espinhos, o protagonista do cristianismo foi crucificado há milhares de anos, conforme conta a história bíblica. Em alusão a um dos momentos mais emblemáticos da religião predominante no País, hoje diversas paróquias do Distrito Federal encenam a Via-Sacra de Jesus Cristo. É Sexta-Feira da Paixão, antevéspera do fim da Semana Santa, que é recheada de solenidades religiosas.
Maior teatro a céu aberto do Centro-Oeste, o tradicional evento do Morro da Capelinha, em Planaltina, é o mais esperado. A expectativa é que o espetáculo, que completa 42 anos, atraia entre 150 mil e 170 mil pessoas neste ano, segundo a coordenação da celebração. Somada às comemorações menores espalhadas pelo DF, as vias-sacras brasilienses devem reunir aproximadamente 200 mil pessoas.
O espetáculo conta com 1,4 mil integrantes, sendo a maioria atores da comunidade de Planaltina. Neste ano, a Via-Sacra será mais tímida, com redução devido aos problemas com verba, mas os esforços dos envolvidos devem prevalecer na noite de hoje. “É o nosso grande evento”, enaltece Maíra Vieira, coordenadora-geral da encenação, que percorrerá cerca de sete quilômetros.
Reconstrução
Para o grande dia, eles usaram a Quaresma como preparação do elenco e se consideram preparados para uma grande celebração. Com o tema Recebereis o Espírito Santo e sereis minhas testemunhas, o evento homenageará o Divino Espírito Santo. “Nosso trabalho é de reconstrução da fé. Lembramos, com a Via-Sacra, Cristo vivo e ressuscitado!”, destaca Maíra, que participa do movimento há 15 anos.
Alterações no trânsito
Para a maior Via-Sacra do Distrito Federal, a de Planaltina, haverá operação especial. A 31ª Delegacia de Polícia, localizada na Quadra 19 do Setor Buritis IV, será responsável pelo registro das eventuais ocorrências criminais que surjam durante o evento. O trânsito na DF-230 terá sentido único no trecho entre o Colégio Agrícola e a rotatória.
O fluxo na pista seria invertido por volta das 23h e permaneceria em sentido único para Planaltina. Uma das quatro vias de acesso ao Morro da Capelinha estará fechada para a passagem de pedestres, mas as outras serão organizadas para o trânsito de veículos, situações de emergência e para a produção do evento.
O Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF) vai coordenar o tráfego nas vias internas, o acesso ao morro e nas áreas de estacionamento. Além disso, vai isolar a área destinada ao estacionamento na Praça do Cruzeiro. O acesso à Via-Sacra pelas encostas do Morro da Capelinha e pelas praças do Calvário e do Cruzeiro será proibido.
Isolamento
As pistas serão isoladas para estacionamento de autoridades, credenciados e pessoas com deficiência, além de ser local de acomodação da imprensa e da instalação dos postos de apoio da Polícia Militar, Polícia Civil, Detran, Corpo de Bombeiros e demais órgãos públicos envolvidos.
“Oportunidade de evangelizar”
Sem recursos públicos, mas com força de vontade, as vias-sacras prometem cortar as regiões administrativas do DF. No Recanto das Emas, a Paróquia São Gabriel Arcanjo promete emocionar. O coordenador Fabrício Sousa conta que foram dois meses de ensaio dos 250 voluntários, que esperam receber cinco mil pessoas.
“Estamos há um mês e meio sem dormir. Este ano não tivemos verba nenhuma do governo e está sendo muito difícil, mas nossa estrutura, graças a Deus, será melhor que a do ano passado”, comemora. Ele diz que a celebração é pela conscientização das pessoas: “Vivemos em um mundo de muita violência, com muitas mães aflitas. É gratificante ver a emoção de quem acompanha, e a fé se tornando cada vez mais forte. Mais que um espetáculo, é oportunidade de evangelizar”.
Em Sobradinho, a expectativa é de que mais de 18 mil pessoas compareçam e se emocionem na apresentação de 15 estações da Paixão e Morte de Jesus Cristo, que vão desde sua condenação até a ressurreição. Um show pirotécnico encerrará a celebração. Ali, 850 pessoas participam da figuração.
Fora do quadrado
A Região Metropolitana está representada pelo Novo Gama (GO), que, às 16h, espera que 40 mil pessoas compareçam ao Morro Santo do Lago Azul para a 15ª Via-Sacra. Francisco Alves, 37, representará rei Herodes, que condenou Jesus por blasfêmia.
“Aumentamos a arquibancada e a Prefeitura Municipal é parceira, principalmente com a parte de adereços. Estamos ansiosos e com os nervos à flor da pele. É uma tradição e muitos conhecem a história pela encenação. É uma grande responsabilidade”, avalia.
Esperança
“Nossa mensagem é de que Cristo morreu por amor e que há esperança de salvação. Ele vai retornar. É um momento de renovação de fé. A crucificação não significa o fim. Muito pelo contrário, é o começo de tudo”, sustenta Rayanne Albuquerque que, aos 17 anos, coordena a equipe de encenação da Vila Planalto.
Para o administrador Douglas Herbert, 30, “é um momento que representa tudo aquilo que aconteceu com Jesus Cristo. É relembrar os martírios e dores que Ele teve para que, no domingo, voltasse à vida. É vivenciar tudo o que ele viveu”. Ele é coordenador de uma das vias-sacras que acontecerão em Ceilândia.
Ali, serão dez quilômetros de caminhada como representação da trajetória de Jesus. “É o retorno de uma esperança de fé, renovação e até conversão de quem não acredita”, conclui.